Ismenia Mendes:: De Monção para os grandes teatros de New York

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© Zack Dezon

Quisemos conhecer melhor esta atriz, apaixonada por Shakespeare, que se formou na prestigiante The Juilliard School, em New York, instituição que foi considerada pela QS Universty Rankings como a melhor do mundo na área de artes performáticas em 2016. Feminista feroz, acredita, de forma inabalável no direito e domínio das mulheres sobre o seu próprio corpo e considera, um absurdo, as mulheres serem mais mal pagas que os homens nos mesmos trabalhos e que tenham de trabalhar o dobro para isso.

Viveu em Monção, de onde a família é originária, até aos três anos, altura em que os seus pais decidiram emigrar para os Estados Unidos da América, pelo que sabe, por influencia da mãe, que adora mudanças e que, juntamente com o pai, viu um futuro nos EUA.

Ismenia Mendes:: De Monção para os grandes teatros de New York

A ligação a Monção

Tens memórias da tua infância em Monção?

Não tenho memórias desse tempo mas os meus pais contaram-me muitas histórias. Sobre como eu era obcecada pelo meu avô materno. Ia buscar-lhe os chinelos, não deixava mais ninguém trocar-me a fralda, queria estar sempre sentada ao lado dele. No entanto, tenho algumas vagas memórias sobre estar fascinada com a dança tradicional local – o Rancho.

Estiveste cá recentemente?

Sim! Estive em Monção em Agosto. Fui apresentar o meu namorado, Christian, à minha família, e mostrar-lhe de onde sou. Diverti-me imenso a mostrar-lhe todos os meus sítios preferidos! Adoro visitar as Muralhas de Valença e Monção, adoro ir à praia e visitar algumas igrejas antigas e locais históricos. Vou muito à Pastelaria Chave D’ouro e dou muitos passeios. Também faço questão de passar algum tempo em Lisboa e de comer imenso peixe!

Portugal é um país antigo e muito bonito. Nunca há tempo suficiente para passear e visitar tudo o que queria. Mas, principalmente, gosto de passar o máximo de tempo que posso com a minha família.

Portanto, continuas ligada a Monção?

Sim! É a minha segunda casa! Grande parte da minha família vive em Monção, é o sitio onde passei a maioria dos meus verões quando era criança, onde fiz a minha primeira comunhão e onde os meus pais renovaram os seus votos.

Como vês Monção e Portugal desde os EUA?

São a minha casa longe de casa. Penso neles com muita saudade. As minhas raízes estão aí a minha família está aí e, de muitas formas, o meu coração está aí.

Tens contacto diário com a tua família?

O contacto é maioritariamente pelas redes sociais. Com a diferença horária e com o trabalho, por vezes é complicado mas faço o meu melhor para estar em contacto sempre que posso. E geralmente consigo fazer uma visita uma vez por ano.

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A ida para os estados unidos da america

Como foi a mudança para os EUA?

Fomos para Newark, em New Jersey, onde já existia uma grande comunidade de emigrantes portugueses que nos recebeu muito bem, e foi aí que passei grande parte da sua infância e onde comecei por frequentar um escola católica, onde fui vítima de muito bulling.

Como viveste essa situação?

Obrigou-me a mudar de escola, mas deu-me por outra lado, um grande gosto pelos livros, que acabaram por funcionar como um escape, para mim.

Por isso, desde muito nova sempre tive um grande gosto por contar histórias. Quando tinha 12 ou 13 anos mudamo-nos para Summit, New Jersey, um subúrbio com uma escola pública e que tinha um excelente projeto de teatro. Foi aí que me apaixonei pelo teatro, e onde fiz as minhas primeiras audições e representações. Também foi onde descobri que tinha medo do palco, medo esse que combati e ultrapassei e decidi que queria ser atriz.

Foi aí que decidiste que querias estudar na ‘Julliard’?

Sim. Fiz audições para a Julliard no meu último ano de escola secundária. Foi um processo longo e exaustivo e entrar naquela escola foi a oportunidade de uma vida. Tive imensa sorte. Não só, de ser aceite nessa excelente escola, mas também, de estar certa da minha vocação aos 18 anos.

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Como foi estudar na ‘Julliard’?

