Forte e Estação Arqueológica de Lovelhe

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Iminente classificação como Sítio de Interesse Público

O Projeto de Decisão que ditará a tão pretendida classificação como Sítio de Interesse Público (SIP) do Forte e Estação Arqueológica de Lovelhe, no concelho de Vila Nova de Cerveira, já foi publicado em Diário da República.

Encontra-se, assim, sob consulta pública, até 18 de junho, o processo administrativo, encetado em 1977, que agora poderá estar perto da sua conclusão.

Segundo o dossier de fundamentação, o Forte e a Estação Arqueológica de Lovelhe “testemunham uma memória, identidade cultural cujo significado se contextualiza no âmbito nacional e não só. De fato, no mesmo local em termos de ocupação do território estão presentes elementos construídos de diferentes cronologias que por si têm valor excecional no contexto histórico-social, arqueológico, arquitectónico, técnico-científico, bem como em termos paisagísticos e paisagem humanizada”.

É, ainda, assegurado que “estamos, assim, perante valores culturais que importam proteger, conservar e salvaguardar dado a sua singularidade e autenticidade no âmbito do património cultural português e ibérico”.

À semelhança do Fortim da Atalaia – classificado como Imóvel de Interesse Público (IIP) em 2017, após 38 anos, espera-se, também, que o procedimento administrativo de classificação do Forte e Estação Arqueológica de Lovelhe tenha uma decisão favorável, condizente com a importância daquele espaço.

Estivemos com a vereadora da cultura de Vila Nova de Cerveira, Aurora Viães, que nos falou, um pouco mais, sobre a relevância deste projeto para o concelho.

Como se iniciou o processo para obtenção desta Classificação?

A preservação e valorização do património tem sido uma constante para todos os executivos de Vila Nova de Cerveira. O presente processo de classificação remonta a 1977, tendo-se arrastado devido à alteração do pedido inicial de classificação, que incluía apenas o Forte. Posteriormente, com a aquisição de lotes de terreno que eram importantes para a preservação da estação arqueológica e com a definição de critérios de intervenção naquele local, conjuntamente com o Ministério da Agricultura, a Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira avançou com a reformulação do pedido de classificação integrando as ruínas arqueológicas.

Qual a importância do Forte e da estação arqueológica de Lovelhe para o município?

Este é um local que, do ponto de vista histórico e patrimonial, contribuiu não só para a fixação de população, mas também para a criação de uma identidade local que se afirmou fundamental na defesa local e nacional. Pela longa diacronia da ocupação do sítio, pela quantidade e qualidade do espólio e ruínas exumadas, e pelos episódios históricos associados ao local, trata-se de um dos mais importantes sítios patrimoniais do concelho, merecendo destaque, inclusivamente, a nível nacional.

E que importância tem a atribuição desta classificação?

Além do reconhecimento oficial, a classificação deste conjunto histórico-patrimonial abre portas a possíveis financiamentos para executar intervenções não só de conservação, que são prementes e urgentes, mas também de valorização em várias vertentes.

Qual o estado atual do conjunto do Forte e da estação arqueológica de Lovelhe?

Nos últimos anos, esta autarquia tem realizado um grande esforço na manutenção e valorização dos espaços, mediante uma contínua conservação e a melhoria da iluminação noturna. Ao nível de divulgação, tem-se procurado difundir o conhecimento existente resultado das diferentes intervenções e estudos que se efetuaram no local, ou mesmo do espólio aí recolhido e analisado por diferentes entidades universitárias e investigadores, destacando o papel preponderante do Prof. Doutor Brochado de Almeida, o principal responsável pela investigação que até hoje se fez no local.   

O que se pretende fazer no local caso seja concedida a classificação?

É já um desejo antigo a criação de um núcleo interpretativo para o Forte de Lovelhe e a estação arqueológica; no entanto, esta vontade não se pode sobrepor à necessidade de preservação. É neste contexto que se pretende revitalizar um dos espaços já existentes na envolvente para a concretização do núcleo. Este espaço terá, principalmente, um cariz expositivo, que permitirá ao público ter um contacto próximo com o espólio recolhido. Paralelamente, pretende-se criar um conjunto de materiais e estruturas de apoio que permitam a leitura e interpretação dos vestígios encontrados.

Há algum episódio marcante na história deste Forte?

Sim. O papel que desempenhou durante a segunda invasão francesa, em 1809, quando Soult tentou passar o rio Minho com as suas tropas, mas deparou-se com uma forte resistência da companhia de infantaria que, em conjunto com as defesas da vila, impediu a entrada do exército francês em território de nacional.

Só para exemplificar, o parapeito do Forte de Lovelhe foi reparado pelos menos quatro vezes, tantas quantas foram as guerras registadas nesta fronteira, entre o século XVII e XIX; nomeadamente a Guerra da Restauração, a Guerra da Sucessão de Espanha, a Guerra do Pacto de Família, e a Guerra Peninsular.

História do Forte e da Estação Arqueológica

O Forte de Lovelhe e a Estação Arqueológica de Lovelhe localizam-se no lugar da Breia, na União de Freguesias de Vila Nova de Cerveira e Lovelhe. É formado por um amplo conjunto patrimonial que inclui a Fortaleza, mas também um vasto conjunto de ruínas arqueológicas, a Estação Arqueológica.

