Jorge Mendes – “Oh Salgueiro! Como é que te meteste na política?”

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Jorge Mendes – “Oh Salgueiro! Como é que te meteste na política?”. Jorge Manuel Salgueiro Mendes. Nasceu na Sertã, distrito de Castelo Branco, em 1965. Foi para a capital do país em 1982 e daí saiu, casado, e com duas filhas (hoje com 22 e 24 anos), em 1998, para Valença, terra da esposa. Licenciado em Economia, foi professor, e é presidente da Câmara de Valença desde 2009. Antes, foi vereador eleito em 2001.

Recebeu a VALE MAIS no seu gabinete para uma conversa descontraída e, sem qualquer constrangimento, falou-nos, abertamente, da sua vida pública e privada.

EH PÁ, OH SALGUEIRO, COMO É QUE TE METESTE NA POLÍTICA?

Como é que um sertanense veio parar a Valença?

Nasci na Sertã em 1965, freguesia e concelho, onde vivi até aos 17 anos. Em 1982 e depois de completar o 11.º ano de escolaridade, e porque na Sertã, como na maioria dos concelhos do país, não havia 12.º ano (só nas capitais de distrito) tive de optar por ir para Tomar (que ficava a 50 km’s) ou para Lisboa. Acabei na capital onde tinha uma tia/madrinha que me acolheu em sua casa, e onde fiz o 12.º ano e depois a universidade. Entrei e licenciei-me em Economia, na Universidade Nova de Lisboa.

Terminado o curso comecei a trabalhar na área do petróleo, na Partex e também, como professor universitário. Esta situação discorreu até 1998.

Mas, no entretanto, num baile da universidade, conheci uma jovem de Valença, que estudava na área de Letras, e que hoje é a minha esposa. Em 1998, depois do nascimento da minha segunda filha, colocou-se a questão: ou ficamos em Lisboa ou íamos para a terra natal de um dos dois. Geralmente, nestas situações, as mulheres vencem sempre (risos) e então, nesse mesmo ano, viemos viver para Valença.

Sempre gostou de economia ou sonhava fazer outra coisa?

Achava que ia ser engenheiro. Tinha uma certa vocação para montar e desmontar coisas. Sempre tive essa destreza e sempre fui muito curioso. Por isso pensava que ia enveredar pela electrotecnia e electrónicas. Estudei numa escola industrial e, no 9.º ano, tinha de optar por seguir Saúde, Comercio ou Mecânica e Eletricidade. No dia da abertura das matriculas não fui de manha, só fui à tarde, e quando cheguei os meus colegas já se tinham inscrito em Electrotecnia e já não havia vagas. Resultado, fui para Mecanotecnia. Eu até gostava daquilo, mas havia uma parte da formação que era desenho de máquina, e dessa parte, não gostava nada. Então mudei para contabilidade. Perdeu-se um engenheiro e ganhou-se um economista-gestor.

E como foi a chegada a Valença?

Quando viemos para Valença, surgiu a possibilidade de leccionar numa Universidade do Porto mas, nessa altura, ainda estavam a concluir a autoestrada Valença-Porto pelo que era complicado fazer esse trajeto várias vezes à semana. Candidatei-me para leccionar à noite, o que acabou por acontecer, à noite e, mais tarde, também de dia, e mantive um outro trabalho que fazia em Lisboa que era de consultor.

E a política? Como entra na sua vida?

Foi por acaso. Foi em 2001 quando o Luís Campos Ferreira, foi candidato à Câmara de Valença e me convidou para ser o número 4 da lista. Eu não conhecia o Luís (Campos Ferreira) mas alguém recomendou o meu nome. Na altura foi um desafio mas assumi o lugar na oposição, até 2009. Depois, em 2005, na segunda candidatura do Campos Ferreira já fui o número dois, e em 2009 assumi a candidatura e a liderança do Município.

