OLGA AFONSO investigadora de Cerveira é destaque na revista internacional “Science”

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Foi, no último mês, destaque na imprensa nacional e estrangeira! Uma equipa de investigadores do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), do Porto, viu publicada na reconhecida revista internacional ‘SCIENCE’ um seu trabalho que pode “revolucionar o conhecimento sobre a vida”.

Dessa equipa faz parte Olga Afonso, de Vila Nova de Cerveira, que, desde cedo, percebeu que as Ciências seriam o caminho a seguir. Ao VALE MAIS contou, em primeira mão, tudo sobre si e o seu trabalho.olga-3

Nasceu em Viana do Castelo a 21 de setembro de 1984. Todavia, a sua infância foi passada entre a freguesia cerveirense de Campos, onde vivia e participava no Agrupamento de Escuteiros, e a vila de Cerveira, onde estudou desde o ensino básico até ao secundário. Desde sempre sentiu mais vocação para a área das Ciências do que para humanidades, embora fosse boa aluna na generalidade das disciplinas. No 10.º ano não hesitou em seguir o caminho das Ciências!

Apesar da investigação absorver uma grande parte do seu tempo, continua a manter uma forte ligação a Vila Nova de Cerveira, local onde costuma passar os fins de semana para visitar os seus pais e amigos.

VALE MAIS: Olá! Como foi parar à área da investigação? 

OLGA AFONSO: Quando ingressei no ensino superior, mudei-me para o Porto. Fiz o primeiro ano do curso de Farmácia, mas acabei por perceber que não seria este o ideal para mim, uma vez que, dificilmente, no futuro conseguiria fazer uma carreira na investigação. Por isso, no ano seguinte, candidatei-me ao curso de Bioquímica da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, que concluí em setembro de 2008. No último ano da licenciatura, realizei um estágio de seis meses e foi nessa altura que tive a primeira oportunidade de fazer parte de uma equipa de investigação. Era liderada pelo professor Cláudio Sunkel, no Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), onde fiquei por mais dois anos e aprofundei os meus conhecimentos sobre os processos biológicos que mais me fascinam: divisão celular e mitose.

No final do ano de 2010, fui convidada para integrar a equipa de investigação do professor Hélder Maiato, com o objetivo de realizar o doutoramento.

O curso de Bioquímica da Faculade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) é muito direcionado para a investigação, seja ela aplicada ou fundamental; portanto, sempre assumi que o meu percurso iria passar por aí.

VM: Qual é o seu papel na equipa e nesta investigação?

OA: Integrei a equipa de investigação do professor Hélder Maiato como aluna de doutoramento. Quando fui introduzida neste projeto de investigação tinham sido realizados estudos iniciais que, à luz dos conhecimentos existentes, não poderiam ser explicados. A partir daí, assumi a função de investigar que outros processos poderiam explicar os resultados observados e estudá-los de forma exaustiva e aprofundada.

VM: Como aconteceu o apoio do European Research Council (ERC)?olga-2

OA: Durante o período em que permaneci na equipa de investigação do professor Cláudio Sunkel fui financiada, através de bolsas, associadas a um projeto aprovado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT).

No final do ano de 2010, comecei a considerar programas doutorais no estrangeiro quando fui convidada para realizar o doutoramento integrada na equipa de investigação do professor Hélder Maiato, com o apoio do European Research Council (ERC), um prémio na ordem dos 1.5 milhões de euros que o laboratório tinha ganho.

VM: O trabalho do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) poderá “revolucionar o conhecimento sobre a vida”. Porquê?

OA: A divisão celular é um processo essencial para todos os organismos vivos e, por essa mesma razão, é um mecanismo altamente regulado e controlado. Existem vários pontos de controlo durante a divisão celular que permitem que, apenas, a célula avance para o ponto seguinte se o anterior decorrer com sucesso. Digamos que funciona como um radar que inspeciona o que a célula fez até um certo ponto e só a deixa avançar após dar o “OK”.

O nosso trabalho permitiu identificar um ponto de regulação da divisão celular que controla a separação dos cromosomas e apenas permite a formação de duas células-filha quando os cromossomas estão totalmente separados. Desta forma, é assegurado que as duas células-filha geradas no final da divisão celular têm o mesmo conteúdo genético. O mau funcionamento destes pontos de controlo poderá conduzir a erros na formação de novas células e, consequentemente, originar doenças.

VM: Qual o objetivo desta investigação.

