Covid-19 e os impactos no Turismo.(II) Recuperação – Business as Usual?

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O sector turístico, a par de quase todos os outros (com a excepção da Distribuição) está a ser fortemente atingido pela travagem a fundo causada pela crise sanitária gerada pela Pandemia do Coronavírus. Múltiplas questões se colocam no curto, médio e longo prazo para garantir a sobrevivência condigna de milhares de milhões de pessoas pelo mundo inteiro.

A questão que o presente artigo coloca centra-se no que irão fazer milhões de stakeholders (actores) directa ou indirectamente expostos ao sector turístico que está a sentir provavelmente o maior impacto de todos os sectores de actividade. Podemos falar de um regresso ao business as usual assim que haja uma vacina contra o vírus ou o modelo terá que ser muito diferente do que vigorou até aqui, com todos os defeitos e virtudes que tinha?

Haverá uma recuperação ou mesmo retoma no sector? A única certeza que existe é que não existem certezas! De facto, os stakeholders envolvidos no turismo, desde os organismos estatais, passando pelos operadores turísticos e pelas cadeias hoteleiras deixaram de tentar planificar à temporada, fazendo-o agora semana a semana e sob cenários hipotéticos! Na verdade, passou a ter tanta ou mais importância o boletim das autoridades de saúde sobre o controlo da pandemia do que os relatórios sobre perfis de turistas ou estratégia de vendas.

No entanto, isto não quer dizer que estes responsáveis não estejam a tentar trabalhar com vários cenários em cima da mesa; de acordo com vários especialistas de várias organizações internacionais e que estão em circunstâncias similares à nossa a nível de dependência do sector Turístico como em Espanha, a recuperação do sector poderá passar por várias fases e processar-se de forma mais optimista em V (queda e recuperação abruptas), em U (queda menos abrupta e recuperação na mesma proporção). O cenário mais pessimista aponta para um L (queda abrupta e recuperação incerta e estagnação prolongada no tempo).

Com o confinamento, as viagens que fazemos estão fortemente limitadas, ao ponto de a estimativa na União Europeia é a de que os três países que mais irão perder receitas já este ano por via do turismo sejam precisamente os anteriores campeões: Itália (-49%), Espanha (-42% e Portugal (-40%); as perdas estimam-se em 110 mil milhões de Euros só este ano (fonte: Eurocontrol). Business as usual? Se até aqui assistimos a uma feroz competição entre países e entre destinos, iremos continuar a assistir a uma luta fratricida pela sobrevivência ou haverá uma resposta coordenada da União Europeia?

A Comissão Europeia não quer fechar fronteiras e percebe a importância vital da condicionada mas livre circulação de pessoas no espaço comunitário para que o Turismo – que representa 11% do PIB da União Europeia- e o Comissário Europeu do Mercado Interno, Thierry Breton não parece poupar nas “munições” ou pelo menos na retórica – desafia os países a aprovarem um Plano Marshall- versão Turismo, na ordem dos 375 mil milhões de euros (cerca de 20% do total que se prevê que ronde os 1,5 biliões de euros!) Está prometida uma Cimeira Europeia de Turismo (talvez antes do verão ou até quem sabe não!) para articular uma resposta global ou pelo menos à escala europeia mas,….

Há muitos mas neste preciso momento de emergência: há uma gigantesca pressão dentro nos Estados para manter emprego a todo o custo, há uma resistência brutal de alguns sectores que vivem do turismo como por exemplo a aviação (o CEO da Ryanair já avisou que a empresa não vai voar se for obrigado e reduzir 1/3 dos lugares nos aviões), existem inúmeros constrangimentos na frequência de locais públicos de grande afluência (praias, zonas comerciais, hotéis, restaurantes, monumentos, etc) impostos pela necessidade de garantia de limpeza e desinfecção constantes; por outro lado, e talvez um pouco surpreendentemente – a União Europeia reconhece que o sector turístico tem imensas fragilidades na sua base laboral e empresarial, sendo 80% constituído por pequenas empresas e empresas familiares com menos de 10 empregados. Frágil, conclui Thierry Breton. Podemos pensar em business as usual?

A pressão dos dias e dos boletins sanitários diários tem dois lados opostos: se por um lado nos informa, com maior ou menor rigor, maior ou menos transparência do estado das coisas; por outro lado, mostra uma Europa a várias velocidades no estado de controlo desta primeira fase da pandemia. Em termos económicos e financeiros, já antes do Coronavírus vivíamos numa Europa dos carros rápidos e outra Europa dos carros utilitários que passam o tempo nas oficinas a receber reparações várias. Agora, pelos sinais de hesitação já demonstrados pela União Europeia na resposta à Pandemia e na adopção de um plano europeu de recuperação económica, as consequências adivinham-se nefastas para o bloco europeu; se antes vivíamos em competição, os sinais não apontam no sentido da cooperação, muito menos para o federalismo? Business as usual? Parece que sim.

Entretanto, o que já se percebeu a curto prazo é que vai haver perdas significativas a curto prazo. Embora nem todos os actores o assumam, com relevo para a posição corporativa completamente descabida da AHRESP (a associação mais representativa dos sectores da hotelaria e restauração em Portugal), que chega a afirmar que o sector turístico é o mais importante em Portugal e que nenhum negócio pode ser perdido e que deverá ter prioridade sobre todos os outros(!), iremos ter perdas de emprego, empresas e muito provavelmente assistiremos a alguns fenómenos interessantes de que daremos conta num artigo futuro, nomeadamente alguns efeitos no mercado de arrendamento, no imobiliário, na valorização do emprego e dos trabalhadores, entre muitos outros. Numa próxima ocasião será.

