Chef Chakall ::Gastronomia do Minho é a “Champions League” de Portugal

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Com uma naturalidade única e genuína, o Chef Chakall, como é conhecido, recebeu-nos no seu restaurante, em Marvila, Lisboa, e cativou-nos, desde o primeiro instante, pela sua simplicidade e recetividade.

El Bulo (lugar privado usado para encontros românticos) é o nome do restaurante deste argentino nascido em Tigres, Buenos Aires, em 1972 e que chegou a Portugal no ano de 1997 para preparar uma viagem para África.

Ora, como o seu pai era galego, natural de Carballiño, ele sempre ouviu falar da Galiza em casa; então, devido à proximidade, Portugal pareceu-lhe um destino mais lógico. “Como Argentina não tem nenhuma ligação com África necessitava de um país, na Europa, onde pudesse preparar essa viagem”.

Depois, o burburinho de uma capital e a paixão pela praia levou-o até Lisboa.

Licenciado em jornalismo, Eduardo Andrés Lopez, o real nome de Chakall, não tinha a cozinha nos seus planos. Apesar de ter crescido no restaurante da mãe, a quarta geração de uma família de cozinheiros, onde com 13 anos já cozinhAVa, e de ter passado a sua infância e adolescência à volta dos tacho, esse mundo não o cativava.

“Apesar de trabalhar com a minha mãe no restaurante, odiava a cozinha, os cheiros, tudo. Saía com raparigas e sentia que cheirava à cozinha. Odiava mesmo. E, na altura, dizia: “nunca vou ser cozinheiro, nunca vou ter um restaurante”.

No entanto, no primeiro ano em Portugal, não queria gastar o dinheiro que trazia para a viagem a África e então, como o ADN da família era o restaurante, comecei a trabalhar num.

“Essa primeira experiência, em Portugal, foi um conto de fadas. Quando cheguei ao restaurante havia uma média de 10 pessoas/dia à semana e quando sai havia 90 pessoas/dia”.

Um ano depois deixava o país e arrancava rumo a África, uma viagem que demoraria dois anos. Depois dessa viagem, que classifica como única e fantástica, voltou a Portugal e, como não sabia o que fazer, o “bichinho” da cozinha foi mais forte e prevaleceu.

Portugal descobria assim o chef Chakall, conhecido pelo seu talento e reconhecido pelo seu característico turbante.

VALE MAIS: Por que usas o turbante?

CHEF CHAKALL: Comecei a usá-lo no Sudão, em África. E quando voltei continuei a andar com ele, tanto na cozinha como na rua. Depois, sucedeu o 11 de setembro e já não era boa ideia usá-lo na rua. Nessa altura, passei a utilizar só na cozinha. Ficou imagem de marca, mas não foi nenhuma estratégia de marketing.

VM: Qual foi o primeiro prato que fizeste com consciência?

CC: A primeira vez que cozinhei com consciência foi para engatar uma rapariga. Lembro-me que fiz esparguete com molho de tomate e cenoura, mas, claramente, com o objetivo de a conquistar. (risos)

VM: O que mais te cativa no mundo da gastronomia?

CC: A simplicidade. Isso é o mais difícil.  Descobri os melhores pratos em lugares impensáveis. Para mim, um prato com mais de 5 ou 6 ingredientes já tem um problema. Gosto de um bom produto feito de forma simples. Para mim, o segredo da grande gastronomia é fazer coisas simples.

VM: Qual é o produto que mais gostas de trabalhar? 

CC: A carne. É o que melhor conheço, o que mais comi e o que mais gosto de trabalhar.

VM: E o que menos gostas?

CC: Não gosto de limpar peixe. Só limpar. Cozinhar adoro, mas limpar o peixe é algo que não gosto de fazer. Não tenho paciência.

VM: Como classificas um bom prato?

CC: Para avaliar um bom ou mau prato há vários condicionantes. Desde logo, o momento sentimental da pessoa, a fome e as expectativas. Por outro lado, cada vez se come melhor e os clientes são cada vez mais exigentes e não se conformam com “encher o papo”; já querem algo melhor.

VM: Já comeste alguma coisa que não gostasses? 

CC: Sim, já comi coisas muito desagraveis. No entanto eram coisas mal tratadas e mais cozinhadas. Por exemplo, uma vez, comi rojões e sabiam a porco. Nunca mais me esqueci. Não era o problema da carne, simplesmente estava mal confecionado. E, em África, o pior que comi foi hipopótamo. Horrível.

VM: Há algum produto que não possa ser confecionado?

CC: Penso que não. Tudo se confeciona. No entanto, é necessário ter a arte para o fazer.

VM: Qual é o teu principal segredo?

CC: Ser simples, mas acho que isso não é segredo. É o meu carácter.

VM: Qual é o teu utensílio de cozinha favorito? 

CC: Uma boa pinça, para que possa pegar à vontade. Esse é o utensílio que mais utilizo.

VM: Em que medida a gastronomia pode influenciar o turismo?

CC: Cada dia mais. Antigamente a gastronomia era secundária. As pessoas procuravam montanha, ou praia ou neve e, hoje em dia, apesar de isso ainda acontecer, o “plus” é a gastronomia. É cada vez mais importante e, numa região, ainda mais.

VM: Então a gastronomia pode definir um país, ou uma região?

CC: A gastronomia define uma região, uma cultura e um clima. A gastronomia é o clima de um país. Se tens mau clima, tens má gastronomia. Se não tens bom clima, não tens bons produtos. Historicamente falando claro, porque, hoje em dia, compras tudo em qualquer lugar. Atualmente, a Alemanha tem mais restaurantes com Estrela Michellin que Espanha, mas há 25 anos, na Alemanha, não comias nada. Hoje, claro, esse panorama mudou porque os produtos chegam a todo o lado.

VM: Conhece o Alto Minho? 

CC: Sim, já gravei um programa em Ponte de Lima, fiz um tour em Viana do Castelo, fui a Melgaço à Feira do Alvarinho, estive em Vila Nova de Cerveira a fazer um showcooking

VM: O que destaca do Alto Minho e da nossa gastronomia?

CC: A gastronomia de todo o Minho é extraordinária. A riqueza dos produtos é incrível.

O meu pai era da Galiza, mais precisamente de Carballiño, e por isso tenho uma ligação real com aquela zona. Sinto o feeling sempre que vou lá. Adoro essa zona. O Minho é a “Champions League” de Portugal, é do melhor.

VM: Quantos projetos tens neste momento? 

CC: Estive envolvido em muitos, mas sai de todos para fazer este projeto, em Marvila. Depois tenho um projeto para a ilha de São Miguel, nos Açores, que ainda não está fechado, mas já está bastante avançado. Tenho três programas de televisão novos, na Alemanha, na América Latina, e aqui em Portugal. Tenho também um projeto com a Delta Q. São três cafés nos quais eu faço os menus e receitas com cafés. E proximamente, ao Alto Minho, espero ir muitas vezes.

E certamente virá, pois a VALE MAIS, juntamente com a Delta Cafés e o Chef Chakall irão, ao longo do ano, percorrer os concelhos do Alto Minho com ações e iniciativas que pretendem promover a sua gastronomia. O Minho, em geral, e o Alto Minho, em particular, apresentam produtos genuínos e sabores únicos o que faz com que a nossa gastronomia seja, como diz, e bem, o Chef Chakall, das melhores de Portugal.

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