O programa de atores da Julliards é um projeto de quatro anos. É intenso e exaustivo. Começamos todas as manhãs com uma aula de movimento às 9h00 e o dia termina, às 23h00, com um ensaio para qualquer que seja o projeto em que estamos a trabalhar. Apenas temos um dia livre por semana. Os dias são preenchidos com aulas de atuação, aulas de voz, aulas de palhaço, aulas de máscaras, aulas de Shakespeare e muitas mais. Aquela escola testou tudo em mim – e deu-me muita da minha ética e perseverança no trabalho. Foi lá que também encontrei alguns dos meus amigos mais queridos, a família que escolhi. Foi um momento muito profundo e importante da minha vida.

Vida de atriz

Como é a vida de atriz?

A vida diária de um ator significa experienciar muita rejeição. É esquisito. É suposto seres ensinada, o suficiente, para aceitar mais rejeição, numa semana, do que uma pessoa normal aceita num ano e, ao mesmo tempo, a ser incrivelmente vulnerável e sensível no teu trabalho. Pode causar dano e, às vezes, causa. Há altos e baixos, como uma montanha russa. É por isso que, ter relações sentimentais e amar-te a ti mesmo é tão, imensamente, importante. Sem isso, é muito fácil perderes-te no meio do caos. Estou muito grata por ter sido abençoada com magníficos familiares e amigos. Eles são a minha âncora.

Como surgiu o primeiro trabalho?

O meu primeiro trabalho como atriz foi representar a Princess Katherine and the Boy em Shakespeare’s Henry V. Foi algo muito importante para mim. Quando saí da Julliard estava um pouco traumatizada com Shakespeare e este foi um passo muito importante para curar algumas dessas inseguranças e medos.

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E que outros, fizeste?

Muito Shakespeare. É a minha paixão. Estas peças e personagens é onde está o meu coração. É nelas que encontro os meus maiores desafios e as vitórias mais eufóricas. Nunca fico aborrecida quando faço algo de Shakespeare. Estas peças nunca deixam de me surpreender. Depois, também faço bastantes peças novas, em Nova York. É muito aliciante fazer parte da criação de uma obra de arte e isso pode ser, incrivelmente, compensador.

Qual foi o mais importante?

Até a este momento, na minha carreira, considero que fazer o papel de Cressida, em Shakespeare’s Troilus e Cressida at the Delacorte, no Central Park foram os trabalhos mais importantes que já tive. Este último foi o papel mais importante que desempenhei até ao momento e o Delacorte é o sitio mais impressionante onde se possa trabalhar.

Tens alguma situação caricata para nos contar?

Quando estava a acabar a formação na Julliard, tive uma reunião com um agente de Los Angeles, onde ele me disse que era “mais ‘bonitinha’ em New York do que em Los Angeles”. Esta área está repleta de misoginia e de uma superficialidade muito violenta, por isso, apenas tento manter-me à margem de tudo isso e amar-me a mim mesma. De facto, amar-te a ti mesmo é das coisas mais rebeldes que podes fazer no mundo do espetáculo.

Em televisão participas em Orange is the New Black e High Maintenance

Sim! Atualmente também estou a gravar uma personagem residente na última temporada do Orange is the New Black, que irá para o ar no Netflix no próximo ano.

High Maintenance é um espetáculo formidável na HBO e onde desempenho o papel de Anja Jacobs. Ela é uma “millennial” que luta para se encontrar a ela mesma e estabelecer relações com pessoas que não pertençam à sua adição, pelos meios de comunicação sociais. Foi muito engraçado de filmar.

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America do presidente trump

Como é viver na América de Trump?

É um recordar diário do lado mais negro, ignorante, racista e de misoginia da América. É um recordar diário, e em cada respirar, do que tenho que demonstrar, como artista e cidadã, e daquilo contra o que tenho que lutar.

O que achas sobre o facto do Presidente do país ser acusado de tantos casos de machismo e assédio?

O Trump é a manifestação do que há de pior na América. Este é um monstro que a América criou. E agora cresceu e amadureceu e está a governar o país e nós temos de lidar com as consequências.

A América mostrou às mulheres e crianças que os seus corpos não têm importância. Que os homens podem abusar de nós e ser presidentes. Que os homens podem abusar de nós e ser presidentes do Supremo Tribunal de Justiça. Agora, temos que lidar com as consequências dessa mensagem. E eu, pelo menos, tenho uma profunda fúria que está pronta para lutar até ao dia que morrer.

