DÉCIMO JÚNIO BRUTO: Um precursor da fundação de Ponte de Lima

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DÉCIMO JÚNIO BRUTO: Um precursor da fundação de Ponte de Lima

Décimo Júnio Bruto, um político aristocrata de Roma, nomeado cônsul da República Romana e governador da província da Hispânia Ulterior, está intimamente ligado às deslumbrantes terras do Lima, desde o ano 137 a. C. e, porventura, ao lançamento dos “alicerces” que levaram à fundação, em época posterior, de um núcleo populacional dos Límicos, que viria a designar-se Ponte de Lima.

Nessa data, vindo do Sul ao comando das temíveis legiões romanas, chega à margem esquerda do rio Lethes (hidrónimo grego) – o mitológico “Rio do Esquecimento” –, em território onde hoje se situa a vila de Ponte de Lima – ou em espaço localizado nas cercanias –, na sua implacável invasão militar do Ocidente peninsular, na rota da edificação do maior império da antiguidade clássica.

Petrificado pela vigorosa resistência bélica dos bravos combatentes Lusitanos, a Sul, e pelos corajosos guerreiros Galaicos, a Norte, a passagem pelas terras do Limaia (hidrónimo galaico-lusitano), hoje Lima, foi, quiçá, o grande teste da liderança militar de Bruto, perante o temor fantasmagórico que circulava junto das suas tropas.

Segundo a narrativa mitológica, as águas do Lethes possuíam aterradoras propriedades, que provocariam “o esquecimento” – das identidades e do caminho de regresso à pátria –, a quem as ousasse atravessar. 

AO ENCONTRO DAS TERRAS DO LIMA

Vigiado pela beleza ofuscante do rendilhado da edílica paisagem que envolve o interminável anfiteatro natural, na altura matizado por fulgurações vicejantes dos frondosos bosques primitivos, Bruto viria a ser o primeiro romano a atravessar, desassombradamente, as águas do lendário Lethes e a domar os temores fantasiosos de cada um dos seus soldados, proeza que chegou até nós através das narrativas de Tito Lívio, Plutarco, Lúcio Floro e Apiano.

A presença de Bruto nas terras do Lima é, provavelmente, precursora do destino do espaço geográfico do atual burgo limiano e da evolução do seu povo (Límicos ou Galaicos Bracarenses), que, depois de subjugado pela força, acolheu um longo processo de romanização na organização territorial, administrativa, cultural e económica. 

Este “general-cônsul”, que ficou conhecido pelo cognome de “o Galaico” – pelas derrotas impostas aos povos Galaicos – depois da travessia do rio do Oblivio ou Bélion (hidrónimos latinos), continuaria os seus avanços militares para Norte, em direção ao atual território de Valença. 

DÉCIMO JÚNIO BRUTO: Um precursor da fundação de Ponte de Lima

A PONTE A OPÇÃO ESTRATÉGICA

A presença romana foi determinante na criação ou na refundação de um núcleo populacional, hoje em local diferente com a alteração do leito do rio e a emergência da construção de uma nova ponte – a medieval –, conferindo-lhe Roma, no Ocidente peninsular, um estatuto superior como “espaço geoestratégico” e como “eixo geopolítico e militar”, designadamente na movimentada circulação entre o Sul e o Norte.

Com efeito, no contexto da distinta localização geográfica, o Lima recebeu uma relevante obra da engenharia romana – uma ponte granítica com cerca de 90 metros – unindo as margens do rio no itinerário da via militar, que, vindo do Sul, ligava Braga a Astorga, passando por Tui e por Lugo (Via XIX), nascendo assim o segundo elemento que haveria de dar origem ao nome da florescente povoação contígua: Ponte de Lima.

Hoje, com cerca de meia centena de metros, por força de várias alterações realizadas na fita dos tempos, esse edénico monumento parece dar razão à perene mitologia grega – lá se encontra ingloriamente dissimulado, se não mesmo “esquecido”, na zona seca do antigo leito do “Rio do Esquecimento”, à espera que o passado esplendoroso venha a ter um futuro mais risonho, como diria Pessoa!

ESPAÇO A FORÇA DO SEU ENCANTO

Durante muitos séculos este monumento milenar (no velho leito), mais tarde prolongado com a soberana ponte medieval (no novo leito), foi a única travessia do “velho Lethes” e do “novo Lima”, em todo o Vale, da nascente até à foz, transformando a vila limiana no espaço urbano mais desenvolvido da bacia do Bélion, até inícios do século XV.

O burgo dos Límicos viveu, num prolongado período da nossa história, em constante bulício com a circulação e acolhimento de números incontáveis de forasteiros –  legiões romanas e outros funcionários do Império; peregrinos em direção a Santiago; os mais diversos viandantes rumo a distintas paragens –, transformando esta próspera povoação num influente centro de comunicação, informação e conhecimento. 

Tudo isto, porque Bruto e os “exércitos senatoriais” batizaram as ubertosas margens do Lima como os Campos Elísios, fatalmente extasiados de espanto com a exuberância cenográfica da “primavera eterna”, espargida pela beleza flamejante das paisagens caleidoscópicas, picturais, verdejantes e floridas. 

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