Estou pronto, Senhor!

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Em Novembro de 2014, a minha página de opinião intitulava-se “Os insubstituíveis e os outros”. Falava do poeta/compositor/cantor Leonard Cohen e dizia que ele completara 80 anos, em Setembro, e publicara, dias depois, um novo álbum.

Passados dois anos, por coincidência ou não, volto a falar desse canadiano errante a quem eu então catalogara no grupo dos raros insubstituíveis.

Agora com oitenta e dois anos, voltou a publicar, passado pouco tempo do seu aniversário, um novo e derradeiro álbum. E digo derradeiro, porque Leonard Cohen partiu para outra dimensão…

Comprei este álbum com a certeza de que iria sentir o mesmo de sempre: mais um trabalho extraordinário. Ouvi-o de um fôlego e fiquei a senti-lo invadir, lentamente, os meus sentidos. No dia seguinte voltei a ouvi-lo, com mais calma, e fiquei arrepiado. No primeiro tema ele dizia “I’m ready, Lord” (Estou pronto, Senhor), como se tivesse a percepção de que a vida se preparava para o abandonar, como se se “levantasse da mesa e saísse do jogo”.

Interiorizei estas palavras como algo de premonitório. No outro dia, ao ligar o rádio do carro, ouvi que Leonard Cohen desaparecera do mundo dos vivos!

Mal pude, corri a ler as palavras que o poeta escrevera, qual profeta, sobre a sua musa Marianne, a da canção, entretanto falecida: “Bem, Marianne, chegou o ponto em que estamos tão velhos que os nossos corpos começam a desmoronar-se e eu penso que te seguirei muito em breve. Fica sabendo que te sigo de perto e que se estenderes a tua mão conseguirás tocar a minha, penso eu”. E a profecia concretizava-se…

Na verdade, a fronteira que separa os que ficam dos que partem é tão ténue que nós, ainda aqui, quase podemos sentir o respirar dos que estão do outro lado. Afinal aqui tudo é tão breve, tão efémero que, talvez, não seja assim tão difícil partir. Sinto que ninguém parte sozinho, que ninguém fica sozinho. A fronteira, se calhar, não existe. Nós, os ainda aqui, é que a imaginamos.

A certeza que aqui deixo, porque a sinto, é que Leonard Cohen não partiu, não partirá nunca. Terá partido fisicamente, mas deixou-nos ficar a imortalidade das suas palavras, da sua música, da sua voz intensa e grave.

Ficaremos, com a música de fundo, a ouvir a palavra que voa para lá do pensamento dos sentidos, buscando na sua intemporalidade o caminho certo para atingir o Absoluto.

Leonard Cohen, presente!

O primeiro livro de Leonard Cohen, intitulado Let us compare mythologies, publicado em 1956, contém um poema (The Warrior Boats” – Os barcos de Guerra), dedicado a Portugal!

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