Futebol Alto-Minhoto:: A REBOQUE

0
Futebol Alto-Minhoto:: A REBOQUE
© João_Pedro_Rocha

Nos últimos anos, temos vindo a assistir a um claro decréscimo de capacidade das equipas do distrito de Viana do Castelo em competirem nos campeonatos nacionais seniores. Na época 2015-2016, a Associação de Futebol de Viana, tinha três representantes garantidos: Limianos, Neves e Vianense. Na época seguinte, descem de escalão Neves e Vianense. Junta-se ao Limianos o A.D. Ponte de Barca. Na época 2017-2018, a AFVC fica reduzida a um único representante que, por obrigatoriedade regulamentar, tem sempre de ascender dos campeonatos distritais para os nacionais. De lá para cá nada se alterou. O “nosso” futebol não tem demonstrado capacidade para se afirmar no campeonato mais representativo da Federação Portuguesa de Futebol.

Que ilações poderemos retirar destes dados objetivos? Será que clubes como Vianense, Limianos, Atlético dos Arcos, Desportivo de Cerveira, Neves, A.D. Ponte da Barca, Valenciano não têm capacidade para disputar e serem competitivos em campeonatos nacionais?! Será que a diferença qualitativa do campeonato regional de Viana do Castelo e os campeonatos regionais dos nossos vizinhos Porto e Braga é assim tão acentuada?! Será falta de qualidade dos jogadores? Falta de qualidade dos treinadores? Falta de capacidade e de estrutura dos clubes? Falta de capacidade organizativa da Associação de Futebol de Viana? 

Se fizermos uma análise superficial aos campeonatos regionais da Associação de Futebol do Porto e de Braga rapidamente percebemos que tem características e condições muito diferentes do campeonato regional de Viana. A dimensão das cidades, o maior número de habitantes, maior poder económico, mais indústria, são fatores económico-sociais de grande relevância e que permitem que os clubes tenham outro tipo de apoio que na nossa associação não existe. 

Para além disso, e este parece-me ser o factor decisivo, estas duas associações têm clubes de grande e média dimensão a competir ao mais alto nível, nacional e internacional. Ter clubes como Futebol Clube do Porto, Boavista, Braga ou Guimarães, entre outros, como membros, quer se queira quer não, fortalece institucionalmente qualquer associação, garantindo um maior grau de importância e poder de decisão dentro dos órgãos federativos.  

A nível desportivo e competitivo a diferença também é notória. Competem hoje na chamada “Divisão de Elite” da Associação de Futebol do Porto clubes históricos como Salgueiros, Tirsense, Freamunde, Marco, Maia, todos eles habituados a campeonatos profissionais. Depois, um sem número de equipas que militaram quase sempre em campeonatos nacionais, antiga 2ª e 3ª divisão, como o Infesta, Lousada e Lixa no Porto e Ribeirão, Esposende, ou Vilaverdense em Braga, entre muitos outros, já com uma grande bagagem, que deriva de anos a fio a competir a bom nível. Clubes que ao longo dos anos souberam desenvolver-se também a nível de infraestruturas, onde predominam os campos de relva sintética e natural, bancadas com um nível bastante aceitável, a nível de organização também souberam, na sua maioria, dar um passo em frente em relação à gestão desportiva do passado. 

Arriscaria dizer que 35 a 45% das equipas que militam nas divisões que dão acesso ao campeonato de Portugal destas associações, reúnem capacidades para subir de divisão e poderem ser competitivas, pese embora, com alguns acertos de constituição de plantel e de organização. 

Não será à toa que, por exemplo a serie A do campeonato de Portugal seja constituído por 8 equipas da Associação de Braga, quase todas elas em posição confortável na tabela classificativa, 2 equipas da Associação de Vila real e mais 2 duas da Associação de Bragança. Juntam-se a estas, esta época, 3 equipas da Madeira, onde se destaca, um ex. primodivisionário, União da Madeira, 1 equipa da Associação do Porto (a maioria das equipas desta associação estão na serie B) e um único representante da Associação de Viana, o Clube Desportivo de Cerveira. 

O que poderá fazer a Associação de Viana para poder aproximar-se qualitativamente e quantitativamente destas “super-associações”? Serão os factores acima mencionados motivos dissuasores ou motivadores para se trabalhar com qualidade? Porque não começar do 0? Porque não reformular, de uma vez por todas os campeonatos mais jovens, onde época após época, o número de equipas inscritas desce consideravelmente, como por exemplo, o campeonato de sub-19. O ano passado competiam 17 equipas e esta época já só competem 14. Esta reformulação não deverá ser feita em função daquilo que outras associações já fizeram. Este é, do meu ponto de vista, um erro crasso cometido sistematicamente por esta associação. Andar sempre “a reboque” das opções que outros já fizeram anteriormente. Seria mais inteligente fazer uma reformulação com base nas características dos nossos clubes e na atual capacidade de evolução. Mudar todas as épocas de formato competitivo, por si só, baralha e atrapalha a programação e estruturação dos clubes, que, já por si, têm muitas dificuldades nesse aspeto. 

Qual a interação da Associação de Viana com o desporto escolar? De que forma se fomenta a prática do desporto, neste caso concreto, o futebol, e qual a ligação com os clubes? Estará a fomentar-se a prática desportiva ao ar livre, à semelhança de países como a Holanda, Alemanha e Espanha, que já o fazem há décadas, em condições de segurança e em bons recintos. 

As associações não deveriam servir unicamente para pagar as inscrições, multas ou o quer que seja. Dou um exemplo muito concreto de uma situação que eu tenho conhecimento e só acontece na Associação de Viana. Um clube inscreve um jogador, será a primeira inscrição da época, se por acaso esse mesmo jogador quiser sair desse clube posteriormente, o clube que o receber terá de pagar novamente a inscrição na Associação! Ou seja, dois clubes pagam duas vezes inscrição do mesmo jogador! Isso para não falar de todos os problemas burocráticos ainda existentes. 

Não seria mais benéfico ter uma associação que sirva os clubes do que ter uma que se serve dos clubes?

Ao nível dos campeonatos distritais seniores, de que forma é promovido este campeonato? É um produto como outro qualquer, deveria ser promovido e publicitado de forma mais profissional, fomentando e divulgando jogos, jogadores e atletas ou qualquer referência de interesse. Não me parece que esteja a ser conseguido e pior ainda não me parece que haja essa preocupação.  

Umas das decisões que surge após outra Associação (Braga) o ter feito, foi a de decretar o fim dos campos de terra batida nas duas divisões distritais. Não foi feito o estudo necessário e vendo que corriam um sério risco de fechar as portas a uma boa parte dos clubes da associação, recuaram na decisão. Só a primeira divisão tem obrigatoriedade de ter campos em relva natural ou sintética. Muito boa medida. Poderia agora passar-se para a fase seguinte. Balneários condignos para atletas e bancadas dignas para os espectadores poderem assistir aos jogos de futebol. Qual a ligação e interação da associação com a autarquia local? Qual a pressão existente deste organismo para com a autarquia no sentido de haver mais ajudas nas infraestruturas dos clubes, sejam elas camarárias ou particulares? 

Entendam este artigo de opinião como uma mera critica construtiva e opinativa no sentido de dar ao futebol vianense o reconhecimento que ele poderia ter se houvesse vontade de mudar e acompanhar aquilo que outras associações por esse país fora vão fazendo. Se assim não for, temo infelizmente pelo destino do futebol alto-minhoto e dos seus clubes.

Artigo de Paulo Gomes

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here