CENSO destaca-se no envelhecimento ativo

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CENSO destaca-se no envelhecimento ativo

A associação CENSO acaba de ser, mais uma vez, premiada. Desta vez, é a única do Alto Minho que está entre 27 instituições de Solidariedade Social galadoardas, num conjunto de mais de duas centenas de candidaturas. Foi distinguida com o prémio BPI La Caixa Sénior 2019, através do projeto “Memória e Movimento”. o qual visa promover o envelhecimento ativo através de diferentes abordagens.

VALE MAIS quis conhecer melhor esta instituição monçanense, sediada na freguesia de Valadares e cuja atividade abrange áreas dos concelhos de Monção e Melgaço. Estivemos lá e conversamos com responsáveis da mesma – Sónia Durães, diretora técnica; Catarina Rodrigues, gerontóloga; e Maria João Carvalho, terapeuta ocupacional. Ainda com a animadora sociocultural, Ana Isabel, a mais antiga funcionária da instituição (tem 18 anos de casa), e alguns utentes.

“O facto de sermos reconhecidos pelo BPI La Caixa continua a motivar-nos a construir mais projetos e a desenvolver dinâmicas dentro da instituição. Já somos conhecidos há algum tempo por algumas iniciativas pioneiras e não nos surpreende tanto o facto de sermos, agora, os únicos contemplados no Alto Minho”, assinala, desde logo, Sónia Durães, lembrando que, anteriormente, CENSO foi agraciada com prémios do Ministério da Saúde, da Fundação EDP e da Fundação Antónia da Mota, além de projetos como a SIC Esperança. Nota, porém, que há instituições que não fazem este tipo de candidaturas, uma vez que não têm o mesmo desiderato.

ESPAÇO MEMÓRIA E ESTÚDIO EM MOVIMENTO

O projeto contempla duas vertentes distintas. 

Maria João Carvalho explica. “No Espaço Memória queremos adaptar uma sala para trabalho das capacidades cognitivas. Para além de outros equipamentos, pretende incluir uma plataforma digital adaptada à Terceira Idade e às suas capacidades. No Estúdio em Movimento, a ideia é implementar Pilates Clínico e Reabilitação Física, dinamizadas por mim, como terapeuta ocupacional, bem como criar uma aula de pilates, individuais ou em grupo, para a população sénior. Com equipamentos financiados pelo projeto”.

Catarina Rodrigues adianta, a propósito, que o projeto “irá desenvolver-se não unicamente aqui na instituição, mas pelos concelhos de Monção e Melgaço. Daí, juntamente com os dois espaços físicos, Estúdio em Movimento e Espaço Memória, que estão aqui na sede, vamos ter uma unidade móvel que nos irá permitir levar este projeto não só até ao domicílio, mas a vários locais dos dois concelhos, como também trazer os utentes desses locais até à instituição.”

PREPARAR O ENVELHECIMENTO

O projeto Irá abranger cerca de 100 pessoas com mais de 50 anos. “Aquilo que nos apercebemos é que, muitas vezes, a preparação para a reforma e o envelhecimento não existe. Quando as pessoas nos chegam, já vêm com determinados comprometimentos e limitações. Aquilo que se pretende, com este projeto, é trabalhar no envelhecimento ativo. Para que os idosos de amanhã tenham uma qualidade de vida diferente, para melhor, daquela que os de hoje têm. Sendo que também se irá trabalhar sobre as pessoas que têm mais idade.”

Note-se, porém, que nem todos os utentes habituais da CENSO estão referenciados com as características do projeto. “Geralmente, no início, é feita uma avaliação e, consoante as necessidades e a capacidade de cada pessoa, tentamos criar uma abordagem centrada nela própria. Também com as expetativas e as vontades da família e do meio que a rodeia.”

ALAVANCA PARA AUTONOMIA

O projeto vai desenvolver-se durante dois anos. Sónia observa: “a nossa pretensão é que ele perdure no tempo. Assim como outros que foram financiados anteriormente. A ideia é criar uma ALAVANCA de início para o projeto correr sustentável e autonomamente.”

Prosseguindo: “Até porque a mão de obra, em termos de equipa técnica, já existe e este projeto acaba por vir complementar um de há já alguns anos, chamado Saúde em Movimento. Só que tentamos criar uma ideia mais inovadora em termos digitais, de novos equipamentos e da unidade móvel que nos permite que as coisas não aconteçam só na instituição, mas também na comunidade e no domicílio. Um projeto que acompanha a evolução da própria instituição. O primeiro, de 2010, financiado pelo Ministério da Saúde, representou a primeira vez, aqui na região, que se dinamizou algo nesta área. No fundo, o que estamos a fazer é adequá-lo e trazê-lo a uma realidade nova, uma vez que a população idosa também tem vindo a sofrer algumas alterações.”

