Espectáculo sem alma

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Futebol :: Será que se joga para o verdadeiro espetáculo?

futebol português vive, do meu ponto de vista, momentos de grande indefinição, nomeadamente, no que diz respeito a um certo paradigma:

“Jogar bem ou jogar mal, o importante é vencer”. 

Será, porventura, a ideia mais contraditória que encontro na maioria das declarações dos principais intervenientes no jogo de futebol. Treinadores, jogadores e diretores. Apesar de não considerar estes últimos como intervenientes principais, tenho de os destacar, atendendo ao tempo de antena que os órgãos de comunicação social lhes concedem, sendo porventura, estes os principais causadores, de todos os males de que padece o futebol.

Se considerarmos o futebol como arte e um espetáculo, por vezes, pago a preços exorbitantes, não será redutor, usar o argumento de que tudo vale para alcançar a vitória? Não será tremendamente injusto e incorreto, para com os espectadores, telespectadores ou ouvintes, entrar, deliberadamente, dentro do recinto desportivo com a ideia que entramos numa “guerra” onde o importante é ficar vivo no fim do embate? Não serão os “nossos adeptos” pouco exigentes para com quem tem obrigação de proporcionar 90 minutos de espetáculo?

Em jeito de paralelismo, imaginemos que nos deslocamos ao teatro ou ao cinema, pagamos bilhete para ver uma peça ou algum blockbuster (imposto ou sugerido por uma Hollywood cada vez mais refém de interesses que em nada têm a ver com cinema de qualidade, um pouco à semelhança do futebol), sendo que, o que vamos assistir, defrauda e muito as nossas expectativas. Revoltamo-nos, queixamo-nos, insurgimo-nos contra tudo e todos, jurando que daquele encenador ou realizador não assistiremos a mais nada. E no futebol, fazemos isso? Eu respondo. Sim, se a nossa equipa perder. Se a equipa ganhar dizemos vulgarmente expressões do tipo: “jogamos mal, mas o importante são os 3 pontinhos, venha o próximo”.

É um facto que vivemos numa sociedade “resultadista”, onde apenas uma pequena minoria valoriza o jogo bem jogado. Preferencialmente, valorizamos o pragmatismo e o calculismo, deixando de parte, a coragem de assumir o jogo e a obrigação de proporcionar, aos adeptos, momentos de puro deleite.

Em Portugal, vive-se um problema e é a nível de conceitos básicos, do que devia ser o desporto e o futebol. Todos querem o resultado imediato, de algo que não se pensou antecipadamente. Estamos, portanto, a construir máquinas em vez de seres humanos com sentido crítico. Os destaques são feitos, unicamente, aos treinadores da moda. Usam, na maioria das vezes, um discurso contraditório daquilo que defendem em campo. Joguem para o espetáculo, defendam ideais com unhas e dentes, o resto vem por acréscimo. Promova-se a Inovação!

Querem estádios cheios de espectadores e famílias inteiras a ir ao futebol? Ninguém quererá ver um filme em que o trailer é miserável.

Os treinadores que privilegiam o futebol espetáculo, precisam de mais tempo do que os treinadores “pragmáticos”. Pois, que lhes seja dado esse tempo. Os jogadores não precisam de momentos de tensão/pressão que lhes façam duvidar ou perder o seu talento.

Atentem ao feito alcançado pelo modesto Las Palmas, da nossa vizinha Espanha, como exemplo. Um clube modestíssimo no seu historial, mas com um presente/futuro risonho, conduzido por um treinador que, na minha opinião, deveria ser um exemplo para todos aqueles que pretendam iniciar ou prosseguir carreira como “técnico de futebol”. Quique Setién, um senhor treinador na verdadeira aceção da palavra. Las palmas, um clube pequeno em tamanho, mas enorme na ambição e no orgulho de bater o pé e jogar de peito feito com os colossos espanhóis. Sem abdicar dos seus princípios de jogo, proporciona um futebol estético e apaixonante.

Todos queremos vencer. Seja na vida ou no desporto, o objetivo é sairmos sempre vencedores. O que nos pode e deve diferenciar, é a forma como vencemos. A nossa filosofia. O caminho, mais ou menos virtuoso, que nos conduz ao sucesso. Eu gosto de treinadores que privilegiem o espetáculo, que conquistem adeptos de todas as equipas, que queiram ficar na história pelo futebol espetáculo e pela inovação, e não pelos “malditos” resultados.

Um bem-haja, em jeito de agradecimento, aos “Cruijffs, Guardiolas, Setiéns ou Sampaolis” do futebol.

Crie-se o movimento “Abaixo o Resultadismo e os Resultadistas”!!! Para o bem do Futebol e do espetáculo.

Eduardo Galeano, saudoso escritor uruguaio, escreveu em 1995, uma série de textos sobre futebol, desporto que lhe despertava uma imensa paixão. Nestes fabulosos textos, destaco um parágrafo, que resume, de forma excecional, qual será o futuro do futebol, entregue a um sem número de “resultadistas e pragmáticos”, que mais não fazem do que retirar a alma, a tão nobre desporto.

(…) El juego se ha convertido en espectáculo, con pocos protagonistas y muchos espectadores, fútbol para mirar, y el espectáculo se ha convertido en uno de los negocios más lucrativos del mundo, que no se organiza para jugar sino para impedir que se juegue. La tecnocracia del deporte profesional ha ido imponiendo un fútbol de pura velocidad y mucha fuerza, que renuncia a la alegría, atrofia la fantasía y prohibe la osadía. (…)

“El Fútbol a sol y sombra”

Eduardo Galeano

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