CRONISTA SEM CRÓNICA

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Hoje não tenho assuntos para tratar. Ou melhor, não me sinto com engenho para agarrar um tema e desenvolvê-lo com objetividade, fundamentação, simplicidade e com incentivos para o leitor. Quando escrevemos para sermos lidos, é para acrescentar algo ao conhecimento, às emoções, às ilusões, à utopia de quem lê e não somente para preencher espaço, tempo, tinta e papel.

Um dia, há já bastante tempo, num jornal diário, um cronista habitual começou e acabou a sua crónica a lastimar-se que não tinha assunto para aquela crónica. Louvei-lhe a modéstia e a sinceridade. Há, nessas resmas de jornais, por aí fora, cronistas, com qualidade e originalidade que merecem ser lidos, sublinhados e até guardados nos nossos arquivos. Mas encontramos, também, bastantes avençados que, sem o confessarem, fazem quase o mesmo que o “cronista desinspirado”: escrevem banalidades, divagam, insinuam, dedilham caracteres, mas não ensinam nada ou quase nada.

Pois, hoje, eu estou quase assim, embora não seja, propriamente, por falta de assuntos: borbulham-se, na mente, diversos e inquietantes. Mas apesar da minha incapacidade de os tratar convenientemente, também não sei se haverá alguém disponível para parar um pouco o seu ritmo louco de vida quotidiana e refletir sobre eles, tentar compreendê-los e vislumbrar, dum modo pessoal, crítico e inovador, uma solução; captar uma linha explicativa, encontrar um sentido para a nossa vida e para a sociedade, de perto e de longe, que nos enlaça e nos moi.

Ler (e escrever!) implica muita coragem, muita humildade, forte capacidade de diálogo e generosa vontade de dar e receber. Por isso, grande parte das pessoas ou não lê, só dá uma olhadela pelos títulos mais ou menos chamativos, ou só repara nos resumos com destaque especial feitos com letras bem gordas, ou não vai além da visita às passageiras imagens facebookianas. Neste mundo frenético, o “TER” esgota quase todas as nossas energias. E para enriquecermos o “SABER”, sobra o cansaço, o enjoo, a maçada… Diz Eduardo Lourenço que a cultura é um esforço e uma invenção contínua de respostas para a expulsão do não-sentido da história do homem e do Mundo. Mas, atualmente, parece que as “culturas” que nos oferecem, em sobredoses, deixam de ser aquilo que nos acorda para passarem a ser, simplesmente, aquilo que nos distraem, fazendo-nos desatentos do humanamente fundamental.

Mas não dizem que só é ignorante quem não quer aprender? Não há, por aí, com fácil acesso, tantos meios de comunicação social escritos, falados e visualizados? Ou são apenas outros meios de “desatenção”? Rui Chafes, escultor, e vencedor, em 2015, do Prémio Pessoa, faz esta afirmação pouco abonatória em relação à televisão; “Não vejo, nem tenho televisão em casa porque ela é a escola da desatenção. As pessoas habituaram-se a ver tudo superficialmente, dura tudo um segundo, e é tudo brilhante, escorregadio, colorido. Eu não sou assim”.

Mas, nas livrarias, não param de aparecer edições novas, de variados livros e estilos? Aparecem tantos comunicadores, grandes sumidades, formados em cintilante cultura geral ou em exóticas especialidades do saber, que parecem saber tudo, dando respostas a tudo e, evidenciam dotes de luminosa e infalível previsão do futuro e não é só no domínio do futebol! Nunca se publicou tanto como hoje, embora, segundo opinião de um famoso escritor (vale o que vale!), se tivéssemos um aferidor devidamente equipado para o efeito, bastava selecionarmos apenas 10% das obras vinda a lume. O resto podia ir inteiramente para o caixote do lixo, sem qualquer prejuízo para o nosso “SABER” e para a história da humanidade.

Em complemento, convém realçar, neste dealbar do século XXI, a asfixiante invasão de tantos e sofisticados TIC(Tecnologias de Informação e Conhecimento) que nos conduzem, com toda a velocidade, aos diversos saberes; do mais empírico ao mais teórico, do mais idealista, ao mais pragmático, da explicação do nosso trivial quotidiano ao domínio do complexo sentido da existência do homem e do mundo.

Podemos, então, concluir que só se mantem nas “sombras” da “caverna” do nosso mundo (Platão!), quem se recusar a olhar a luz.

Ou é a luz, quando muito intensa e variada, que, olhada sem prévia e longa preparação, nos cega mais do que nos clareia? E valerá a pena perseguir, qual D. Quixote, o “SABER”? Para que serve afinal? O mundo de hoje, em termos científicos e tecnológicos, parece um mundo admirável. Mas em termos  ÉTICOS, está melhor do que há 2 ou 3 mil anos? Ou não chegará uma mera sondagem para alumiar, à “cambada”, o caminho a trilhar?

Pois é: linda teoria ou desculpa de mau pecador… perante tanta complexidade ou manifesta incapacidade pessoal, ou porque esgotei, sem proveito e sem jeito, o espaço que me foi destinado na VALE MAIS, não consegui selecionar um tema, por mais trivial que fosse, para apresentar. Nem sequer inventei uma qualquer resposta para algumas perguntas que, inadvertidamente, levantei.

Caro leitor, depois deste meu titânico esforço, termino, ensimesmado, com uma atómica e frustrante conclusão de SÓCRATES, velho filósofo grego: “SÓ SEI QUE NADA SEI”.

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