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Sonia Durães, Catarina Rodrigues e Maria João Carvalho

EXIGÊNCIAS DA CANDIDATURA

O montante de financiamento que o projeto envolve é de 37 798 euros.

A gerontóloga da CENSO observa que a candidatura visou, essencialmente, financiar os equipamentos e a viatura. “A instituição já tinha os recursos humanos e aquilo que, no fundo, precisávamos era de financiamento para pormos este projeto em prática a nível de recursos físicos”. 

Já a diretora técnica nota a exigência da candidatura, em termos de parametrização, de metas e objetivos. “Aqui há uns anos eram menos objetivas e consistentes. A nível de fundamentação deste projeto, baseávamo-nos que já tínhamos anteriormente exercido parcerias, nomeadamente com a Universidade do Minho a nível de investigação, o que também nos permitiu fundamentar, de outra forma, a necessidade desta intervenção. Deu-nos um conhecimento mais específico e já validado das características e da forma de intervenção junto da população daqui.”

Sónia Durães assinala que “a melhoria dá-se não só a nível da qualidade de vida em si, no que diz respeito aos serviços básicos de alimentação, de higiene e conforto, mas também ao nível das emoções”.

RETAGUARDA DE IDOSOS

Há, porém, questões que se colocam, a nível de assistência na saúde, para os idosos que vivem sozinhos.

 “Não há soluções, nem elixires da juventude. Mas conseguimos que haja uma melhoria, até no próprio recurso à saúde. Ou seja, a orientação através da medicação, da frequência das consultas… se calhar, o problema está nos idosos que não têm retaguarda de nenhuma instituição. Esses, sim, é que nos preocupam. É também a eles que gostaríamos de chegar”.

As responsáveis da CENSO acentuam mesmo. “Temos verificado é que quando eles chegam à resposta, seja ela qual for, têm até uma atitude positiva a longo prazo e aceitam muito bem. Mas constatamos que, anteriormente à chegada, havia um pré-conceito sobre o que é a institucionalização – de ir para lá e esperar a morte.”

“A melhoria dá-se não só a nível da qualidade de vida em si, no que diz respeito aos serviços básicos de alimentação, de higiene e conforto, mas também ao nível das emoções”.

Todavia, “depois das pessoas começarem a frequentar e a ter acesso às respostas, percebem que as coisas não são assim. Eles criam aqui laços com outros pares, uma rotina, são mais felizes e têm com quem conviver. Isso, de certa forma, desmistifica isso”.

Notam, porém, que a ideia “não é institucionalizar as pessoas nos lares, mas que elas ainda se mantenham autónomas e com as competências necessárias. Isto desde que possam estar no seu domicílio e no âmbito da sua família e comunidade”.

DESERTIFICAÇÃO

Estamos, porém, numa região com elevada desertificação e, por isso, poderá haver maiores preocupações quanto às retaguardas familiares.

“Há de tudo. Ainda temos uma população idosa com muitos filhos emigrantes e em que a retaguarda não funciona. Temos outro tipo de retaguarda que não é familiar, mas é informal, a da vizinhança. Depois, existem aqueles idosos que não têm vizinhos.”

A questão da solidão é, porém, muito abrangente.  “Podemos estar num meio urbano e sofrermos dessa mesma solidão. Temos idosos que estavam sozinhos e não se sentiam sozinhos. Outros que até estão na família e sentem-se deprimidos.”

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Garantem, porém, que, a partir do momento em que chegam à instituição, são acompanhados. “Preocupam-nos aqueles que não conseguem chegar à nossa e a outras instituições. Muitas vezes, o que os impede de recorrer a estes centros é essa ideia pré-concebida, errada.”

Catarina Rodrigues coloca a questão também a nível dos serviços de saúde. “Para acompanharmos um utente a uma consulta a Viana do Castelo, por exemplo, acabamos por despender um dia. Estamos numa região mais distante e isso acaba por, de certa forma, interferir na qualidade de vida da população idosa.”

ATIVIDADES INTERGERACIONAIS

A diretora técnica dá conta, ainda, das atividades intergeracionais. “Os miúdos (do pré-escolar) têm uma perfeita aceitação dos idosos e convivem salutarmente com eles. Há tempos até se fez um ateliê de culinária em que as idosas os ensinaram a fazer o bucho.

“Há uma série de atividades que desenvolvemos e é em parceria para eles perceberam as tradições e como era brincar, o ser criança no tempo deles. Também recebemos visitas. Ainda recentemente de um grupo de alunos do Politécnico de Viana. Os da EPRAMI são também visita frequente. Os idosos interagem perfeitamente. Temos o cabeleireiro também aberto à comunidade e, de certa maneira, também traz cá, com frequência, pessoas que acabam por contactar, pois entram e saem, vêm ao que se passa. Existe até um protocolo. O espaço do cabeleireiro está aberto a toda a gente, quem vai lá paga pelo serviço e os utentes da CENSO têm cuidados de imagem gratuitos.”

