FOZ DO MINHO, UM SONHO DOIRADO

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Na reta final de 2015, somos confrontados com uma excelente notícia: os municípios de Caminha e A Guarda (Galiza) vão apresentar uma candidatura conjunta à UNESCO para classificar a Paisagem do Estuário do Minho e zona envolvente como Património da Humanidade.

Torna-se, por isso, necessário atestar “a excecionalidade da área” em causa. O estatuto de património do mundo implica responsabilidades acrescidas, na promoção de políticas de desenvolvimento “sustentável”, capazes de respeitar os vários tipos de património e atividades de caráter artesanal, como a pesca.

Conforme se recordarão, no passado mês de junho, escrevi aqui uma crónica intitulada “O olhar cativo pela paisagem”, justamente sobre este cenário, em que defendia que se tornasse património mundial. O projeto está em curso e vai ser preparado durante o próximo ano de 2016.

Para lá do imponente e misterioso monte de Santa Tecla, amiúde coberto de brumas, o estuário do rio Minho é muito mais vasto e complexo. Há o abraço da terra e do mar, na foz, já depois dos juncais; há o Atlântico e o forte da ínsua, a humanizar o recorte da costa.

Do lado de cá do curso de água, as freguesias, mormente as mais altas – Argela, Dem, Argas, Vilarelho – são o miradouro perfeito para se observar o prodígio da natureza, antes de mais; mas também o labor das gentes, de sucessivas gerações que souberam cuidar das suas terras.

Casas típicas, em xisto, caminhos estreitos de traço rural, calcetados, fontes e largos, remetem para uma ambiência ancestral, cuja feição ainda perdura em algumas localidades, sobretudo naquelas que estão mais bem preservadas em termos patrimoniais e ambientais.

Uma candidatura feita nestes moldes implica um olhar abrangente e transversal, que congregue conhecimentos de áreas como a arqueologia, para perceber os povos primevos que habitaram esta zona; a arquivística (fazer o levantamento dos registos escritos e/ou audiovisuais que existem sobre este território, e não apenas do rio que o une); a antropologia; a história e, claro, a literatura.

É um desafio motivador e mobilizador, em busca de uma identidade comum, que deve envolver as populações irmãs de ambas as margens, desde as escolas às demais instituições, passando pelos idosos, que são os detentores do repositório da memória oral.

Termino com Raúl Brandão, em “Os Pescadores”. O autor passou por Caminha, em 12 de agosto de 1921, e deixou-se impressionar: “Caminha esta manhã é um sonho doirado – que tenho medo – se vai esvair na atmosfera. O rio azul, o grande monte fronteiriço, a água, o céu, não tem existência real. Sobre o esplêndido panorama diáfano e azul, sobre o cone imenso e compacto de Santa Tecla, sobre a Povoação de Campozando, sobre os pinheirais verdes e os campos verdes, sobre a água que não bole, passou agora mesmo um pincel molhado em tinta acabada de fazer.”

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