Covid-19 e os impactos no Turismo – O Mundo ao Contrário

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Esta será uma série de artigos que irei escrever para tentar ajudar a perceber como esta pandemia afecta e continuará a afectar o sector do Turismo. O título “O Mundo ao Contrário” espelha bem o grau de revolução que esta crise sanitária veio trazer ao nosso mundo globalizado, tal como globalizado estava o viajar.

Deixaria uma nota de introdução que também é um alerta: não deverão obviamente ser esquecidos o sofrimento e o sacrifício que muitos de nós temos vindo a fazer na luta contra a transmissão da doença e no combate à mesma nos serviços de saúde em Portugal e no mundo inteiro. Nem deverá ser incentivado o turismo sem que estejam asseguradas as mais elementares condições de segurança de quem viaja e de quem proporciona essa viagem, o que inclui profissionais de agências de viagens, motoristas de autocarro, empregados de limpeza, de bar ou de restaurante, entre um sem fim de profissionais que por demasiadas vezes são pouco destacados, mas que são dos mais valiosos motivos para o sucesso alcançado. A segurança de todos acima de tudo.

(I) Um gigante com pés de barro?

Nos últimos anos, Portugal e os portugueses catapultaram-se para a ribalta mundial na oferta e qualidade turística. Porto, Lisboa e Portugal foram várias vezes considerados melhores destinos europeus e mundiais ao longo da última década; os inúmeros World Travel Awards distinguiram dezenas de hotéis, atracções, destinos, companhias aéreas, instituições, campanhas têm merecido um justo destaque neste panorama de eleição.

A verdade é que, desde 2013, o país vinha consecutivamente a aumentar em receitas e número de hóspedes/dormidas, fazendo por isso mesmo engrossar o número de negócios e de empresas que beneficiaram quer a balança comercial – com um claro destaque para o aumento das exportações- quer a criação de emprego – com a criação de dezenas de milhares de emprego no sector, ao ponto de atingir já mais de 10% da força laboral do país.

Consequentemente, a criação de riqueza por via do Turismo chegou a ultrapassar os 11% em 2019, o que demonstra bem como este é um dos sectores mais pujantes da nossa economia.

Agora urge perguntar: teria sido possível dizer que não a tamanha fonte de receita? Sim, teria. Mas para tal acontecer, teria sido necessário que o país tivesse recuperado de décadas de atraso nas qualificações das pessoas para podermos ter atraído empresas de média e alta tecnologia em quantidade suficiente para empregar estas dezenas de milhares de pessoas.

Teria sido possível fazer crescer a riqueza nacional e o PIB per capita muito mais do que hoje se verifica em Portugal se não fosse o Turismo? Sim, teria. Mas para tal acontecer, teria sido necessário que nem os grandes grupos económicos tivessem “exportado” os seus lucros para paraísos fiscais dentro da União Europeia (como são o Luxemburgo e os Países Baixos), nem que tivéssemos decidido que um dos maiores factores de atractividade do investimento privado são os baixos salários, pagos quer na indústria hoteleira, quer já generalidade dos sectores primário e secundário em Portugal.

Ou seja, sim teria sido possível não necessitarmos depender tanto do Turismo se houvesse políticas fiscais e distributivas mais equitativas e justas.

Acontece que o Turismo parou a fundo. Será provavelmente um dos sectores mais profundamente afectados neste momento e num futuro próximo. Hotelaria, restauração, companhias aéreas são o cerne deste negócio e não tinham rede de segurança perante uma ameaça tão global. A globalização trouxe o sucesso ao sector, e a mesma globalização traz agora a paralisação. 

Sendo o sector turístico composto por múltiplas micro e pequenas empresas, várias delas de base familiar, em especial na restauração e no alojamento. Por exemplo, o Alojamento Local, que representava no final de 2019 cerca de 15% do total de hóspedes e dormidas, contribuiu massivamente para a recuperação em termos de reabilitação urbana e de criação de auto-emprego, e previsivelmente irá sofrer enormes impactos, com o fechar de muitos negócios, e muitos dos seus promotores a terem que se libertar das despesas e das obrigações fiscais.

Este é apenas um exemplo ilustrativo de alguns milhares de postos de trabalho que se irão provavelmente perder numa primeira fase.

Infelizmente, e pelo que já se pode constatar um pouco por todo o lado, muitos hotéis e negócios de restauração optaram por congelar os postos de trabalho, dada quebra quase total de facturação que já se verifica.

Sobre o regime de lay-off simplificado haverá muito a dizer, mas nesta fase inicial direi apenas o seguinte: simplificar o lay-off era apenas uma das opções em cima da mesa, em especial para este tipo de negócio, mas à medida que as suas consequências sejam mais visíveis a olho nu, haverá oportunidade para analisar devidamente.

No próximo artigo iremos abordar as perspectivas de recuperação do sector Turístico com base na recolha de opiniões de especialistas e stakeholders do sector, também eles imersos em tele-trabalho, envolvidos em inúmeras reuniões e webinares à distância de um computador.

Neste momento de crise geral, é de notar o grande espírito de entreajuda existente entre os representantes dos sectores, que partilham conhecimento e estratégias.

Numa primeira fase, o sector Turístico tem estado solidário para acorrer a todos os que ficaram sem sustento bem como providenciar estruturas hoteleiras para acomodar profissionais de saúde que combatem a epidemia ou doentes em recuperação ou confinamento.

Numa segunda fase, organiza-se já para conseguir delinear estratégias para a retoma do sector como um todo. É disso que tentarei dar conta no próximo artigo, na certeza de ter respondido à questão do título: o gigante não tem pés de barro, embora muitos dos seus intervenientes pudessem ter posto fincado os pés e assumido uma postura mais lutadora

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