Ocupam todo o cabeço localizado na margem sul do Rio Minho e os terrenos que se estendem até às margens do rio, tendo, assim, assumido uma posição estratégica com a envolvente. No local foram efectuadas escavações arqueológicas, (no âmbito da abertura da estrada de acesso ao Inatel), sob a orientação de Carlos Brochado de Almeida.

Segundo a documentação existente (no processo de classificação da autoria deste investigador), na área que se encontra homologada para classificação, foram referenciados vestígios provenientes das seguintes ocupações: forte setecentista; igreja medieval; villa romana; habitat da idade do ferro.

A villa romana foi construída sobre o povoado pertencente à Cultura Castreja, o qual seria um castro, tipo agrícola, construído no decurso do século I a.C.

Na escolha do local terá pesado, mais do que a fertilidade dos terrenos circunvizinhos, a óptima posição a partir da qual poderia dominar e controlar a navegação e o comércio pelo rio através dele. O pequeno castro, instalado em patamares, ocupou a totalidade do monte, formando pequenos núcleos habitacionais, sendo delimitado, pelo menos, por um fosso, identificado aquando da construção da rotunda de acesso à ponte internacional, e parcialmente localizado sob o cemitério de Lovelhe.

O advento da romanização e a estreita ligação do povoado com o rio, colocou-o numa linha privilegiada para o desenvolvimento das trocas comerciais. Terá sido, muito provavelmente, desta forma, que se deu a introdução de materiais exógenos, em que a ânfora apresenta um papel de destaque. O castro acabaria por, na sua maioria, ser abandonado, sendo reforçada a ocupação na vertente voltada ao rio, também ela em patamares, mas com uma morfologia de ocupação diversa.

Reformulada diversas vezes, atingiria o seu apogeu no século IV d.C. Por volta do século VI, sobre os escombros da vila romana foi construída uma outra, de grandes dimensões, e que perdurou até às invasões árabes.

O Forte de Lovelhe ocupa a parte superior do monte e a sua construção contextualizou-se no âmbito das guerras da restauração. Conjuntamente com a Fortaleza da vila e com a Atalaia, formavam o triângulo defensivo desta parte do Minho e tinham como objetivo dissuadir e impedir qualquer tentativa de travessia do rio Minho.

Foi construído na sua totalidade seguindo os princípios da técnica abaluartada, Vauban, que apresenta uma forma pentagonal marcada por 5 baluartes e respetivas guaridas. Um dos baluartes localiza-se numa das zonas mais sensíveis da fortaleza, o qual defende o caminho de acesso à porta de entrada. Os restantes 4, de formato irregular, podem-se agrupar em dois grupos; vertente este e vertente oeste. Estes últimos, de menores dimensões, visam permitir o remate da cortina e favorecer o tiro flanqueado. Os primeiros, situam-se nos lados voltados para o rio, favorecendo um ângulo de tiro mais aberto e, por consequente, um maior controlo sobre o rio. Os paramentos a Norte e Este apresentam uma forma semicircular, o que é incomum nas fortificações abaluartadas, devendo-se à morfologia do terreno onde está implantado.

Faz parte deste sistema fortificado o fosso, definido pela escarpa, que sustenta os paramentos pétreos e a contraescarpa, definida a partir de uma segunda linha de muralha, desta vez, totalmente em torrão. Esta, do lado exterior, cria uma esplanada mais ou menos alongada, regularizando a topografia original do monte e eliminando pontos de refúgio. A eficácia da fortificação era garantida por três  rampas de acesso aos terraplenos, as quais partem de uma praça de armas central, rebaixada, o que resguardava do fogo direto.

Por fim, são ainda visíveis elementos destinados à proteção da guarnição. Desde logo, coroa os muros, um parapeito de atiradores totalmente em torrão, intercalado por aberturas canhoeiras. Ao longo da muralha em terra vislumbra-se, ainda, um caminho coberto que assegurava a defesa avançada do forte. No interior da praça de armas, um conjunto de 4 edificações de que hoje apenas existem indícios, providenciavam o aquartelamento, o paiol e, muito provavelmente, uma pequena capela.    

A fortificação foi construída e preparada para resistir às tentativas de união ibérica, preconizada pela dinastia filipina, mas acabaria por prestar outros relevantes serviços ao país nas guerras que se seguiram – Guerra de Sucessão de Espanha; Guerra do Pacto de Família; Guerra Peninsular.

Se no decurso das Guerras de Restauração a sua presença foi determinante na dissuasão invasora por parte das hostes filipinas, nesta última, a sua ação foi tanto mais relevante porque impediu as tropas francesas, sob o comando de Soult, de efetuar a pretendida travessia do Rio Minho, no dia 13 de fevereiro de 1809.

Entre 1797 e 1801, o Forte teria sido reconstruído pelo capitão de engenharia José Joaquim de Naussane de Sousa Lira. Estas obras terão colocado a fortificação em estado de defender a Fronteira do Minho, em 1809. Mas terminaria aqui o seu uso militar em contexto de guerra, até porque o exército francês, após a sua entrada por Chaves, retornaria a estas paragens e, entre outras ações, incendiaria o forte.

A partir de 1820 terá servido para aquartelamento de veteranos, e em 1857, por altura do surto de febre-amarela, terá servido de arquivo histórico militar.

Em 1868 foi definitivamente abandonado em termos militares, devido ao desmantelamento da Praça de Cerveira. Manteve-se, no entanto, na posse da administração militar e os terrenos mais baixos, a Norte, foram integrados na quinta do Forte, que atualmente é, também, propriedade estatal. //

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