Compreendendo que as macro-decisões tardam, assistimos a preparativos sectoriais e nacionais de resposta aos efeitos da pandemia.  Em Portugal estamos já em presença de uma reedição da lógica do programa “Compre o que é nosso” que realçava a necessidade de basearmos as nossas compras no que é produzido por empresas nacionais. Eu diria até que, nesta reedição, está-se a ir mais longe e agora o slogan poderia bem ser “Compre o que é nosso, vizinho!” Neste momento de aflição, é aos vizinhos que acorremos e pedimos ajuda. Espero que se perceba que na fase seguinte se vá mudando de slogan para qualquer coisa como “Vejam todos como fazemos bem e diferente!”.

Correndo o risco de ser completamente ultrapassado por decisões-relâmpago (!) de decisores europeus e nacionais (faço figas que no próximo artigo já esteja a falar da maravilha que a vacina está a ser na recuperação do emprego!), ao dia de hoje – início de Maio de 2020- o cenário em Portugal no sector está assim desenhado:

Panorama Nacional – tendo em conta as restrições de circulação nos países mais afectados, muito previsivelmente assistiremos a um crescimento gradual mas completamente dependente dos possíveis avanços e recuos verificados no número de infectados que se verifiquem com o progressivo desconfinamento (cujos contornos em Portugal vão sendo já conhecidos até ao mês de Junho) e com a capacidade do Serviço Nacional de Saúde de responder às solicitações.

Este quadro de grandeza configura desde já duas certezas: a primeira, que o Turismo nacional dificilmente poderá contar com os mais de 7 milhões de turistas internacionais este verão, em especial de destinos extra-comunitários como, Brasil, Estados Unidos, China; numa versão mais dura, as perdas poderão ser catastróficas – se as fronteiras europeias não se abrirem, ou se forem abertas mas houver descontrolo no número de novas infecções, deixaremos de receber turistas dos nossos mais importantes mercados emissores, como Reino Unido, Alemanha, França, Itália. Por outro lado, destinos dependentes do transporte aéreo (Madeira e Açores) estão ainda mais expostos a perdas, sendo que a maioria dos hóspedes e dormidas fosse de turistas estrangeiros.

O que está a ser feito? Para já, o sector está a lamber as feridas, a contar as tropas e a tentar manter o moral das tropas. Sabemos que há empresas no sector que já não facturam nada desde Março, algumas mesmo desde o Carnaval (guias turísticos, empresas de animação turística com actividades ao ar livre/natureza). Ainda é cedo para se ter uma fotografia bem definida das perdas no sector e dos tratamentos que o Estado tem fornecido pela possibilidade de recurso ao lay-off simplificado, a linhas de crédito, a moratórias no pagamento de créditos. Talvez cinco conclusões resultem já inequívocas;

 a primeira: o próximo verão será uma época perdida; mesmo que possa haver o levantamento de algumas restrições a viagens, não é expectável que os países do Espaço Schengen possam viajar livremente, porque também há os diferentes ritmos de controlo da pandemia a gerir pelos governos nacionais, que não vão arriscar abrir novos focos de contaminação; não nos podemos esquecer que a gestão sanitária é (também) a gestão política;

a segunda: proximidade e segurança serão factores primordiais na percepção imediata dos futuros turistas, pelo que deverá ser já um algo a considerar no curto e médio prazo: é credível imaginar que haja algumas poucas viagens turísticas realizadas nas proximidades do lugar de origem (até pela necessidade de desconfinamento), mas serão sempre feitas para locais que garantam segurança e limpeza, com ganhos potenciais para o Alojamento Local de confiança;

a terceira: os preços e os custos de exploração poderão sofrer alterações, seja por via da necessidade de sobrevivência de muitos negócios, seja pela imposição de medidas de higiene sanitária no uso de espaços partilhados (hotéis, espaços de visitação, transportes, etc), pelo que é de esperar uma redução das margens de lucro na exploração de negócios turísticos;

a quarta: parte da força do sector do turismo em Portugal, os seus trabalhadores acabam por ser também a sua fraqueza: apesar dos serviços que prestam ser de boa qualidade, os baixos salários e a precariedade geral dos trabalhadores -recibos verdes, trabalho sazonal, etc- acabaram por atrair e manter no sector mão de obra pouco qualificada, que agora terá que ser reconvertida para outros sectores de actividade.

a quinta: empresas que não conseguiram pagar sequer o salário de Março aos trabalhadores podem não ser empresas viáveis. Sem tesouraria e liquidez, muitas empresas vivem apenas do crédito.

Business as usual? Não! Ou aprendemos lições importantes sobre massa salarial, viabilidade de empresas, projectos cooperativos inter-concelhios e regionais, ou viveremos o risco de perdermos uma oportunidade para fazermos melhor num sector que agora expõe as suas fragilidades. Sabemos que fazemos das fraquezas as nossas forças, mas o esforço tem de ser planeado a nível local e regional de forma mais equitativa. É disso que vos falarei no próximo artigo, a nova realidade regional perante a Pandemia. Mantenha-se e mantenham os outros saudáveis e use máscara quando tiver de sair de casa.

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