ESTUÁRIO DO MINHO A PAISAGEM CULTURAL DA UNESCO

CAMINHA

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Os presidentes das câmaras de Caminha, no Alto Minho, e de A Guarda, na Galiza, anunciaram ontem o início do processo de candidatura conjunta do estuário do rio Minho a Paisagem Cultural da Unesco.

Segundo a câmara portuguesa, após o memorando de entendimento ontem assinado pelos dois autarcas, vai ser criada “uma equipa de trabalho comum que irá recolher toda a informação documental sobre os recursos naturais, culturais e antropológicos” daquela zona.

Do lado português, o projeto já foi apresentado ao Governo, à Comissão de Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN) e à Comunidade Intermunicipal (CIM) do Alto Minho, no sentido de garantir apoio financeiro para a sua concretização.

O autarca de Caminha, Miguel Alves, citado num comunicado da sua autarquia, adianta que “até ao final deste ano será estabelecido um calendário, comum, de atividades com o propósito de envolver as populações”.

“Nada disto faz sentido se for uma candidatura de gabinetes e de especialistas, se as populações não forem envolvidas no processo e se este não for amplamente participado”, sustentou.

A elaboração da candidatura do “Estuário do Minho Caminha – A Guarda” a Paisagem Cultural da UNESCO está a cargo de dois especialistas da Universidade de Barcelona.

No memorando de entendimento, Miguel Alves e o seu homólogo de A Guarda, António Lomba Baz, realçam “a riqueza histórica, cultural, paisagística, ambiental, económica, etnográfica e humana desta zona comum como condições suficientes para o sucesso do projeto”.

“A hipótese que agora se abre, de classificação do estuário como Paisagem Cultural da Unesco, é considerada essencial para a valorização do património natural e cultural existente, preservação e divulgação junto da comunidade internacional”, sustentam.

O processo de candidatura hoje iniciado numa reunião em A Guarda, resultou “das excelentes relações entre ambos os municípios, e o espírito de colaboração reforçado ao longo dos últimos dois anos”.

Além daquele projeto, os dois municípios “chegaram ainda a acordo” sobre as “contas” de funcionamento do ‘ferryboat’ internacional que desde 1995 assegura as ligações fluviais entre as duas margens do rio Minho.

“Por saldar permanecem os anos de 2006 e 2007, com A Guarda a reconhecer valores em dívida de 188 mil euros, e 194 mil euros, respetivamente. Ficou acordado que, até março de 2016, A Guarda pagará a Caminha o montante de 2006 e, até dezembro do próximo ano, liquidará o ano de 2007”, explicou o município português.

Este ano, a autarquia galega “já entregou” à autarquia portuguesa, 54.556 mil euros das receitas da bilheteira do ‘ferryboat’.

“Permanecem em desacordo os anos anteriores a 2006, tendo as partes acordado transmitir isso mesmo ao tribunal, deixando Caminha de reivindicar os anos entretanto pagos, e os que foram agora alvo da calendarização dos pagamentos”, explicou a autarquia de Caminha.

Na reunião ficou ainda decidido “redigir um protocolo para regular o funcionamento do ‘ferryboat’, e os direitos e deveres dos dois municípios”.

No passado mês de junho, a nossa colunista Maria de Fátima Cabodeira, no seu artigo mensal, “O Olhar cativo pela paisagem” fez menção ” a paisagem – soberba – toma o olhar de assalto num dia límpido e perfeito” dando depois seguimento a beleza deste estuário e toda a sua envolvente. Um texto que recuperamos dado a notícia atual.

O olhar cativo pela paisagem

O regresso do Rally de Portugal por alguns troços do distrito de Viana do Castelo foi o pretexto para, em meados de maio, subir à Serra d’Arga.
Do monte onde se situa a ermida de Nossa Senhora das Neves, a paisagem –soberba – toma o olhar de assalto num dia límpido e perfeito.
Como num quadro em perspetiva, vemos, antes de mais, algumas aldeias do concelho de Caminha, serpenteadas pelo rio Coura. Assomam, depois, as duas pontes sobre o estuário do Minho – a ferroviária e a viária.
E em pano de fundo, o monte de Santa Tecla, que parece fitar-nos onde quer que nos encontremos neste Vale. O mar e o céu fundem-se, além, no horizonte infinito.
Há também as urzes e as giestas em flor, que em plena época primaveril vestem a serra de tons alegres, contrastando com o penedio imponente.
Creio que a par de outras, pela sua beleza, ancestralidade e simbolismo histórico e cultural, esta paisagem também merecia ser declarada Património da Humanidade.
Algures por ali, um grupo de pessoas, com o seu farnel, convivia saudavelmente ao som da … concertina. E de repente tudo me pareceu familiar. Como retratam as fotografias antigas de família nas idas à romaria da Sra. das Neves.
Felizmente, ao que parece, há ainda os que gostam de se embrenhar na natureza e de travar dois dedos de conversa em cenários de rara harmonia. Dispensando o apelo intransigente e impessoal dos centros comerciais e das grandes superfícies.
O Rally de Portugal faz parte das minhas memórias de infância. Muito antes das classificativas, já os pilotos “de primeira água” tomavam o pulso ao terreno. Ao fungar dos motores, juntava-se o atrativo dos carros da assistência, para os quais acorríamos, as crianças, em busca de calendários, canetas, entre outros brindes e até autógrafos.
Saúdo, por isso, o regresso da prova a estes cenários tao encantadores, esperando que atrás do automobilismo surjam novas oportunidades que ajudem a espicaçar a economia local, mas de forma sustentável.
Quando menos se espera, a esperança sorri-nos.
Na obra “No Teu Deserto”, há uma passagem em que Miguel Sousa Tavares refere: “A terra pertence ao dono, mas a paisagem pertence a quem a sabe olhar”.
Numa época em que se pretende capturar todos os instantes da vida, para os escancarar nas redes sociais, talvez devêssemos reaprender a olhar.

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