Castro Laboreiro // Uma fábrica de chocolate que “deu” em museu

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Deverá reabrir as suas portas, ainda durante este mês de agosto, o Museu de Castro Laboreiro. Este tem-se mantido fechado aos visitantes desde outubro, após uma inundação ali registada. O tempo rigoroso da serra castreja, oscilando entre temperaturas elevadas e os rigores de invernos gélidos, terá facilitado as infiltrações nas paredes e cobertura. Esta teve mesmo de ser completamente substituída!

 

 

Instalado na antiga Fábrica de Chocolates Caravelos e integrando uma “Casa Castreja”, anexa, o Núcleo Museológico de Castro Laboreiro foi inaugurado em maio de 2004.No seu interior existe uma exposição relativa à história castreja, aos seus trajes e costumes, designadamente a transumância entre as brandas e inverneiras.

Elisabete Sousa é a funcionária responsável por este museu rural gerido pelo município melgacense. À reportagem do VALE MAIS falou de alguns aspetos da realidade, passada e presente, daquela que, com cerca de 9 mil hectares de área, é uma das maiores e mais típicas aldeias de Portugal, apesar da sua população ter decrescido e, neste momento, em pouco ultrapassar o meio milhar de habitantes.

CASTELO QUE “ARREBENTOU”castro laboreiro3

Pouco antes do seu encerramento para obras, o VALE MAIS esteve lá. Na altura, Elisabete Sousa explicou-nos, através de um mapa, o processo de transumância que ainda se aplica na freguesia (ver edição 21 da VALE MAIS), onde 20 a 30 famílias (cerca de seis dezenas de pessoas) fazem vida nas brandas (1100 a 1200 metros entre a primavera e o outono) e nas inverneiras (400 a 800 metros no resto do ano). O grosso dos habitantes vive, porém, nos “lugares fixos”, ou seja, entre os 900 e os mil metros.

Também nos desvendou um pouco da história do Castelo. “Tinha esta torre de menagem, mais quatro pequenas. Todavia, em 1659, aquando das guerras peninsulares e os soldados armazenavam a pólvora na torre, um raio de trovoada ‘pegou’ na pólvora a ‘arrebentou’ com o Castelo!  Ficaram só as muralhas!”, deu-nos conta.

Na altura, a “vila” de Castro Laboreiro era muito pequena e limitava-se a casas à volta da igreja. “Hoje está completamente dispersa. Toda a agente quer uma casa comterreno. Antigamente não! Dependia-se dos terrenos. Quanto menos ocupassem para a casa, mais terreno tinha para colher. Por isso, todas elas são pequenas e geminadas, uma protegiam as outras do frio.” – observa Elisabete.

DAS MAIORES NECRÓPOLEScastro laboreiro7

Uma das maiores necrópoles megalíticas situa-se no planalto de Castro Laboreiro. “Neste armário, são guardadas as escavações realizadas no Castelo (1972-78), peças que foi possível recuperar, algumas baionetas. Também esta estatueta antropomórfica que estava dentro dos dólmens.” – explicou-nos, enquanto percorríamos o espaço.

No planalto existem cerca de uma centena de dólmens. Quatro sofreram intervenções em 1993, a estatueta foi encontrada no interior de um deles. Segundo os arqueólogos, pelos seus contornos, tratava-se da deusa da fertilidade. Quando os mortos eram sepultados, com eles seguia toda a riqueza que possuíam!

ANTIGO JORNALcastro laboreiro1

No espaço é, também, exibida a indumentária tradicional, designadamente uma inverneira/traje das festas. “Isto é uma zona de frio! Antigamente, as senhoras não utilizavam calças e, para proteger parte da perna, tinham os calções feitos de lã de ovelha”– refere-nos a guia.

Como acima dissemos, o imóvel começou por servir uma antiga fábrica de chocolate, fundada em 1909. Razão para ali estarem patentes objetos que pertencerem à mesma, como uma antiga torradeira de cacau e um forno. A unidade fabril mudou-se mais tarde para dois antigos moinhos (até 1945) e que hoje estão adaptados ao turismo no espaço rural. A fábrica acabou por fechar em 1965, então já num imóvel da vila de Melgaço.

No local foi-nos possível, ainda, consultar edições do jornal “A Neve”, propriedade do antigo dono da fábrica e que existiu durante os anos de 1920 e 1921. Nele se dava conta de acontecimentos locais, designadamente das greves que se fizerem nas então minas de volfrâmio e, mesmo, na própria fábrica. Igualmente se noticiava a abertura de “novos hotéis,como eles diziam, e que eram restaurantes”.

BRANDAS E INVERNEIRAS

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Patente, de igual modo, uma maquete onde se pretende ilustrar as vivências na pré-história e documentos, incluindo fotos, que ilustram o trabalho desenvolvido, há cerca de 10 anos, por técnicos do Centro Nacional de Arte Rupestre.

“No planalto onde se situam os dólmens, temos uma pedra grande, arte rupestre, com várias gravuras. Vieram fazer o levantamento das gravuras e trabalhavam das 11 horas da noite até às 5 horas da manhã”, explicou-nos a funcionária, ela própria uma castreja.

No Museu de Arte Rural estavam também a ser digitalizados os assentos de casamentos, realizados na paróquia entre 1911 e 2008. “Neste momento, estamos ainda a fazer recolha de fotografias para as pessoas verem a diferença em roupa, em cabelos, como se vestiam… Temos os registos todos e vamos colocá-las ao lado as fotografias” – informou-nos.

Há também “uma salinha de exposições que umas vezes é de bordados, outras de lã, outras de trajes; as pessoas, às vezes, dão-nos peças… e, agora, vamos tratar do cão de castro laboreiro”, observou.

A parte superior do museu é dedicada às brandas e inverneiras. Todos os painéis são alusivos às mesmas. Neles, é apresentada a casa de pedra e madeira! O telhado, com duas ou quatro águas, é bastante inclinado para escoar rapidamente as chuvas e a neve. Era comum a parte de cima do imóvel se destinar às pessoas e o rés do chão aos animais.

“A diferença está, unicamente, na paisagem. As árvores, de grande porte, não existem nas cotas mais elevadas, onde a temperatura média é bastante mais baixa”, conclui Elisabete.

CASA TÍPICAcastro laboreiro6

Em espaço anexo, foi-nos possível apreciar o que seria, então, uma casa típica castreja. A cobertura é de colmo. A cama era de cordas que seguravam o colchão (de palha de centeio ou, mais raro, folha de carvalho). Havia a lareira, o fumeiro, para os presuntos, e um tear que ficava numa parte mais baixa.

Ali está, também, o traje de castro laboreiro, com os socos, lenço, capa e algibeira; o forno e o pão (colocado numa parte mais alta, devido à melhor circulação de oxigénio); e a “gaiola dos miúdos” (para os mais pequenitos) que passava de geração em geração (ou cedida pelos vizinhos).

Observa-se, ainda, dois assentos laterais, em pedra, no espaço junto à janela. Era o local preferido das senhoras para observarem o que se passava no exterior e dava azo para, muitas das vezes, alimentar a “coscuvilhice”.

A parte debaixo era, pois, destinada aos animais. Estes ajudavam a aquecer a casa. Era, portanto, um aquecimento biológico e renovável, já que aproveitava o calor dos animais e a fermentação do estrume natural que produziam!

No espaço existe, ainda, uma exposição dos tradicionais carros de bois. MSM/JCS

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