OA: Todos os trabalhos realizados no nosso laboratório têm como principal objetivo o estudo da divisão celular e a mitose, a fase do ciclo celular na qual uma célula mãe se divide fisicamente para dar origem a duas células-filha. É a divisão celular que permite o crescimento e a renovação dos tecidos em todos os seres vivos. Para estudar este processo utilizamos, na maior parte das vezes, a microscopia em conjugação com ferramentas genéticas e químicas. Desta forma, podemos manipular e alterar o processo para averiguar a resposta das células.

VM: Este trabalho publicado na Science «trata a descoberta pela descoberta, sem qualquer pretensão de aplicação à saúde humana». É mesmo assim quando se descodifica “uma base comum essencial para a vida de todos os organismos, com fortes implicações para a saúde humana”? Explique.

OA: Sim, este trabalho, originalmente desenvolvido em células de mosca da fruta, permitiu identificar um novo ponto de controlo da divisão celular, provavelmente, comum a todos os seres vivos.

É importante entender que primeiro devemos comprender os processos biológicos e só depois é que podemos identificar a aplicabilidade para esses mesmos processos.

Com este trabalho conseguimos aumentar o conhecimento atual sobre a divisão celular, mas só quando tivermos uma visão completa de como todo o processo é regulado é que podemos pensar numa possível aplicação à saúde humana.

VM: Como aconteceu a publicação na “Science” e qual a sua importância?olga-1

OA: À medida que o trabalho foi sendo desenvolvido ao longo de três anos, fomo-nos apercebendo da sua importância e, por isso, submetemos o trabalho para publicação na Science. O trabalho foi bem aceite pelos revisores e, alguns meses depois, foi admitida para publicação.

Sabendo que a Science é uma revista americana, de referência mundial, que publica as principais descobertas feitas nas diferentes áreas de investigação, desde a biologia até à física e astronomia, uma publicação neste jornal é o reconhecimento de todo o trabalho realizado.É especialmente importante, pois trata-se de trabalho feito, na totalidade, em Portugal.

Para além disso, uma publicação num jornal tão conceituado vai, com certeza, abrir muitas portas para o futuro.

VM: Em sua opinião, como está a investigação no nosso país? Fala-se muito na fuga dos nossos cérebros e investigadores. É mesmo assim?

OA: Nos últimos anos a investigação em Portugal tem sofrido vários cortes no financiamento, não só nas bolsas que são atríbuidas, mas também no financiamento dos projetos que as equipas de investigação pretendem desenvolver.

O meu caso acaba por ser um exemplo da dificuldade que existe em obter uma bolsa de doutoramento em Portugal, pois candidadei-me durante dois anos consecutivos, sem sucesso, e só consegui continuar a trabalhar cá, em Portugal, devido ao financiamento europeu da equipa do professor Helder Maiato. De outra forma, o meu percurso teria passado, muito provavelmente, pelo estrangeiro.

VM: Alguma vez sonhou obter esta distinção?

OA: Ter um trabalho tão bem reconhecido é o sonho de qualquer investigador. É claro que não foi fácil chegar até aqui e tudo isto exige muito esforço e dedicação. Neste caso, o projeto, que foi desenvolvido nos últimos três anos, é o trabalho que está na base do meu doutoramento.

VM: Qual é o sonho que se segue?

OA: Esta publicação permite-me também continuar os meus estudos e avançar para o patamar seguinte na carreira científica; um Pós-doutoramento, possivelmente, no estrangeiro, não por achar que “lá fora é que é melhor”, mas, principalmente, por ter a oportunidade de conhecer diferentes culturas e metodologias de trabalho.

VM: Vivendo no Porto, qual a sua relação com V. N. Cerveira e como pensa que será a sua vida daqui a 10 anos?

“Nesta imagem pode-se ver os cromossomas a vermelho e a verde um marcador da formação das duas células-filha. O que acontece é que esse marcador não aparece no cromossoma atrasado possibilitando a sua incorporação no células-filha em formação”.
“Nesta imagem pode-se ver os cromossomas a vermelho e a verde um marcador da formação das duas células-filha. O que acontece é que esse marcador não aparece no cromossoma atrasado possibilitando a sua incorporação no células-filha em formação”.

OA: Apesar de estar a viver e trabalhar no Porto, ainda mantenho uma ligação forte a V.N. de Cerveira e à freguesia de Campos, onde estou quase todos os fins de semana.

O tempo em Cerveira é, normalmente, passado com os pais e amigos e, também, no Agrupamento de Escuteiros de Campos, ao qual pertenço desde os seis anos e onde, neste momento, sou Chefe da 1ª Secção, constituída por crianças dos seis aos 10 anos de idade.

É difícil prever o futuro, mas guardo em mim a ambição de vir a estabalecer o meu próprio laboratório de investigação.

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