Inseticidas em viticultura – Traça da uva

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foto // Ribeiro, JR

Em viticultura, chegados a esta altura do ano, as dúvidas em relação aos tratamentos inseticidas voltam a surgir na mente dos agricultores e não só. A praga principal que ataca as videiras na nossa região é a traça da uva (Lobesia botrana) que tem três gerações anuais.

A decisão de tratar, ou não, tratar depende das observações visuais que qualquer agricultor pode fazer nas suas parcelas. É muito simples. Basta percorrer a vinha e, aleatoriamente, escolher 100 cachos (dois por videira) e verificar a existência, ou não, de ninhos de traça.

Na primeira geração, que ocorre geralmente antes da floração, o tratamento deve ser feito se forem observados mais de 100 ninhos nesses 100 cachos (foto 1). Só assim se justifica tratar e a verdade é que não é muito vulgar atingir-se este valor que se denomina nível económico de ataque (NEA).

Lagarta de Traça dos cachos (foto // Ribeiro;JR)
foto 1

Na segunda geração da traça, que geralmente ocorre depois da floração, com a vinha na fase de “bago de ervilha”, a observação é feita da mesma maneira mas desta vez, devemos estar atentos às perfurações feitas pelas lagartas nos bagos. Neste caso, basta que haja 10% de cachos atacados (NEA) para que se justifique tratar. Nesta fase, que geralmente acontece em fins de junho ou início de julho este NEA é atingido quase sempre.

A terceira geração da traça acontece geralmente entre o pintor e maturação e o NEA é o mesmo que para a segunda geração, ou seja, 10% de cachos com perfurações.

Os tratamentos que se possam fazer nessa altura (agosto/setembro) estão sempre dependentes do intervalo de segurança dos produtos. Visto ser uma altura já muito próxima da vindima, nem sempre é possível realizar o tratamento. Assim sendo, podemos dizer que o tratamento mais provável de realizar será o da segunda geração, geralmente no início de julho. É muito importante que os agricultores tenham consciência que quando lidamos com inseticidas apenas devemos tratar se realmente se justificar.

E isto não é apenas uma sugestão. Na verdade, a partir de janeiro de 2014 TODOS os viticultores passaram a estar em MODO DE PRODUÇÃO INTEGRADA (PI) (lei nº 26/2013 de 11 de abril).

Quer isto dizer que há regras que tem OBRIGATORIAMENTE de ser cumpridas. Noutros artigos explicarei com mais pormenor as regras de Produção Integrada. Por agora, apenas chamo a atenção para alguns excessos que, eventualmente, se possam cometer com os inseticidas.

É impossível tomar uma boa decisão de tratar as pragas sem visitar a vinha e portanto, é ao agricultor que cabe a responsabilidade da decisão. Na verdade, uma das regras da PI diz também que devemos sempre escolher o inseticida MENOS TÓXICO para o ambiente e para os organismos auxiliares. Para que se entenda melhor o que está em causa basta pensar na quantidade de novas pragas que tem aparecido, de uma forma eventual para já, é certo, mas que mais não é do que uma consequência direta do uso descuidado ou indiscriminado, ou até exagerado de inseticidas de largo espetro, baratos, e que na maior parte das vezes (se não todas) causam a médio/longo prazo mais dano do que benefício.

É bem verdade que o efeito imediato é de destruição das pragas. O problema está no resto de organismos que também são dizimados, ou ainda os eventuais fenómenos de resistência nas próprias pragas (deixam de fazer efeito devido a aplicação de doses excessivas).

Há também várias coisas que podemos fazer para nos ajudar a identificar os períodos de risco. A utilização de armadilhas (foto 2) para monitorizar as pragas é uma forma bastante eficaz. Já agora, é importante referir que as armadilhas que existem e que qualquer agricultor pode colocar nas suas vinhas depois do abrolhamento servem para monitorizar a curva de voo da traça. Ou seja, através das contagens de adultos capturados semanalmente podemos saber se estamos no início, no pico ou no fim de cada uma das três gerações. Estas capturas apenas nos dão indicação dos períodos de risco. É importante que o agricultor saiba como tomar a decisão. Diminui assim a sua dependência das opiniões que podem não ser as mais corretas.

foto // Ribeiro, JR
foto 2

Cada caso é um caso. Cada vinha deve ser monitorizada individualmente. Um agricultor bem informado só faz os tratamentos necessários, com os produtos necessários.

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