És uma defensora do feminismo e dos direitos das mulheres?

Sim. Sou uma feminista feroz. Até aos ossos. E, às vezes, meto-me em confusões, por causa disso. Como quando tive de combater o ódio suado e bêbado de um homem, quando intercedi entre ele e uma mulher que ele estava a assediar no comboio. Ou como quando fui alvo de assédio, e esperei que outro homem intercedesse a meu favor. Eu acredito, de forma inabalável, no direito e domínio das mulheres sobre o seu próprio corpo. Acredito que é absurdo as mulheres serem mais mal pagas que os homens nos mesmos trabalhos e que tenham de trabalhar o dobro para isso. Acredito que todos nós, nos deveríamos sentar e debater no desconforto de olhar honestamente para os nossos privilégios. E devemos fazer, o que estiver ao nosso alcance, para moldar as nossas culturas para que possamos reflitam sobre o que de melhor somos capazes de fazer, e não o contrário.

Por outro lado, outra das grandes polémicas nessa área, são os numerosos casos de assédio sexual e moral que as atrizes sofreram? Já vivenciaste alguma situação?

Ser assediada é uma realidade aceite pelas mulheres. É simplesmente algo que nos acontece, a todas, o tempo inteiro. O negócio em que estou tem um problema de persuasão de homens que estão em posições de poder e tiram vantagem de jovens atrizes e outras mulheres vulneráveis. Mas não é um problema exclusivo à minha profissão.

Recentemente, estava a levar uma menina da escola para casa e fui “assobiada” na frente dela. Ela fez-me uma série de perguntas. Porque é que aqueles homens estavam a dizes aquelas coisas? Se os homens me fazem isso com muita frequência? Como me sentia com aquilo? E então, perguntou; “isso também me vai acontecer a mim?” Ela tem 9 anos.

Por outro lado, tenho sempre um “bastão” na minha bolsa. Não uso o meu cabelo com rabo-de-cavalo à noite, para não ser agarrada por trás. Uso as chaves entre os dedos e quando saio do metro vou logo para casa. Ser mulher significa temer sempre pela minha segurança.

Ismenia Mendes:: De Monção para os grandes teatros de New York

Consideras que esta situação ainda persiste?

Acho que o movimento #metoo trouxe alguma luz sobre o quão profundo é o assédio sexual. Acho que começou a discussão. Não acho que algo tenha mudado. Talvez, algum dia, mude. Mas isso vai depender de uma mudança de culturas para que criemos rapazes que respeitem as raparigas, que nos vejam como iguais, e que valorizem o nosso papel na sociedade. Neste momento a nossa cultura continua a vender as mulheres como objecto sexual, paga menos às mulheres, pelo mesmo trabalho, nega-nos direitos sobre o nosso próprio corpo, coloca a culpa do assédio sexual no cumprimento dos nossos decotes, diz-nos que a nossa beleza nos define, e poderia continuar, e continuar… Como podemos esperar que os homens respeitem as mulheres quando essas, são as lições que eles, e nós, aprendemos todos os dias?

Tirando essas situações que já falamos, como é viver em New York?

É espetacular. E cansativo. Mas a maioria das vezes dá-nos grandes lições sobre respeito, espertos da rua, e esperteza espacial. Eu amo New York! É uma cidade vibrante e diversificada, que nunca para de abrir a minha mente. Passo a maioria dos meus dias ou a trabalhar numa peça de teatro, num programa de televisão, num filme ou a fazer audições para isso.

E quais são os teus passatempos favoritos?

Quando não estou a atuar, geralmente pratico kickboxing, leio, ou devoro algum show com que esteja obcecada. Também adoro passar o tempo com os meus amigos e com as pessoas que gosto e ver todo o teatro que possa.

Estás a estudar algo de momento?

Tento sempre manter-me atualizada no meu ofício. Atualmente estou envolvida num magnífico workshop sobre Shakespeare, no qual passamos um tempo considerável a estudar os seus textos no que se referem a antigas deusas/deuses e outros arquétipos.

Tens algum projeto em mente?

Sim! Irei atuar numa peça nova chamada “Marys Seacole” no Lincoln Center, no ano novo e depois, fazer o papel de Lady Macbeth, na Primavera.

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