Fawlty Towers à Portuguesa!

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Fawlty Towers à Portuguesa

Conto-vos três casos que se passaram comigo recentemente que, por serem tão frequentes e ao mesmo tempo tão naturais, por certo aconteceram ao leitor da Vale Mais; o que há em comum entre eles: amadorismo, falta de visão, e também o seu oposto! Chamem-lhe o que quiserem, mas revelam algo crucial quando se fala do sector turístico no alojamento e restauração, que são os seus profissionais de front office, ou seja, quem dá a cara no atendimento.

Como gosto de praticar o slogan “Vá para fora cá dentro”, neste verão adentrei-me com a família neste Portugal mais ou menos profundo, mais ou menos turístico, quase sempre belo. Facilmente se encontra um pedacinho da nossa história, daquela que lemos nos nossos tempos de escola sobre o rei, o mosteiro, a revolta popular, o escritor ou outro qualquer motivo que nos faz reencontrar com a nossa identidade enquanto cidadãos portugueses. Também facilmente (re)encontrámos algumas situações caricatas que alguns de nos julgavam perdidas no passado, como quando íamos para o Algarve e havia preços e tratamento diferente para estrangeiros e tugas! Entao conto-vos as três pequenas estórias:

Estória 1

Em pleno e tórrido Alentejo, parámos em família num restaurante com esplanada, boa pinta, bom menu (anunciado num cartaz de rua). Três empregados de mesa a servir 10 mesas, três experiências completamente diferentes: a nossa, muito circunspecta, pouco disponível para nos aliciar para um menu que prometia muito (ensopado, migas, borrego, cação) e desiludiu; a outra, rapariga dos seus 18-20 anos, muito solícita, na mesa ao lado, esforçava-se por traduzir para inglês o menu, os ingredientes, o modo de confecção. O terceiro empregado, seco, respondão, vira-se para um casal de brasileiros perguntando quando estes se acercaram de uma mesa para se sentarem “E para quê?”. Por momentos lembrei-me da série Fawlty Towers, onde o dono de um pequeno hotel na costa inglesa (Basil Fawlty, brilhantemente representado por John Cleese, dos Monty Python!) proporciona momentos hilariantes … de falta de chá!

Um mesmo restaurante, três experiências completamente distintas, que depois se reflectem nas críticas dos Tripadvisor e afins! Tivéssemos nós sido atendidos por um empregado diferente e a experiência poderia ter sido muito diferente. Tal como o Basil tratava os clientes conforme acordasse naquele dia, também depender tanto da sorte faz mal à reputação!

Estória 2

Escolhemos vários tipos de alojamentos: desde o alojamento local, passando pela residencial, turismo em espaço rural e hotel. Esta escolha proporciona logo à partida um caleidoscópio de sensações! Num destes alojamentos, em que os donos gerem a propriedade vivendo nela, fomos recebidos com quase indiferença, informados de que a piscina tinha tido um problema qualquer e vago, e de que não poderíamos usar uma parte da sala para o pequeno-almoço porque a mesa grande estava já posta e não fazia sentido ir sujar a outra… Sentimo-nos pequeninos, quase que virados para o canto e com umas orelhas grandes e postiças(!)

Estória 3

O Sr. L., anfitrião de uma bela casa numa recôndita aldeia alentejana, recebe-nos, convida-nos para jantar, faz o jantar na grelha, dá-nos bom vinho, conta-nos estórias, abre-se-nos o coração do Alentejo e dos alentejanos, ensina-nos o que é o receber maravilhosamente, provavelmente como mais ninguém no mundo!

Três casos, em três contextos e regiões distintas. Todos eles terão personalidade e qualificações diferentes. Os resultados para os clientes são também muito díspares. Inevitável, perguntarão os leitores. Eu diria que é evitável que se proporcionem tão más impressões num consumidor. Não quer isto dizer que tenha que haver qualquer tipo de servilismo por parte dos trabalhadores do alojamento e da restauração. Muito pelo contrário! Não se pode é esperar, que num sector que subiu nestes últimos anos ao lugar mais alto do Turismo mundial, o último dos elos desta cadeia – os trabalhadores – sejam sempre o mais fraco. Mais qualificação, menos precariedade, melhores salários correspondem sempre a melhor serviço. Algo que todos os intervenientes no sector – governo, sindicatos, confederações patronais e os próprios trabalhadores – têm varrido para debaixo do tapete! Há que arrumar e limpar a casa!

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