EUDOSIA:: Uma professora Galega refugiada nas montanhas de Castro Laboreiro

1
Imagem de Delfina e Eudosia no último encontro entre ambas
Delfina e Eudosia no último encontro entre ambas

Histórias da Guerra na primeira pessoa

Eudosia Lorenzo Dias foi uma jovem galega que, com 19 anos de idade, se refugiou, com seus pais, em Castro Laboreiro e aí viveu escondida, durante cerca de três anos, entre brandas e inverneiras, com a ajuda de gentes da região. Foi em 1936, na sequência dos acontecimentos que derem origem à Guerra Civil espanhola. Viviam na vizinha aldeia galega de Fradavilte.

Seu pai era já conhecido e estimado, devido ao seu ofício de capador, e o acidentado e difícil terreno e caminhos serranos tornava extremamente difícil a tarefa de a encontrar por parte da polícia portuguesa que os procuravam.

Para a, então, PVDE – Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (mais tarde PIDE), eles seriam “elementos propagandistas das teorias comunistas”. Em 1937, um relatório desta força policial referia que “nas regiões montanhosas de Castro Laboreiro encontram-se escondidos nas furnas, em plena montanha, desde o princípio da guerra em Espanha, bastante espanhóis. Esta polícia tem feito algumas surtidas que, dada a configuração do terreno e uma frente de 50 quilómetros, têm sido pouco profícuas”.

Daí que só, através de uma denúncia de um local, é que foram encontrados. A partir dela, a polícia começou a rondar a casa onde entretanto a família se tinha mudado, na mudança de estação, para a branda do Rodeiro, lugar isolado em Castro Laboreiro, próximo da raia seca. No relatório de captura escreve-se que havia a informação “de que estariam refugiados numa mina, no rio que margina este logar ou na casa de António Domingos Rendeiro, num esconderijo perto da lareira”. Não se refere quaisquer torturas, mas, de facto, terão mesmo batido e pontapeado o proprietário da habitação, assim como, antes, mergulhado a cabeça da filha mais nova na água fria do rio. Mas ninguém respondia à pergunta: “Onde estão escondidos os galegos?”.

Naquele relatório diz-se, apenas, que foi retirado “de um canto da lareira enormes atados de urzes e um pesadíssimo banco, tudo isto assente num chão de lages”. Ao “pedir um ferro ou martelo”, os agentes que os capturaram foram surpreendidos “com o levantamento muito lento de uma destas (lajes), e de vozes que imploravam clemência”. Não batam mais no homem, que ele não tem culpa – terá suplicado Eudosia, a primeira a sair. O esconderijo ainda hoje é passível de ser visto, numa casa de pedra, agora em ruínas, na branda do Rodeiro e que tem uma alminha numa esquina.

80 ANOS DEPOIS: A HISTÓRIA NA PRIMEIRA PESSOA

A história foi-nos também contada na primeira pessoa. Delfina Fernandes tem agora 97 anos, mas uma genica e memória invejável. Vive com a filha no lugar de Queimadelo. Tinha 15 anos quando Eudosia e família vieram para a sua inverneira, no de Alagoa. Dormiram juntas – ela, a irmã e Eudosia. Foi esta  que lhe ensinou – bem como a outras crianças castrejas – a ler e a contar.

“Eles fugiram de noite e atravessaram a fronteira de Entrimo, passaram no Ribeiro de Baixo, depois para o de Cima e chegaram à Alagoa”. “Tinham ainda dois filhos menores que não precisavam de fugir. Queimaram-lhe a casa. Não eram políticos. Ela é que andou na escola com os da esquerda… que era contra o Franco”.

“Tiveram que fugir, senão matavam-nos”, conta-nos. Delfina observa que, na altura, o pai de Eudósia teria pouco mais de 40 anos. “Era o chefe da banda de música de Grou. Lembra-me de ter sete ou oito anos e vir tocar à Senhora da Vista”, acrescentando que se realizam bailaricos e ele “era um borguista de muita coragem”. De dia, andavam vestidos como os de Castro Laboreiro, confundindo-se, até, com estes.

“Tinham dinheiro bastante. Havia ali uma loja, a do Ti Bernardo, ele ia lá enquanto não os perseguiram, e mandavam vir as compras. Até houve um homem estudado que passou pela fama, pelo menos, de o ter enganado, numa negociata, em milhares de pesetas”.

A vida, naqueles tempos, era muito difícil. “Trabalhava-nos como negros, no campo, a ‘botar’ centeio, batatas, com rebanhos de ovelhas, vacas. Foi há 51 anos que vim para aqui, para o Queimadelo. Tinha 21 vizinhos” (hoje só há três).

Das recordações de Eudosia, lembra-se que já sabia as primeiras letras, mas não a numeração. “Foi ela que me ensinou. Disse-me, até, para comprar uma tabuada. Ensinava-me em casa. Sei ler as parcelas até ao milhão. Tive a oportunidade” – observa à reportagem da VALE MAIS.

Eudosia com o marido e filho, ladeando os seus pais

CHEFE DA POLÍCIA ENCANTADO

Depois da captura, vai para 80 anos, no caminho até Melgaço, a pé, o chefe do posto da polícia foi a conversar com Eudosia. “Ficou encantado por ela… mas era casado. Se estivesse solteiro…”. Ofereceu-lhe um crucifico que ela, mais tarde, emoldurou.  “Quando chegou lá (a Melgaço), disse-lhe: você não se aflija, não serão entregues. Não foi ele que conseguiu, mas grandes amigos. O pai esteve preso, mas ela e a mãe meteram-nas no hospital, a ajudar as freiras. Os espanhóis ainda vieram para os levar, mas já estava tudo combinado”.

