Lítio – Energia de futuro ou ‘desgraça’ ambiental

1
Lítio - Energia de futuro ou 'desgraça' ambiental

Lítio – Energia de futuro ou ‘desgraça’ ambiental. Já há quem lhe chame o “petróleo” de Portugal, dadas as reservas que o nosso país apresenta e o seu potencial para, nomeadamente incorporar baterias de alto rendimento, fundamentais à transição energética, sobretudo nos automóveis, na migração entre o motor de combustão (fóssil) e o motor elétrico.

Especialistas apontam mesmo que Portugal é “dos únicos países” que tem condições para “cobrir todo o ciclo das baterias, desde a mineração (lítio) à reciclagem” dos equipamentos, apontando que “há toda a economia circular” com base nas baterias.

Há, também aqui, o “reverso da medalha” neste metal, também cada vez mais fundamental para as baterias dos nossos telemóveis e em placas no fabrico de eletrodomésticos. A mineração é efetuada a “céu aberto” e, por isso, os impactos na paisagem e no ar são enormes, tanto mais que os locais onde o mesmo existe se situam em áreas de reservas agrícola e ecológica, inclusive em territórios parcialmente integrantes da Reserva Mundial da Biosfera. Os lençóis freáticos também são afetados e temos todos razões para desconfiar quando alguém afirma que serão acauteladas todas as questões ambientais.

É, pois, um assunto de agora e do futuro, sobre o qual não podemos ficar à margem. Três dos nossos colaboradores, atentos a esta questão e à problemática que a envolve, tecem para a VALE MAIS considerações e lançam alertas, pertinentes, que merecem uma leitura e reflexão atenta.

Lítio - Energia de futuro ou 'desgraça' ambiental

José Manuel Carpinteira

A CORRIDA AO LÍTIO E AO AMBIENTE

O Lítio é o metal mais leve e menos denso entre os elementos sólidos e foi descoberto há cerca de 200 anos pelo químico sueco Johan August Arfwedson. Por ser um mineral muito reativo, não é encontrado de forma isolada na natureza, tem de ser extraído de rochas.

O lítio tem várias aplicações na indústria, nomeadamente no fabrico de vidros e cerâmicas com resistência ao calor, em ligas metálicas de cobre e de alumínio para a construção aeronáutica, baterias e pilhas recarregáveis, e na composição de medicamentos para o tratamento da depressão nervosa.

No entanto, o lítio ganhou recentemente nova relevância com a sua cotação internacional a subir nos últimos anos. A explicação é simples: o aumento da procura mundial para a produção de baterias para automóveis elétricos, telemóveis e placas utilizadas no fabrico de eletrodomésticos.

As maiores reservas mundiais de lítio estão no Chile, China, Austrália, Argentina e Bolívia. Portugal, pelas reservas que já se conhecem, está num dos lugares cimeiros da Europa no que diz respeito a um dos recursos minerais mais procurados do momento. Por isso, os pedidos de prospeção e pesquisa de lítio dispararam nos últimos meses em várias zonas do país.

Contudo, no terreno, e nas redes sociais, as populações vão exprimindo o seu receio do que se anuncia para os seus territórios. Lembram os exemplos do passado, das minas encerradas e abandonadas, que deixaram atrás de si passivos ambientais de elevada gravidade para a saúde das populações. A este respeito o Governo tem anunciado várias medidas para acautelar as preocupações ambientais, garantindo que quem ganhar as licenças para a explorar as reservas de lítio terá de ficar em Portugal a contribuir para desenvolver toda a fileira, do ponto de vista económico e industrial, incluindo a recuperação ambiental das diversas intervenções feitas, de modo a não deixar “feridas ambientais”.

No Alto Minho a empresa australiana Fortescue Metals Group que tinha requerido a pesquisa de minérios na zona de Fojo, que abrange os concelhos de Melgaço, Monção e Arcos de Valdevez, desistiu desse pedido e do respetivo procedimento, sem especificar as razões.

Admito que a contestação das populações e das autarquias tenha contribuído para essa decisão. Tive a oportunidade manifestar ao senhor ministro do Ambiente a preocupação das populações e das autarquias na eventual exploração de lítio nos limites do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Acrescentei ainda que o valor ambiental e paisagístico deste território não pode ser destruído.