Até então, não havia nada. Até me posicionava mais à esquerda, porque muitos jovens ocupavam esses espaços mais reivindicativos, mas sempre longe de entrar na política. Cheguei a ser convidado várias vezes mas recusei sempre. E quando ganhei a Câmara, alguns amigos meus ligaram-me a dizer: eh pá, oh Salgueiro, como é que te meteste na política? (risos)

Mas foram as circunstâncias, nada disto foi premeditado. Até porque, quando me candidatei, não havia nada garantido. Havia uma sondagem que não nos dava em primeiro mas dava-nos muito próximos do PS. E como eles estavam longe de ter a vitória assegurada, nos fomos no ‘talvez’ e conseguimos.

Jorge Mendes - "Oh Salgueiro! Como é que te meteste na política?"

VITÓRIAS DESPORTIVAS E A ‘OLP’ METIDA AO BARULHO

Voltando à sua juventude na Sertã e em Lisboa. O que gostava de fazer?

Tenho muitas memórias da minha vida desportiva. Na universidade, fui várias vezes campeão de voleibol e andebol. O futebol também fez parte da minha vida, cheguei a jogar no Atlético da Tapadinha, que era o clube satélite do Sporting. Era defesa central mas não pagavam nada, a não ser o passe do autocarro, portanto acabei por desistir. Todavia, na universidade ainda fomos várias vezes campeões, até porque tínhamos uma bela equipa com malta que jogava no Guimarães, Portimonense, Benfica, Sporting, Chaves, entre outros, mas que devido à universidade acabavam por abandonar a bola. Sempre tive uma grande conexão com o desporto. No voleibol também fui federado, em Lisboa.

Antes disso, na Sertã, tinha um grupo de amigos que eram um pouco reguilas mas sempre educados. Eu como era bom aluno apesar de fazer algumas patifarias, elas passavam ao lado. 

Lembro-me de um torneio de Voleibol, estes que se faziam no verão, e onde criamos uma equipa que era a OLP, Organização de Libertação do Putos. (risos)

Quem organizava o torneio era a Câmara e ninguém reparou no nome OLP. Quando chegamos ao pavilhão e os nossos amigos começam a cantar OLP, OLP, aqui gerou um sururu enorme claro, devido à OLP – Organização para a Libertação da Palestina -.

Chegamos à final, mas perdemos. No ano seguinte já não nos deixaram inscrever com esse nome. (risos)

O que mudou na sua vida desde que chefia o Município?

Não mudou muito. Foi sempre minha preocupação que a passagem pela política não me modificasse como pessoa. Há sempre alguns aspectos que temos de alterar, mas não queria que as questões éticas, morais, da amizade e do bom relacionamento com as pessoas e acho que isso se manteve. As vezes diz-se que na passagem pela política se ganham muitos inimigos, mas eu considero o contrário, acho que tenho mais amigos hoje do que tinha. Claro que há pessoas que nem sempre gostam das nossas decisões, também há decisões que nem sempre correm bem mas levo da política uma boa experiência.

Mas a responsabilidade tirou-lhe horas de sono?

Sim, isso tirou. Sobretudo nos primeiros tempos. A política tem dois efeitos que são demolidores. Primeiro, o tempo, porque as agendas são muito apertadas, e hoje em dia temos de ir a reuniões da CIM, da CCDRN, temos de ir a Lisboa por tudo e por nada, e depois temos a família. Muitas vezes queixa-se, e com razão, da nossa ausência. Eu faço um grande esforço para, durante o fim-de-semana estar em casa, com a família, mas durante a semana é manhã, tarde e noite.

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CONTINUA A SER “O PROFESSOR”

E consegue concilia vida privada, nomeadamente filhas, com esta vida profissional?

As minhas filhas entenderam o trabalho do pai. No início ouviram algumas boas, porque os jovens, por vezes, conseguem ser um pouco diabólicos, mas depois não tiveram problemas nenhuns, e a esposa sofrem um pouco mais porque ouvem umas bocas e ainda por cima a minha mulher é professora e numa escola é natural ouvir-se de tudo.

Mas ela sofre e sofreu, sobretudo, pela ausência, porque muitas vezes teve de ser mãe e pai e, depois, ainda tem me aturar.

As minhas filhas tem 22 e 24 anos. Uma está a terminar a Universidade e outra está em Budapeste, a trabalhar há três anos. Temos feitos uns intercâmbios e se não vamos lá, ou ela não vem cá, é a meio caminho. Vamos agora tirar férias e vamos convergir no mesmo destino. Assim nós podemos sair e viajar e ela também o pode fazer, apesar de Budapeste ser uma cidade muito simpática e atrativa.

