ESTUDO // DEMOGRAFIA DO ALTO MINHO // O envelhecimento da população

ESTUDO // JOSÉ CUNHA MACHADO UNIVERSIDADE DO MINHO

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Afirmar que Portugal é um país envelhecido não é novidade para quem nos lê, por se tratar de uma informação vastamente disseminada pela generalidade dos órgãos de comunicação social, tendo como fonte relatórios produzidos por diversas instituições nacionais e internacionais. Todavia, talvez seja novidade, para alguns, afirmar que Portugal é um dos seis países do mundo que está a envelhecer a um ritmo mais acelerado.

O relatório produzido pela Divisão da População do Departamento de Assuntos Económicos e Sociais da Organização das Nações Unidas (ONU) – Projeções da População Mundial, Revisão de 2015 –, adianta que 40% da população portuguesa terá, em 2050, mais de 60 anos. Segundo este mesmo relatório, Portugal será em 2030, a apenas 15 anos de distância, o terceiro país do mundo com a população mais envelhecida, tendo uma média etária de 50,2 anos, apenas ultrapassado pelo Japão e pela Itália, com uma média etária de 51,5 e 50,8 anos, respetivamente.

As perguntas que se poderão colocar neste momento são: como chegamos até aqui e o que podemos fazer para inverter esta situação? Claro que o objetivo deste texto não é responder a estas perguntas. Em vez disso, vamos procurar conhecer um pouco melhor a evolução da população nos últimos anos, no que concerne ao respetivo envelhecimento no Alto Minho. Adicionalmente, iremos comparar o envelhecimento nos municípios alto minhotos, de acordo com a informação mais recentemente disponibilizada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

Para aferirmos sobre o envelhecimento da população iremos privilegiar a utilização de dois índices profusamente utilizados: o índice de envelhecimento, que relaciona a população idosa (com 65 ou mais anos) com a população jovem (com menos de 15 anos), e o índice de longevidade, que relaciona a população com 75 ou mais anos com a população com 65 ou mais anos.

Dois fatores estão na origem do aumento da importância da população com idade mais avançada: o declínio da natalidade, abordado num texto anterior, e o aumento da esperança de vida à nascença. Nos últimos 25 anos, a população portuguesa ganhou, em média, 6,5 anos de vida, graças ao aumento da esperança de vida. Atualmente, uma criança nascida no período de 2012-2014, tem como expetativa viver 77,2 anos, se for do sexo masculino, ou 83 anos, se for do sexo feminino.

Tendo ainda como referência a população portuguesa, devido à quebra da natalidade e ao crescimento da esperança de vida, o ano de 2000 constituiu um marco no envelhecimento por se registar, pela primeira vez, um índice de envelhecimento superior a 100, ou seja, nesse ano, este índice ultrapassou o valor 100, significando que a população idosa superou a população jovem. Desde esse ano, o índice de envelhecimento tem crescido de uma forma praticamente linear, de tal modo que no final do ano de 2014 registavam-se já 141 idosos por cada 100 jovens.

Na região alto minhota, o crescimento do índice de envelhecimento foi também uma realidade, embora tivesse começado a ocorrer mais cedo e a um ritmo um pouco mais acelerado. Como podemos observar na Figura 1, este acontecimento ocorreu alguns anos antes na região alto minhota, pois a ultrapassagem da população jovem pela população idosa ocorreu no ano de 1994 (seis anos antes).

FONTE: INE, estatísticas demográficas
FONTE: INE, estatísticas demográficas

Tal como no caso nacional, o crescimento do índice de envelhecimento no Alto Minho também apresenta uma forma quase linear, tendo-se registado 191,5 idosos por cada 100 jovens no final do ano de 2014. É possível estimar que, algures entre o final de 2015 e o início de 2016, a população alto minhota com 65 ou mais anos possa já ser o dobro da população com menos de 15 anos.

Observando o índice de longevidade no Alto Minho, verificamos que foi a partir do início de 2010 que a população idosa com idade igual ou superior a 75 anos passou a ser mais de metade da população idosa com idade igual ou superior a 65 anos, ou seja, há mais idosos com 75 ou mais anos que idosos com idades compreendidas entre os 65 e os 74 anos. Em 2014, este valor era já de 54, o que significa que em cada 100 idosos, 54 deles tinham 75 ou mais anos.

Se até aqui registamos, em termos globais, a realidade do envelhecimento na região, avançamos agora para uma comparação destes mesmos indicadores entre cada um dos municípios alto minhotos.

A Figura 2 ilustra os índices de envelhecimento e de longevidade, de acordo com as estimativas da população a 31 de Dezembro de 2014, em cada um dos municípios, para além de Portugal, região Norte e sub-região Alto Minho. Ambos os índices mostram que o envelhecimento é mais crítico em todos os municípios quando comparados com Portugal e com a região Norte.

FONTE: INE, estatísticas demográficas
FONTE: INE, estatísticas demográficas

Apenas quatro municípios registam índices de envelhecimento inferiores aos registados no conjunto do Alto Minho: Ponte de Lima (145 idosos por cada 100 jovens), valor próximo do registado a nível nacional, Viana do Castelo (159), Vila Nova de Cerveira (176) e Valença (189). Em todos os restantes, a população idosa com 65 ou mais anos já duplicou (pelo menos) a população jovem com menos de 15 anos.

Entre estes últimos municípios, a duplicação em Ponte da Barca (202 idosos por cada 100 jovens) e Caminha (204) ocorreu apenas no ano de 2014, enquanto em Paredes de Coura (234), Monção (281) e Arcos de Valdevez (296) a população idosa passou a ser mais do dobro da população jovem no decurso do ano de 2000. Contudo, vale a pena referir a diferença do ritmo da evolução do índice de envelhecimento nestes três municípios, destacando-se um envelhecimento a um ritmo mais reduzido em Paredes de Coura, em contraponto com a rápida aproximação de Monção e Arcos de Valdevez a um valor que irá corresponder a três vezes mais idosos que jovens (o que poderá ocorrer já em 2015).

A situação do município de Melgaço é, indubitavelmente, a mais crítica no conjunto dos dez municípios do Alto Minho. Em Melgaço, a população idosa duplicou a população jovem no já longínquo ano de 1995 e, depois, triplicou no ano de 2001. Foi precisamente no ano de 2014 que o índice de envelhecimento atingiu o valor mais elevado, em que a população idosa passou a ser mais de quatro vezes a população jovem, ou seja, de acordo com os últimos registos, existem 418 pessoas com 65 ou mais anos por cada 100 pessoas com menos de 15 anos.

No que concerne ao índice de longevidade, embora em todos os municípios do Alto Minho a população idosa com 75 ou mais anos já corresponda a mais de 50% da população idosa com 65 ou mais anos, observamos que é em Caminha (50,8) e Viana do Castelo (51,0) que este índice é menos acentuado.

Em contrapartida, a população idosa com 75 ou mais anos em Melgaço já corresponde quase a 60% da população idosa, município que é acompanhado de perto por outros, como Arcos de Valdevez (58,5) e Paredes de Coura (58,3), com percentagens muito próximas.

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