DOS PLÁTANOS IMPONENTES AO MERCADO ALTANEIRO

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Nestes empreendimentos, que transformaram a aprazível frente ribeirinha, nasce uma majestosa Avenida — a “Avenida dos Plátanos” — que recebeu o aplauso de todos e, na conjugação das décadas de 20 e 30, em espaço contíguo, é edificado o Mercado Municipal (MM), hoje visto como uma bela peça da arquitetura civil, mas que, à época, gerou uma ardente e prolongada controvérsia na comunidade limiana. A fonte de discórdia assentava, sobretudo, no local escolhido para a implantação do Mercado, particularmente na mácula que a nova construção provocaria na bem-querida “Avenida dos Plátanos”. DOS PLÁTANOS… A forte e original paixão — uma paixão sinestésica — do povo pela majestática Avenida, transformou a sua inauguração num acontecimento marcante para a orgulhosa população da “vila realenga”. A Avenida foi inaugurada em 08/10/1901, pelo Príncipe D. Luís Filipe, então com 14 anos de idade, no âmbito de uma visita que o herdeiro do trono fez ao Norte, tendo passado por Viana, Ponte de Lima, Ponte da Barca, Monção e Caminha. E aqui, na confluência destes empreendimentos, surgem apontamentos nunca referidos — porventura — em documentos conhecidos, mas que integram o acervo de memórias conservadas e contadas pela mais sábia depositária — minha mãe — de episódios singulares e imperecíveis, por vezes epigramáticos, vividos no dia a dia de sucessivas gerações, na sociedade limiana, durante o século XX. Afinal o passado nunca morre! O povo limiano — cioso de expressar, com fervor, os seus excecionais predicados de bem receber —, quis deixar ao Príncipe, aquando da inauguração da encantadora alameda, uma impressão memorável e enternecedora, produzindo, com colossal sumptuosidade, uma receção sentimental, cénica, festiva e musical — quiçá única na sua visita ao Norte. E é aqui — e este é um dos apontamentos —, que se verifica uma desconcertante imaginação do povo limiano e uma capacidade singular de construir o instantâneo, o dissemelhante e o burlesco. À medida que a “comitiva real” avançava, em jubilosa aclamação, pelos velhos arruamentos lajeados da antiga vila, pequenos grupos da banda filarmónica limiana — previamente divididos e astuciosamente dispersos pelo percurso régio — circulavam num volutear vertiginoso, por ruelas e atalhos, colocando-se mais à frente, no itinerário do vistoso “cortejo”, para “Príncipe ver e ouvir”, na sequência certa, as mais castiças melodias, ampliando, deste modo, o brilhantismo da receção limiana à visita real. Afinal, no meio de tão calorosa e comovente manifestação popular, concluiria o Príncipe que PL o presenteara com a mais honrosa e generosa receção, com a mobilização de multidões em festa, empolgadas pelo interminável “efeito da multiplicação das filarmónicas”, que propagavam pelos ares, ao jeito da leveza das mais finas plumas, exaltantes sinfonias, com doces e alegres sonoridades, vindas de “números incontáveis” de bandas musicais… “Ponte de Lima tem tantas filarmónicas! — diria, com a alma embebida de espanto, o jovem Príncipe para a sua comitiva, também ela envolta numa gigantesca onda de ovação e empatia, não evitando o seu aio, Mouzinho de Albuquerque, um aberto e estendido sorriso paternal. Tudo isto, perante o regozijo borbulhante das autoridades locais! AO MERCADO Ao contrário da criação da “Avenida dos Plátanos”, a construção do Mercado constituiu um foco de rija polémica, mormente pela perspetiva do encurtamento da venerada alameda. Ao contrário da criação da “Avenida dos Plátanos”, a construção do Mercado constituiu um foco de rija polémica, mormente pela perspetiva do encurtamento da venerada alameda. Enquanto uns argumentavam com uma “calamidade”, caso se efetuasse o corte de “duas linhas de plátanos”, a edilidade defendia que “alguns plátanos ocultam parte da frontaria do Mercado” e “pouco influem na extensão e na visão geral da álea arborizada”. No final prevaleceu a opinião dos autarcas! Perante a resistência geral — este é outro apontamento — quanto a um provável corte de vários dos sagrados plátanos, a edilidade recorreu, com determinação, ao “efeito surpresa”, tendo ordenado a execução do corte, de uma mão cheia de exemplares do divinal conjunto arbóreo, no escuro e no silêncio da noite. Com esse ato, evitou-se uma revolta popular e, só assim, a vereação conseguiu dar continuidade à edificação do MM, no espaço que os técnicos haviam determinado, erigindo um “edifício elegante e bem trabalhado”, que veio a ser inaugurado em 1931. Hoje, já com outras variações estéticas, o atraente Mercado lá se encontra, altaneiro, a irradiar todo o seu encanto, mas também a contemplar as serenas águas do Lima e a observar, enlevado, a “poesia visual” dos triunfais plátanos, com as abas da Serra d’Arga a servir de retábulo de fundo ao mais esplendoroso quadro da cenografia paisagística. Com esse ato, evitou-se uma revolta popular e, só assim, a vereação conseguiu dar continuidade à edificação do MM, no espaço que os técnicos haviam determinado, erigindo um “edifício elegante e bem trabalhado

A culminar o século XIX e na entrada do século XX, Ponte de Lima assiste a uma profunda mudança na sua morfologia urbana com a edificação de novos empreendimentos, desde a abertura de ruas, ruelas e avenidas, à reconfiguração de praças, ganhando a estrutura medieval e o espaço cénico frontal ao Lima uma nova fisionomia arquitetónica que perdurou até aos nossos dias.

