Gonçalo M. Tavares :: A inteligência inquinada e os partidos

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Essa questão dos partidos vicia a inteligência! –  reconhece Gonçalo M. Tavares. Dificilmente poderia ser mais claro, referindo-se às tomadas de posição política. Ressalvou, porém, que os “partidos são importantes para a democracia”. Aconteceu durante a edição deste ano do REALIZAR:poesia, em Paredes de Coura.

O poeta e romancista português, nascido em Luanda há 47 anos e que viveu entre os três e os 18 anos, em Aveiro, é um dos mais galardoados escritores de língua portuguesa. Uma das suas obras, “Jerusalém”, foi incluído na edição europeia de “1001 livros para ler antes de morrer – um guia cronológico dos mais importantes romances de todos os tempos”.

Os seus livros deram origem a peças de teatro, objectos artísticos, vídeos de arte, ópera, etc.. Existem perto de 220 traduções da sua obra é distribuída em 45 países.

“Quando se reduz a política a partidos e uma pessoa a parte de uma posição partidária, de algum modo está logo constrangida no seu pensamento e raciocínio. Não vai pensar de uma forma completamente livre….” – referiria à VALE MAIS, a propósito daquela afirmação.

INQUINADA… PORQUE LIMITA

Sem falsas presunções, mas com a convicção de quem reflete e pensa no que diz, Gonçalo M. Tavares não deixa de concordar que a inteligência acaba por ficar inquinada.

“Porque limita… claro que a politica não é uma guerra, mas imagine dois exércitos em confronto. Não faz sentido eu (ao integrar um) dar razão ao outro exército. Numa guerra não se trata de argumentar. Quando há um conflito claro entre duas posições, muitas vezes as pessoas, precisamente porque sentem que estão numa das partes de um dos exércitos, nunca ouvem o outro pensando e que ele pode ter razão. O outro é sempre o outro lado” – explica.

Gonçalo M. Tavares observa, mesmo, que, em termos gerais, quando um escritor toma uma posição política, a sua obra perde força.

“Há muitos casos, na literatura, de pessoas que escreveram livros, nomeadamente romances, a tomar uma posição política, e o que se percebeu é que, mais tarde, a obra não era suficientemente forte. Porque são dois mundos completamente diferentes. Quando eu quero assumir uma posição politica e quando eu quero fazer uma obra de arte! É raro, mas há exceções, felizmente… mas á raro fazer-se uma obra de arte utilizando posições politicas. São dois tipos de pensamento diferente” – garante.

ARMADILHAS DA LINGUAGEM

O escritor alertou, também, para as armadilhas da linguagem e a importância de as compreender.

“Há muita gente que não percebe nada sobre linguagem. Hoje, quando vou no carro e de repente mudo para uma emissora de uma igreja muito partícular.. o que me assusta é que ouço aquela argumentação, do género de alguém que veio, estava muito doente, na quarta-feira entrou na igreja, 15 dias depois teve um emprego, hoje tem muito dinheiro… estamos em 2018… como é que alguém é enganado por estas palavras?!

Assusta-me ser enganado por um por aquela ‘coisa mais básica’.. .ainda se  está na fase de alguém achar que, se digo que vou lavrar o campo, este fica lavrado.”

Sublinha mesmo: “Há uma espécie de devoção ao associarmos a palavra escrita a uma espécie de verdade. Vem desde o livro religioso até à lei e, como os textos individuais se multiplicaram, não temos a noção de que toda a gente hoje produz texto. Ainda temos uma espécie de crença antiga, quase antropológica, de que a escrita é de lei e somos uns crentes ingénuos na linguagem”.

Sublinhando: “Um dos aspetos é pensar que a linguagem faz coisas. Um exemplo: estamos numa igreja, diante de um padre, este pergunta se você casa com a Maria e, quando dizemos sim, esta palavra faz coisas, muda. O mesmo quando assinamos um papel. Há alguns pormenores da linguagem, quer escrita, quer falada, que realmente representam fazer coisas.”

Todavia, “a maior parte da linguagem é uma discussão que tem a ver, na política e na democracia, com o decidir, argumentar com o melhor a fazer. Se o melhor a fazer é lavrar este ou aquele campo. Discutimos e chegamos à conclusão que o melhor é aquele. A questão da linguagem é fundamental para argumentarmos, contra-argumentarmos e chegarmos a uma decisão de maioria e decidimos o que vamos fazer. Portanto, tem a ver com o fazer.”

Garante: “A política instalou-se na linguagem… quando a politica, no limite, seria feita por mudos… como a sueca que é jogada por mudos.. devia ser jogada, ninguém falar. No limite, a boa politica não precisa de linguagem. A linguagem aparece quando há o outro.”

TWEET E SMS NÃO EXPRIMEM PENSAMENTO

Um slogan, um tweet ou uma sms não são um pensamento. “É engraçado pensar nalgumas lógicas de internet. É impressionante. Uma pessoa assumir que está a falar de linguagem na questão das sms. Estes são uma funcionalidade. A linguagem tem a ver com o pensamento, com a imaginação, com a criatividade e Gosto/ Não Gosto não é um pensamento.”

Perentório: “Dizer que isto é bom ou ótimo não é um pensamento. De alguma maneira, pessoas como nós, bem formados, no sentido de curiosos, todos nós podemos entrar, sem perceber, no mundo do Gosto/Não Gosto. Ou seja, é como ter várias imagens e… Gosto ou Não Gosto”. Reduzir o ser humano ao “Gosto/Não Gosto” é “como uma criança a falar”.

Então o que é o pensamento? “Passa uma imagem, eu paro. O que é isto? O que isso significa? De onde é que isto vem? Quem é que fez isso? O que é isso? É uma imagem.” “Não temos essa noção, mas grandes pintores… o Miguel Ângelo fazia viagens de três meses pela Europa  para pintar um quadro…“.  Hoje, se calhar, damos 30 segundos a cada quadro (aparte).

A propósito, o escritor não deixa de fazer uma observação: “Hoje, se estivemos na internet, numa hora temos mais imagens do que, na Idade Média, um ser humano em toda a vida.  Aliás, havia pessoas que,  por exemplo, nos séc  XV ou  XVI,  não viam nenhuma imagem, nenhuma representação, nenhuma pintura… hoje, numa hora, podemos ver centenas de imagens. Portanto, cada imagem vai perdendo a sua força. E requer um esforço.”

“Ser verdadeiramente culto no séc 21 é mais difícil que em séculos passados; é muito mais difícil pensar no séc 21 que no séc 20” – rematou. //

REALIZAR:Poesia – EVENTO DE MÚLTIPLAS LINGUAGENS

Promovido pelo Município de Paredes de Coura, o REALIZAR:poesia procura estabelecer afinidades entre a poesia e as demais atitudes artísticas – literatura, música, cinema, artes performativas e também aquelas de menos evidente convergência como a política, ciência, filosofia, etc. Com direção artística de Isaque Ferreira, esta 3ª edição (pelo 3º ano consecutivo) voltou a decorrer em vários espaços do território courense.

Constituiu-se como uma reunião de eventos de múltiplas linguagens e origens, em que as leituras, as conversas, as conferências, os lançamentos de livros, as performances, a exibição de filmes, os concertos e as intervenções dedicadas às crianças e jovens se reencontram na esfera da sua essencial afinidade: “a poética, no seu sentido mais vasto”, porque “para lá da materialidade da linguagem, há uma metalinguagem do imaginário.”

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