Sónia Durães reconhece, porém, que a imagem do idoso no sofá de uma sala a olhar para a TV ainda não está no fundo do baú. “Temos de trilhar esse caminho de forma para que mude o paradigma”.

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CONVERSAS COM OS UTENTES

Na sala de convívio do centro de dia encontramos os idosos em atividades, sobretudo em jogos de mesa. Alcina Lousada, de 83 anos de idade, disse-nos que passa lá as tardes, fazendo bonecos e jogando cartas, além de conversar. Embora oriunda de Badim, vive há 11 anos, em Valadares, com a filha. Gosta de cantar, muitas vezes até com os colegas “enquanto não nos mandam embora”.

Manuel Durão Caldas, de 65 anos de idade, da freguesia de Penso, também se mostrava alegre com o convívio. Tem 67 anos de idade e passa lá o dia. No convívio com os amigos que ali fez, a jogar cartas e dominó.

João Trigo é um transmontano de Vila Flor, mas há muito que vive em Monção. Também está contente. “Ainda há pouco estava ali chateado e veio aqui um senhor desafiar-me para umas cartas”, confidencia-nos.

Amélia Vilarinho Gonçalves é outra utente, tem 81 anos de idade, desde há três anos que frequenta o centro de dia. Mora em Penso. “O meu marido morreu, o meu filho trabalha, a nora também e eu ficava só em casa. Uns dias venho de manhã, outros só à tarde”, refere a educadora de infância reformada. “Fui eu que a bordei”, diz, apontando para uma ‘sardinha’ exposta no espaço. “Também coso à máquina e pinto”. Sente-se bem, fez amizades e diz-se “humanizada e valorizada”.

“O facto de sermos reconhecidos pelo BPI La Caixa continua a motivar-nos a construir mais projetos e a desenvolver dinâmicas dentro da instituição. Já somos conhecidos há algum tempo por algumas iniciativas pioneiras e não nos surpreende tanto o facto de sermos, agora, os únicos contemplados no Alto Minho”

A animadora sociocultural informa-nos que são cerca de 30 os utentes no centro de dia. “Fazem jogos de estimulação cognitiva e individual, jogam ao dominó, têm pintura, fazem crochê, bordam os bonecos a que se referem como cabeçudos, cosem à máquina, vão conversando”.

Quando a questionamos sobre as maiores dificuldades que encontra no seu trabalho, inclui as emocionais. “Há pessoas mais ativas e outras, com a mesma idade, com outras dificuldades”. Acerca do programa que agora vai ser levada a cabo, mostra-se convicta de se tratar de mais uma mais valia, com os idosos mais ativos e a possibilidade de desenvolverem outras atividades no dia a dia.

CHEGAR COM DORES E SAIR SEM ELAS

Numa das salas, um grupo de utentes está numa pausa de atividades de ginásio. São todas mulheres.

Guilhermina Santos tem 73 anos de idade e está convicta de que lhe fazem bem à saúde. Sente-se até mais contente. Há sete anos que pratica esta atividade duas vezes por semana.

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Ana Isabel, animadora sociocultural

Francelina tem 65 anos e é presença desde o início. “Gosto muito. Contribui para o meu bem estar físico e moral. Faz-me bem, sobretudo as aulas de pilates. Adoro. É muito bom, espero continuar, mas só venho numa vez por semana porque tenho dois netos; ocupo-me deles enquanto a minha filha trabalha”. Gostava de vir as duas vezes semanais e aprecia, particularmente, das sessões de movimento, pilates e ginástica.

Maria do Céu Rodrigues tem 73 anos e corrobora as colegas. “Isto é muito bom. Venho sempre. Faz sentir melhor. Ajuda a gente a não se ir abaixo”.

Maria Natália, de 66 ano, vive sozinha, já teve um AVC e também diz que a atividade a faz sentir bem. 

O mesmo para Glória Lima, com 64 anos de idade. “Uma Maravilha. Às vezes, vimos com dores e saímos sem nenhuma. É bom para a nossa idade”. Quanto aos programas no âmbito do novo projeto, “é ótimo que não demorem”.

Falamos ainda com Isabel Pereira Bernardes. Tem 73 anos de idade e vive igualmente em Valadares. Tem o marido que teve um AVC e, enquanto outra pessoa fica a tomar conta dele, vem a estas sessões de que tanto gosta. “Fazemos pilates, faz-me bem à memória, também fisicamente e há o convívio que temos todas juntas. É muito bom.  Se houvesse mais dias, também vinha.”

Maria João, a terapeuta ocupacional, ouve e explica-nos, que, paralelamente, o marido usufrui do serviço de terapia ocupacional no domicílio. Dois utentes que são acompanhados e a serem integrados no novo projeto “Memória e Movimento”. 

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