Diogo Farinhoto … miúdo ‘herói’

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Diogo Farinhoto ... miúdo ‘herói’

No próximo dia 25 de janeiro, o Pavilhão Municipal de Caminha recebe o espetáculo de cariz solidário “Fernando Rocha – stand -up comedy & anedotas”. A receita reverte na totalidade para a aquisição de uma mão mioelétrica para o menino Diogo Farinhoto, residente no concelho de Caminha. O espetáculo está marcado para as 21H30. O bilhete tem um custo de 10€ e está disponível para venda nos Postos de Turismo de Caminha e de Vila Praia de Âncora. Antes, bem antes, em 2012, fomos conhecer o pequeno Diogo. Conheça aqui toda a história.

ENTREVISTA REVISTA VALE MAIS N.º5 – MAIO DE 2012

Irrequieto, de cabelo loiro e olhar vivo, Diogo Farinhoto nasceu sem a mão direita, uma situação detetada às 28 semanas ainda no ventre materno. O seu caso suscitou uma campanha, que se estendeu por todo o país e a vizinha Galiza, visando a aquisição de uma prótese mioelétrica.

Esta acabou por ser paga por um benfeitor anónimo, depois de uma recolha de tampinhas, desenvolvida pela associação Dar-a-Sorrir, no ano passado, não ter acabado bem devido a uma polémica com a empresa que tinha prometido financiar a prótese.

Fomos encontrá-lo em Gondar, concelho de Caminha, onde vive com a mãe; divorciada do pai, esta refere que o progenitor acompanha a situação. Mas foi com ela que conversámos, à mesa de um café da localidade, propriedade da família.

“Foi uma gravidez normal até às 28 semanas, ou seja, já numa fase avançada. Estávamos a ser seguidos no hospital de Guimarães, cidade onde estava a estudar. Depois fui a Viana, a uma médica particular, só para ter alguém que me acompanhasse na minha zona de residência. Ela fez a ecografia e viu logo que não tinha mão direita. Fomos logo encaminhados para o hospital de Viana do Castelo, para eles darem uma segunda opinião. Confirmaram!” – conta.

“Acabámos por ser encaminhados para o hospital de S. João, no Porto. Lá, teriam melhores condições para o acompanhar e, quando tivesse dois anos, colocaria a prótese elétrica. De início fez mais alguns exames para ver se tinha mais algum problema e para descobrirem a causa. Suspeitavam de uma amputação, dentro da barriga. Só que, para ser amputação, a mãe teria sofrido um choque com a barriga, como um acidente de automóvel ou uma pancada forte. Não aconteceu nada disso. Os médicos não souberem explicar muito bem a causa…” adianta.

Elisabete recorda, agora, aqueles momentos.

“Foi um choque muito grande. Até às 28 semanas saber que estava tudo bem, e depois descobrir que não tinha uma mão, foi um choque. Chegámos a ir a um médico particular no Porto. Disse-me que poderia ter muitos mais problemas, até uma paralisia cerebral…. Afinal era completamente normal, não tinha nada.”

“Foi uma gravidez cheia de sobressaltos. Muito choro, muita tristeza, mas, no fundo, não era da falta da mão. Isso não era o que me deixava mais triste! Era a possibilidade de ter mais alguma coisa. Era a ansiedade!”.

Seguiu-se, então, o processo com vista a arranjar uma prótese.

“Esta mão é mioelétrica, porque a biónica só se aplica na idade adulta! Inicialmente disseram que colocariam aquela aos dois anos e, depois, já afirmavam que não. Sucede, porém, que a mão mioelétrica não é comparticipada pelo Estado. Foi, então, que, ao ver, com espanto, num programa de televisão, a mãe do Rodrigo, um menino de Esposende que também não tem mão, a dizer que ia colocar já uma mioelétrica, resolvi procurar ajuda para o Diogo. Contactei a mãe do miúdo para saber como decorreu o processo. Começou assim a recolha de tampinhas. Foi uma luta para lhe conseguir dar a mão!”

Diogo Farinhoto ... miúdo ‘herói’

Elisabete Farinhoto recorda.

Quando comecei, nunca pensei que pudesse ter a dimensão que alcançou. Comecei na internet, numa página do facebook, e, no segundo dia, já tinha duas mil pessoas a quererem ajudar. Não esperava. Fizemos cartazes, e as pessoas foram distribuindo por todo o país. Entretanto, uma jornalista galega contactou-me, para expandir a campanha em Espanha. A Galiza inteira começou a recolher. A Câmara de Caminha apoiou e apoia em tudo e faz a recolha na área. Criou, ela própria, os pontos de recolha mais importantes, como nas suas instalações, nas piscinas, na biblioteca. Recolhe, leva para os estaleiros e nós vamos buscá-las com um camião. Têm sido excelentes. Da parte de Espanha, A Guarda e Tui fizeram o mesmo, têm pontos de recolha. Sem estas ajudas, tudo seria impossível.

No entanto, nem tudo correu da melhor forma.

