Opinião Vasco Eiriz de Sousa | Bagagem de mão

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A história recente da emigração portuguesa é fácil de resumir. Na primeira metade da década de 1980 vimos imensa gente à procura de oportunidades lá fora. Pensou-se que fosse um fenómeno isolado. No final dessa década acreditava-se que a hemorragia dos anos 1960 e 1970 tinha estancado. Algo que teria ficado ultrapassado com a entrada do país na Comunidade Europeia e com a prosperidade dos anos 1990.

Estávamos convencidos que o tempo da mala de cartão tinha passado. Enganamo-nos. Ao longo de todos estes anos a hemorragia afrouxou durante uma ou duas décadas, mas não estancou. Foi atenuada em 1986 com a ajuda de Bruxelas. Mais tarde, durante alguns anos, os ucranianos, brasileiros e africanos convenceram-nos que éramos uma espécie de França ou Suíça do Século XXI. Ainda por cima alguns deles exerciam medicina, o mito profissional do português médio. Iludimo-nos.

Centenas de quilómetros de autoestradas, dez estádios de futebol e uma catrozada de parcerias público-privadas depois, as estatísticas continuam a exibir o fenómeno da emigração. Preocupante. Os países de destino tradicional mantêm-se atrativos, mas agora há um toque mais global na diáspora: há quem prefira destinos latinos; outros procuram países anglo-saxónicos; Angola tornou-se um El Dorado; e muitos vão para destinos exóticos difíceis de localizar no mapa.

Há centenas de portugueses a criar perus em Inglaterra e outros tantos a manter galinhas na “pobre” Irlanda. Mas há também quem esteja a tirar pós-graduações no Massachuttes Institute of Technology ao abrigo de planos tecnológicos. Já não usam mala de cartão. Agora usa-se bagagem de mão para caber na companhia de aviação low-cost e telefona-se por Skype e derivados. Do mal, o menos; já ninguém vai a salto. Está tudo mais próximo.

Há outros indicadores curiosos. Por exemplo, o incontável número de trabalhadores que semanalmente atravessam as fronteiras terrestres em carrinhas brancas para alimentar a construção civil em Espanha. Fenómeno que entretanto esfriou e levou algumas delas a ir mais além dos Pirenéus. Estes nem sequer aparecem na estatística da emigração. Tecnicamente estão sem emprego, mas enfardam duro. No regresso, enchem o depósito de combustível e aviam as compras da semana com IVA mais amigável.

No historial da emigração portuguesa quiseram convencer-nos de que os que saíam era gente para empregos de colher e vassoura. Nada disso. Muitos dos que continuam a sair levam canudo. Tornamo-nos exportadores de massa cinzenta. O paradoxo é tal que ao Governo deu-lhe agora para criar um visto para atrair talentos! Ou seja, não criamos condições para manter os nossos talentos mas queremos atrair não se sabe bem o quê. Depois de tanto branqueamento de capitais, o país vai agora servir vistos para branquear mais capital e alguns registos criminais. Pelo meio vendem-se umas casas.

De entre os que ficam, a muitos também lhes apeteceria partir. O último teria que fechar a porta. Mas nem isso é fácil.

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