Nestes empreendimentos, que transformaram a aprazível frente ribeirinha, nasce uma majestosa Avenida — a “Avenida dos Plátanos” — que recebeu o aplauso de todos e, na conjugação das décadas de 20 e 30, em espaço contíguo, é edificado o Mercado Municipal (MM), hoje visto como uma bela peça da arquitetura civil, mas que, à época, gerou uma ardente e prolongada controvérsia na comunidade limiana.

A fonte de discórdia assentava, sobretudo, no local escolhido para a implantação do Mercado, particularmente na mácula que a nova construção provocaria na bem-querida “Avenida dos Plátanos”.

DOS PLÁTANOS…

A forte e original paixão — uma paixão sinestésica — do povo pela majestática Avenida, transformou a sua inauguração num acontecimento marcante para a orgulhosa população da “vila realenga”. 

A Avenida foi inaugurada em 08/10/1901, pelo Príncipe D. Luís Filipe, então com 14 anos de idade, no âmbito de uma visita que o herdeiro do trono fez ao Norte, tendo passado por Viana, Ponte de Lima, Ponte da Barca, Monção e Caminha.

E aqui, na confluência destes empreendimentos, surgem apontamentos nunca referidos — porventura — em documentos conhecidos, mas que integram o acervo de memórias conservadas e contadas pela mais sábia depositária — minha mãe — de episódios singulares e imperecíveis, por vezes epigramáticos, vividos no dia a dia de sucessivas gerações, na sociedade limiana, durante o século XX.  

Afinal o passado nunca morre! 

O povo limiano — cioso de expressar, com fervor, os seus excecionais predicados de bem receber —, quis deixar ao Príncipe, aquando da inauguração da encantadora alameda, uma impressão memorável e enternecedora, produzindo, com colossal sumptuosidade, uma receção sentimental, cénica, festiva e musical — quiçá única na sua visita ao Norte. 

E é aqui — e este é um dos apontamentos —, que se verifica uma desconcertante imaginação do povo limiano e uma capacidade singular de construir o instantâneo, o dissemelhante e o burlesco. 

À medida que a “comitiva real” avançava, em jubilosa aclamação, pelos velhos arruamentos lajeados da antiga vila, pequenos grupos da banda filarmónica limiana — previamente divididos e astuciosamente dispersos pelo percurso régio — circulavam num volutear vertiginoso, por ruelas e atalhos, colocando-se mais à frente, no itinerário do vistoso “cortejo”, para “Príncipe ver e ouvir”, na sequência certa, as mais castiças melodias, ampliando, deste modo, o brilhantismo da receção limiana à visita real. 

Afinal, no meio de tão calorosa e comovente manifestação popular, concluiria o Príncipe que PL o presenteara com a mais honrosa e generosa receção, com a mobilização de multidões em festa, empolgadas pelo interminável “efeito da multiplicação das filarmónicas”, que propagavam pelos ares, ao jeito da leveza das mais finas plumas, exaltantes sinfonias, com doces e alegres sonoridades, vindas de “números incontáveis” de bandas musicais… 

“Ponte de Lima tem tantas filarmónicas! —  diria, com a alma embebida de espanto, o jovem Príncipe para a sua comitiva, também ela envolta numa gigantesca onda de ovação e empatia, não evitando o seu aio, Mouzinho de Albuquerque, um aberto e estendido sorriso paternal. 

Tudo isto, perante o regozijo borbulhante das autoridades locais!

AO MERCADO

Ao contrário da criação da “Avenida dos Plátanos”, a construção do Mercado constituiu um foco de rija polémica, mormente pela perspetiva do encurtamento da venerada alameda.

Ao contrário da criação da “Avenida dos Plátanos”, a construção do Mercado constituiu um foco de rija polémica, mormente pela perspetiva do encurtamento da venerada alameda.

Enquanto uns argumentavam com uma “calamidade”, caso se efetuasse o corte de “duas linhas de plátanos”, a edilidade defendia que “alguns plátanos ocultam parte da frontaria do Mercado” e “pouco influem na extensão e na visão geral da álea arborizada”. 

No final prevaleceu a opinião dos autarcas!

Perante a resistência geral —  este é outro apontamento —  quanto a um provável corte de vários dos sagrados plátanos, a edilidade recorreu, com determinação, ao “efeito surpresa”, tendo ordenado a execução do corte, de uma mão cheia de exemplares do divinal conjunto arbóreo, no escuro e no silêncio da noite. 

Com esse ato, evitou-se uma revolta popular e, só assim, a vereação conseguiu dar continuidade à edificação do MM, no espaço que os técnicos haviam determinado, erigindo um “edifício elegante e bem trabalhado”, que veio a ser inaugurado em 1931.

Hoje, já com outras variações estéticas, o atraente Mercado lá se encontra, altaneiro, a irradiar todo o seu encanto, mas também a contemplar as serenas águas do Lima e a observar, enlevado, a “poesia visual” dos triunfais plátanos, com as abas da Serra d’Arga a servir de retábulo de fundo ao mais esplendoroso quadro da cenografia paisagística. 

Com esse ato, evitou-se uma revolta popular e, só assim, a vereação conseguiu dar continuidade à edificação do MM, no espaço que os técnicos haviam determinado, erigindo um “edifício elegante e bem trabalhado”.

Artigo de Adelino Silva

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