Sabemos que não é fácil conciliar interesses antagónicos. De um lado, está o interesse em avançar com a exploração do lítio associada à mobilidade elétrica e à transição energética, e com valor económico e social relevante para o país. Do outro lado, está a necessidade de preservar o património ambiental e natural do país.

Há ainda muitas questões a esclarecer: Qual o contributo que a exploração e processamento do lítio pode ter para a economia do interior do país e dos territórios de baixa densidade? Há ou não riscos ambientais associados a esta atividade mineira? E Portugal pode dar-se ao luxo de esbanjar esta oportunidade internacional?

Uma nota final. A ONU declarou o ano de 2019 como o Ano Internacional da Tabela Periódica dos Elementos Químicos, como reconhecimento da importância da Química no desenvolvimento sustentável e como fonte de soluções para os desafios globais nas áreas da energia, agricultura, educação e saúde. A Tabela Periódica, criação genial do russo Dmitri Mendeleev há 150 anos, resume tudo que existe no universo. Um verdadeiro hemiciclo químico, onde, como na política, também estão representadas a esquerda e a direita e serve para tudo, incluindo pensar!

Brito Ribeiro

A QUESTÃO DO LÍTIO

A fazer fé nas declarações do Ministro da Economia, Pedro Cisa Vieira, o Governo prepara-se para lançar oito novos concursos até ao final do ano, para exploração de lítio.

Os interesses são imensos e envolvem as maiores empresas de extracção mineira nível mundial. Em Portugal existem minas de extracção de lítio para a indústria cerâmica, mas nenhuma extrai o óxido do mesmo mineral para as baterias dos carros eléctricos, que é o ponto de viragem que tem revolucionado o sector. Espera-se que em 2025 a procura de lítio em todo o mundo esteja nas 300.000 toneladas anuais, necessárias para satisfazer a crescente reconversão da indústria automóvel, na migração entre o motor de combustão e o motor eléctrico. Isso implicará o aumento em dez vezes a necessidade do lítio em relação à procura actual.

É o cenário ideal para a especulação e as grandes empresas mineiras encaram a posse de concessões, como activos seguros de um mineral que já se valorizou 200% nos últimos três anos.

No caso concreto da Serra d’Arga, soube-se que a empresa concessionária terá desistido da prospecção, mas não é seguro que outra empresa não tome o lugar da primeira.

Por outro lado, no Fojo (concelhos de Melgaço, Monção e Arcos de Valdevez), estão referenciados mais de 70 Km2 de área de prospecção e pesquisa de minerais, designadamente de lítio. Esta área inclui a zona da nascente do rio Vez e a aldeia de Sistelo, altamente valorizada nos roteiros de turismo de natureza.

Seja na Serra D’Arga ou no Fojo, com a exploração mineral de lítio, fica em risco de colapso toda a promoção e valorização territorial, baseado na qualidade do ar, da água, da paisagem e da vida rural, aquilo que alguns gostam de designar como “mosaico de paisagens”.

A importância do lítio não deve ser posta em causa, mas não se pode pôr em risco o potencial turístico da região, nem da qualidade de vida das populações, que veriam o seu cotidiano sofrer brutais alterações e não são as meras promessas de estudos de impacto ambiental que sossegam os corações e as mentes sobressaltadas. Todos nós sabemos o que representam os estudos de impacto ambiental perante os interesses económicos.

É fundamental que os nossos autarcas se posicionem inequivocamente na salvaguarda dos interesses das populações, do património natural e da coesão territorial, sem ceder às pressões políticas e económicas vindas de onde vierem.

Nélson Azevedo 

TOCAM OS SINOS NAS TORRES . . . DO FACEBOOK

Em tempos idos, tocavam os sinos a rebate porque a ameaça vinha sob forma de incêndio, meliantes ou mesmo invasão de exércitos inimigos. Hoje, os sinos tocam mas sem a simbologia de outrora. Essa vigilância transferiu-se para outros lugares, formas e expressões.