Foi professor em Valença, de muitos jovens que hoje se cruzam na rua consigo? Como lidou com essa alteração de cargo e de posturas?

Para eles continuo a ser o professor e mantenho uma relação muito aberta e acredito que os resultados políticos que temos obtido também se devem a esse tipo de relações que sempre mantive com as pessoas, antes e depois de ser presidente.

Gosta de ser presidente da Câmara? Acha que face ao tem de abdicar, as vantagens compensam?

Se não gostasse e não me sentisse bem neste lugar já me tinha ido embora. Este cargo é desgastante mas tem um particularidade. Por vezes, vou na rua e, não só as pessoas me cumprimentam, como me agradecem por coisas que fiz e que, muitas vezes, eu nem me lembro de ter feito, porque para nós são coisas pequenas, como o arranjo de uma estrada ou uns passeios mas as pessoas dão muito valor. E essa proximidade e facto das pessoas reconhecerem esse trabalho é uma das mais valias destes cargos políticos.

Os cidadãos tendem a dizer mal da política e dos políticos e muitas vezes, os próprios políticos, quando saem dos cargos, também dizem mal. “Aquilo é uma chatice, era isto e aquilo”.

Realmente, os cargos públicos e políticos tem, hoje em dia, uma grande exposição, e muitas vezes, as pessoas não são simpáticas connosco, sobretudo nas redes sociais e pessoas que nós nem conhecemos e que não nos conhecem. Tratam-nos mal, porque somos políticos, e portanto somos todo iguais, é só tachos, é só interesses… Se saísse hoje da política podia dizer que levo mais amigos daqueles que tinha quando entrei. E saía da política gratificado.

Do que é que mais gosta em Valença?

Das pessoas. Tratam-me com carinho, com estima, mesmo quando temos de tomar decisões difíceis há sempre respeito e consideração pelo trabalho que temos feito. E depois gosto muito do entorno onde vivemos e desta relação com Tui, do Rio Minho pelo meio e os afetos que ligam valencianos e tudenses e que, para mim, é único, em Portugal e no mundo. Já tive oportunidade de conhecer muitos lugares deste mundo e não há nada disto. Há fronteiras, há estigmas, há conflitos e aqui não. Se por algum motivo, e para mal dos nossos pecados, se hoje a Europa implodisse, e colocassem aqui, novamente, uma fronteira, acho que havia aqui uma guerra porque ninguém ia aceitar e certamente seria a fronteira com mais ilegalidades de todo o mundo. (risos). E quem nos visita, e hoje em dia passam aqui milhares de peregrinos, acham estranho, e o sentimento de vir livremente e passar a ponte sem problemas e entrar noutro país, é algo que, para nós, é dado como adquirido, mas para 2/3 do mundo não é assim.

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UMA GRANDE PRAÇA CENTRAL ONDE AS PESSOAS SE ENCONTREM

E o que é que gostava de mudar em Valença, mesmo sabendo que é muito difícil?

Uma coisa que estamos a tentar e criar um espaço central que Valença não tem. Uma grande praça central onde as pessoas se cruzem e se possam encontrar. Estamos a trabalhar nesse sentido para à volta do Colégio Português, conseguir essa centralidade. Já estivemos perto, depois o processo recuou, agora com o vinda do Hospital da Trofa acho que temos pernas para andar. Até porque a área de intervenção é grande. Implica a avenida da estação, o Colégio Português, parte do espaço onde estava a Artística, o Jardim Municipal e o antigo Campo da Feira. Tem de ser uma coisa integrada, discutida publicamente.

Quais os seus hobbies?

Caminhadas. Já não corro tanto como gostaria porque algumas lesões no joelho já não deixam, portanto agora é sobretudo caminhadas, trails e sempre que posso faço tanto sozinho como acompanhado. Por vezes, quando andamos a pé, temos de fechar os olhos e sentir o coração, os pulmões o intestino, e todo o sistema a funcionar. Por isso é que, quem faz uma peregrinação a Santiago, muitas vezes, não vai por uma questão religiosa mas sim para se encontrar consigo próprio. E a caminhada proporciona isso.