Três meses depois de capturados, já tinham obtido a documentação que lhes permitiu viajar até Casablanca, em Marrocos, onde chegaram em agosto de 1938.  “Meteram-nos no comboio em Monção e foram até ao Algarve em segredo. Ali, ainda tiveram de esperar oito dias para embarcar”, assevera-nos Delfina.

Em Marrocos, a vida não lhes correu mal. “Assim que acabou a Guerra, Eudosia foi para França e teve a sorte de casar com um homem rico e não precisou trabalhar mais. Teve dois filhos, um deles ainda vem visitar-me, mas passaram-se uns 60/70 anos sem saber da vida deles.”

E como se deu o reencontro? Eudosia escreveu uma carta endereçada ao pároco de Castro Laboreiro, o padre Aníbal Rodrigues, que chegou a conhecer quando ele era estudante. Dizia: “Sou uma pessoa que estive na Alagoa e no Rodeiro, no tempo da Guerra, e conto fazer uma visita, de tantos de Julho e tantos de agosto, a Castro Laboreiro”, conta-nos Delfina Fernandes.

“O padre Aníbal, assim que viu a minha filha, contou-lhe da visita. Eu fui buscar a direção e escrevi-lhe uma carta, num papel de 25 linhas, para que coubesse tudo. Só existia eu, naquela família, que ela conheceu. A minha irmã já morrera”. Eudosia respondeu-lhe e disse-lhe que a casa deles tinha sido queimada, como casou e que tinha uma casa entre Bande e Muiños, perto de barragem de Conchas. “Já fui lá!” – garante, orgulhosa.

Esteve, depois, três vezes com Eudosia. Na primeira, esteve com o padre no Ribeiro de Baixo, jantaram e “esteve aqui abraçada comigo, ela e o filho” que, agora, costuma visitar Delfina. Também foram ao Rodeiro ver a casa onde esteve escondida. 

“A última vez foi em 2004, tirou-me um retrato, à porta daquela garagem (perto da atual residência de Delfina) e disse-me que vinha buscar-me um dia para a casa dela. Quando viesse de férias. Foi a última vez que a vi, naquele ano foram dar um passeio lá em França, deu-lhe qualquer coisa e morreu e por lá foi sepultada. O marido já tinha falecido há três anos. Não o cheguei a conhecer” – observa a nossa interlocutora.

Delfina Fernandes

TIO GALEGO DA ANTIGA PROFESSORA

Nesta reportagem a Castro Laboreiro, Fátima Afonso, natural, residente e antiga professora na freguesia (encontra-se aposentada), foi a nossa cicerone, dando-nos conta das dificuldades que os locais já passaram e de um seu tio (“marido de uma tia do meu pai”) que era galego. Uma nota de como a proximidade com os vizinhos do outro lado da fronteira é algo óbvio para esta gente.

“Segundo a minha mãe me contou, fazia trabalhos no campo, era do que se vivia, conheceu a minha tia e casaram-se. Tiveram dois filhos, ainda existe a casa onde viveram (que agora pertence à minha irmã) e moraram cá muitos anos” – observa.

E recorda: “Em pequena, eu ficava com ele e fazia muitos cestos de vime. Tenho essas recordações dele. Depois de tudo acalmado em Espanha, eles foram para lá. É aqui perto, em Xinzo de Limia. Os filhos estão agora a morar em Vigo. Ela morreu mais cedo, ele esteve muitos anos em coma.”

Ao que parece, nunca foi incomodado pelas autoridades policiais. “A minha mãe nunca me contou que ele tinha sido procurado. Foi tudo calmo ali no lugar, não teve ´acusa´, viveu sempre ali tranquilamente, mesmo durante a Guerra. Só não ia a Espanha.”

Fátima Afonso acentua: “Temos a raia seca. As pessoas daqui iam pastar com os gados. E ele conheceu a minha tia. Mas depois veio para cá, ficaram a relacionar-se e acabaram por casar-se.”

Uma situação curiosa tem a ver que, perto da raia seca, eram muitos os castrejos que cultivam os campos do lado de lá.  “O terreno é montanhoso e as pessoas daqui tinham terrenos em Espanha. Possuíam uma guia para poder passar a fronteira. Dela pagavam os direitos em Espanha. Mesmo nesses tempos (conturbados), as  pessoas iam para lá.

Se estivessem nos terrenos deles, não lhes acontecia nada. Agora se eram apanhados fora daqueles limites…”, acrescenta, sublinhando que a fronteira só tinha uns marcos. “Mais nada, além de monte”.

“As pessoas (galegos) vinham para cá, a fim de fugir à guerra. Eram pacíficos. Que me lembre, nunca houve problemas. Normalmente acabavam por casar cá. Alguns regressaram, outros ficaram por aqui” – acentua.

Uma lembrança que é apenas um pormenor curioso. “A tia do meu pai, quando ficava com eles, como eu tinha cabelo comprido, para o segurar, penteava-me com água e açúcar. E depois eram muitas moscas atrás de mim…”.

Fátima Afonso

1 COMENTÁRIO

  1. No meu romance “O CAIS DAS INCERTEZAS”, encontrarão uma referência à Eudosia, que a personagem do romance encontra no cais das incertezas, aquando da sua partida (expulsão) para Marrocos.
    O livro está nas bancas desde o dia 3 de Janeiro passado.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here