O caso de que vos venho falar – e que não será novidade para muitos dos nossos representantes, mas sim para muitas pessoas que vivem nas aldeias das zonas afectadas- é que temos perante nós uma ameaça ao nosso modelo de desenvolvimento e modelo de vida: a exploração de minérios, que ameaçou e ainda ameaça – Monção, Melgaço e Arcos de Valdevez, Caminha, Viana do Castelo e Ponte de Lima. Estamos perante uma afronta ao que somos enquanto comunidades, que assentam o seu modelo de desenvolvimento no equilíbrio (ainda que nem sempre bem conseguido) entre Homem- Natureza- Economia.

As serranias destes concelhos são fonte de rendimento de muitos criadores de gado; por outro lado, hoje muitos milhares de pessoas desfrutam da Natureza em estado puro, quer no Parque Natural da Peneda-Gerês, quer nos inúmeros trilhos que calcorreiam pela Reserva da Biosfera ou pelas Paisagens Culturais do Sistelo, pelas Lagoas de S. Pedro e Bertiandos, pelas Brandas, pelas leiras, sem esquecer as praias Viana, Caminha e Vila Praia de Âncora ou Moledo. Não podemos também esquecer que os vinhos produzidos em Monção e Melgaço ou Ponte de Lima estariam em risco com as alterações que os químicos usados na produção mineira iriam introduzir nos lençóis freáticos, mudando as condições de produção dos Alvarinhos e Loureiros e Trajaduras, ou seja, os seus terroirs que tanto tem custado a afirmar!

E que dizer dos cursos de água que são o nosso elixir da vida? Nenhuma exploração mineira poderá colocar em causa dezenas de milhares de pessoas na sua saúde.

Rio Minho, Rio Lima, Rio Coura, Rio Vez estão nesta grande bacia hidrográfica ameaçada!

Com a escassez de água que se anuncia a cada ano que o aquecimento global se torna mais evidente, resulta evidente uma conclusão irrefutável: reduzir os caudais (porque milhões de litros de água seriam usados) e poluir os rios e seus afluentes (porque são usados muitos produtos no tratamento dos diversos minérios) seria um erro não de julgamento mas um crime. Deixaremos este crime ameaçar a própria identidade deste Território por um punhado de empregos e por lucros de uma mão-cheia de milionários?

E quais os reflexos no nosso Turismo? Todos e mais alguns! Num momento particularmente bom para o turismo na região do Alto Minho, o que seria de termos minas a céu aberto de lítio enquanto passa o Granfondo Monção-Melgaço ou centenas de runners que calcorreiam a Serra d’Arga no Grande Trail? Talvez não seja assim tão boa ideia, pois não? E para aqueles que procuram os trilhos, as lagoas, as quedas de água refrescante por estas serras, o que lhes daríamos? Um peeling ácido?

As gentes do Alto Minho são gentes de bem, orgulhosas do seu passado e do seu presente. São gentes habituadas aos trabalhos duros do mundo rural e da vida na montanha. São gentes que trilharam caminhos de contrabando, de fuga a existências miseráveis durante dezenas de anos até ao último quartel do século XX. Mas são gente que não hesitará em defender o seu modo de vida, que assenta no respeito pelos ritmos da natureza, da vida em comunidade, que recebe de braços abertos quem vem por bem. Mas algo diferente é vir a ser confrontada com gente que não vem para trazer o bem, a riqueza ou o bem-estar em comunhão com as montanhas, os rios, os animais que fazem parte do seu ser, da sua vivência. Tenho a absoluta certeza de que serão usados todo os meios legais disponíveis bem como o direito à indignação, justamente aludido pelo antigo Presidente da República Portuguesa, Mário Soares. Até porque no Alto Minho, quem não se sente, não é filho de boa gente. E aqui a gente é boa mas não manda dizer por ninguém e percebe bem um lobo disfarçado de ovelha! Por isso, exija-se dos nossos representantes a absoluta transparência no que decidem por nós. Só assim merecem a nossa confiança!



Ponte de Lima, Caminha e Viana do Castelo juntos para promover a Serra D’Arga


Veja a outra reportagem publicada na revista Vale Mais, sobre a Serra D’Arga e a promoção que está a ser feita pelos municípios de Ponte de Lima, Caminha e Viana do Castelo, com o intuito de tornar aquela serra numa ‘Área de paisagem protegida”.

Ponte de Lima, Caminha e Viana do Castelo juntos para promover a Serra D’Arga

 

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here