Juntaram-se 23 toneladas que ficaram numa associação que deu ‘barraca’. Ficou tudo lá! Essas, ficamos sem elas, e não sei se algum dia vamos recuperá-las. Possivelmente não! A mão foi paga por um senhor anónimo, que, perante aquela situação, ficou sensibilizado e pagou-a na totalidade. Mais de 8500 euros. Foi colocada a 26 de janeiro último. Tem de ser substituída de dois em dois anos até à ida adulta! Só mexe três dedos, e faz o efeito pinça!”

Entretanto, o Diogo faz o seu dia-a-dia.

“Ele passa o dia com a mãe ou a avó, aqui no café. Eu continuo a estudar, estava em Guimarães e, na altura, mudei para Braga. Quando descobri que ele não tinha mão, não consegui continuar, embora estivesse quase no fim …. Foi uma gravidez não planeada … Não tive mais cabeça e, agora, com a ajuda dos meus pais, decidi acabar os estudos.”

É com orgulho que hoje Elisabete fala do seu rebento.

“É super inteligente. Convive muito com os clientes, aqui no café. É muito enérgico. Mas um bocadinho ‘mauzinho’ para as crianças. Se são mais pequenas, ele manda, se são mais velhas, faz o que elas fazem, ou seja, vai atrás delas, para participar nas brincadeiras. É muito sociável!”

Diogo Farinhoto ... miúdo ‘herói’

Diogo, segundo a mãe, é um miúdo que se desenrasca bem no vestir, na alimentação e até na higiene pessoal.

“Alimenta-se, é brincalhão, consegue fazer tudo com a mão esquerda! Por exemplo, quando vai à casa de banho, faz tudo muito bem, exceto puxar as calças para cima. Com a falta da mão ainda tem muita dificuldade! Agora, a alimentar-se, é perfeitamente normal: pega num iogurte, segura-o com o ‘toquinho’, mesmo antes de ter a prótese, e com a outra mão, comia.

Orgulhosa, acrescenta: “Ele anda de bicicleta, de triciclo, com ou sem a prótese. Acho que não há assim grande diferença para uma criança que tenha as duas mãos. Para já, consegue tudo. Claro que mais para a frente irá ter outras dificuldades, como apertar um sapato ou um botão. Coisas pequenas que, conforme vai crescendo, vai sentindo mais dificuldade. Vai ter de aprender”!

Para já, vai crescendo saudável entre os seus.

“É uma criança super feliz! Ele colocou a mão estética em setembro, quando já tinha dois anos e meio. Na altura, disse ao protesista que ele não ia usar aquilo porque é uma criança super desenrascada. À mioelétrica, ele poderia achar graça, tentar pegar as coisas e perceber que lhe ia facilitar. A estética é um mono que está ali. Mas o Diogo surpreendeu-nos 100 por cento.

Ele é incrível! Pelo que vejo, é capaz de sentir a falta da mão. Ele tinha muita dificuldade em, por exemplo, ir para uma cadeira. Algo que ele, agora, já faz a brincar.

Mas, quando colocou a estética, ele sentia dificuldade. Não sabia como havia de pousar a mão. Atrapalhava-o a ler um livro. Ele não sabia como havia de a pousar. Tanto que, com o “toquinho”, desenrascava-se; com a estética não sabia”!

Neste momento, o Diogo é acompanhado apenas por uma fisiatra e um ortopedista.

“Faz fisioterapia para ganhar massa muscular, duas vezes por semana, no hospital em Viana. Comparticipado pelo Estado … para já.

Para ele, a estética estava a ser uma questão urgente. Já estava a ficar com desequilíbrio na coluna. É muito desenrascado e tem muita força na mão esquerda. Mas está a ficar com um desequilíbrio porque o outro braço não tem os músculos desenvolvidos. Era urgente colocar-lhe uma mão estética.”

Diogo Farinhoto ... miúdo ‘herói’

Porque não usa permanentemente a mioelétrnca?

“Em casa, anda mais com a estética, porque a mioelétrica é muito frágil e ele não pode coloca-la na água, nem levar pancadas fortes. Em casa passa a maior parte do tempo a brincar com a água. É o passatempo preferido dele.”

Como o perspetiva a crescer e ter uma vida normal?

“Só desejo que seja feliz! Tenho medo. Protejo-o muito. Sou uma mãe-galinha, costumo dizer. Acho que sou, completamente, dependente do meu filho. Tenho medo da fase da escola. Quando ele crescer, pode ser complicado. As crianças são muito meigas. Mas, também, cruéis. Essa parte vai custar um bocadinho. Costumo dizer que antes de começarmos a campanha, as pessoas diziam; olha o coitadinho, não tem uma mão”. Agora não, quando vamos a qualquer lado, as pessoas dizem; “olha o Diogo, o menino que não tem mão”.

Ou seja, passou de coitadinho a herói. Nas escolas, quando vamos buscar tampas, como já o conhecem e sabem que ele é diferente, já não ficam chocados”.

Qual é o passo seguinte?

A próxima mão terá de vir dentro de um ano e meio, dois anos, depende do seu desenvolvimento. A mão que está a usar é a mais pequena. Esta mão tem a etapa até aos 36 meses, e a mudança seria aos 3 anos.

Mas como é uma criança magrinha, provavelmente irá levar a atual até aos 4 anos.

Recorde-se que esta entrevista foi realizada em maio de 2012.

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