Depois passear e viajar sempre que possível. Não sou apologista daquelas férias de uma semana sempre na praia, sou mais de conhecer o mundo. E ás vezes, nos sítios mais inóspitos, dos quais, à partida, não temos uma boa impressão, é onde se encontram as melhores surpresas, de pessoas que vivem com muita dificuldade, não têm nada, mas são felizes. Nós aqui temos tudo e estamo-nos sempre a queixar.

Quais foram as viagens que mais o marcaram?

África marcou-me muito. Angola, Moçambique, Cabo Verde, Marrocos (uma viagem onde fiz toda a costa, desde Tanger até Agadir, com a mulher e com as filhas, em 2009, e que foi muito arriscado ir com elas as três, mas onde descobri coisas e pessoas fantásticas que só o facto de estamos a passar lá e dizermos olá já era gratificantes para elas e isso é fantástico.

Costumam ir ao cinema, teatro ou algum espetáculo musical?

Mais cinema, e em casa. No Teatro, acompanho quase todos os espetáculos das comédias do Minho, em especial aqueles onde dá para rir bastante.

Tem algumas superstição?

Não tenho nenhuma embora sinta que há uma certa energia que, por vezes, parece que cria um equilíbrio no mundo. Há situações que acontecem que parece que tinham mesmo de acontecer e eu acredito que há uma certa ordem no mundo e que não consigo explicar e que influencia as nossas vidas. Uns acreditam que é uma energia positiva e há outros que acham que só vem desgraças e que o amanhã vai ser sempre pior do que hoje. Eu acho que nos momentos difíceis temos sempre de acreditar que virão momentos melhores e que o futuro será risonho, mesmo, com todas as dificuldades que as pessoas tem.

E o seu local preferido para passar férias?

O mundo em geral. Gosto muito da Europa, sobretudo da Europa central, e gosto muito de fazer férias sem marcar nada.

Que planos tem para o futuro?

Há duas viagens que ainda quero fazer. Uma é ir até Vancouver descer até São Francisco e depois vir de comboio até Nova Iorque. Claro que isto não se faz numa semana.

Outra é ir até ao extremo da Rússia, de comboio, até Vladivostok, e depois passar para o Japão. Também essa requer muito tempo para se fazer.

E as próximas eleições? Não se podendo recandidatar, já pensou no que vai fazer?

Na política não podemos fazer planos, porque podem sair completamente ao contrário. Nunca pensei vir para a política e vim, nunca pensei ser Presidente da Câmara e sou, quando acabar o mandato, poderei voltar para a minha vida profissional e depois, se surgir uma oportunidade na área da política cá estarei, se o projeto for aliciante, para mim e para quem me convida.

Senão, tenho tido muitos convites do sector privado, antes de chegar a Câmara e com certeza que aí não faltaram desafios aliciantes.

O TIAGO FOI CANDIDATO À CÂMARA DURANTE 3 MINUTOS

No final da entrevista quisemos saber uma situação caricata que lhe tenha ocorrido, enquanto autarca.

Tivemos um momento muito engraçado na segunda campanha eleitoral, em 2013. Estávamos em Friestas, numa sessão de esclarecimento, e no final era aberta a parte de perguntas do público. E um senhor queria fazer uma pergunta sobre o cemitério, e eu disse-lhe; sim, senhor, faça favor; e ele disse-me: não é consigo, é com o candidato a presidente. E eu, insisti; pronto, eu sou o candidato, diga!; e ele volta a dizer-me; não é consigo que quero falar é com o candidato a presidente; eu sei bem quem é o candidato. É esse senhor que está aí ao lado. Na ocasião era o Tiago Alves ( Chefe de Gabinete de Apoio à Presidência).

E foi o Tiago Alves que respondeu e que durante três minutos foi candidato a Presidente da Câmara. (risos). No final, o senhor levantou-se e veio-me cumprimentar dizendo: Obrigado Presidente. Houve ali alguma coisa que se passou, mas não sei bem o quê. (risos)

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