Mª FÁTIMA CABODEIRA /// Noites de Luar

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Depois dos blocos noticiosos da noite, à sexta-feira, sabe bem fazer zapping pelos canais por cabo em busca de um porto de abrigo: detenho-me, por vezes, no “Canal Q”, outras no “24 Kitchen”, onde consigo encontrar marcas culturais por entre a fusão gastronómica, e, eis que, inesperadamente, me reencontro com “Luar”, um histórico programa da TV Galiza, emitido, à sexta-feira, em horário nobre, que é líder de audiências.

Para os que habitamos no Noroeste Peninsular, os canais televisivos espanhóis (e bem assim as estações de rádio) foram, ao longo dos anos, uma companhia constante, quando a caixinha mágica portuguesa se reduzia à RTP1 e à chuvosa RTP2.

Para meu contentamento e espanto, verifico que o apresentador – Xosé Ramón Gayoso – continua a ser o mesmo, desde o início dos anos 90, acompanhado por apresentadoras, que, essas sim foram mudando. Curiosamente, ele parece imune à passagem do tempo, tal é a frescura, a entrega e a vivacidade com que recebe na sua casa os inúmeros convidados.

Leio, a propósito, que o programa arrecadou sete Best International Format Awards, sendo um caso de sucesso internacional. A comunidade galega residente e os filhos da terra que emigraram – lembram-se do poema “Ei-los que partem”, de Rosalía de Castro? – são expectadores assíduos.

Os portugueses que ali se deslocam, como Luís de Matos, que aí manteve durante vários anos números de magia, muito apreciados na Galiza, são tratados como “irmãos”.

O tempo e a palavra figuram como os grandes protagonistas deste salão de festas, onde toda a família galega e amigos próximos se reúnem. Sem apelos dramáticos para fazer chamadas de valor acrescentado, uma praga que atualmente invade os programas televisivos nacionais e dizima o discurso. Parafraseando um familiar ligado à fundação de um rancho folclórico, subjaz o conceito: “entra na roda”.

E o que vemos nesse caleidoscópio? Sketchs de humor, divulgação das festividades em toda a Galiza, concursos de música, artistas ibéricos. E do mundo. É como se entrássemos num antiquário televisivo, com o repositório dos usos e costumes locais, mas sempre a apontar para o futuro.

Nesta última edição, crianças e jovens exibiam perante um jurado a sua arte de tocar… gaita galega, pandeireta e bombo. Indo beber à raiz musical popular, construíam o seu repertório, já com uma perfeita noção do ritmo e da musicalidade, que se exprime na própria expressão corporal. Tão natural como respirar.

Obtive, ainda, informação sobre instrumentos musicais galegos, e fiquei deveras impressionada com o som da sanfona.

Sou devedora, em termos culturais, aos canais televisivos espanhóis. Pelo facto de ter sido expectadora, passei a conhecer, desde a minha adolescência, artistas como Joaquin Sabina (“Quién me há robado el mês de abril?, lembram-se”); Luz Casal, “Presuntos Implicados”, Miguel Bosé, Alejandro Sanz, Rosario Flores, Carlos Núnez, entre muitos, muitos outros.

Goste-se ou não inteiramente do formato, “Luar” é uma instituição. Quem o (re)vê sente-se em casa. Há ali genuinidade, identidade e memória.

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