Mª FÁTIMA CABODEIRA ////////////// Reencontros no tempo da Quaresma

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Estamos na Quaresma, num tempo que apela ao recolhimento, não obstante a explosão de cor da primavera, a estação ridente. Não por acaso, as glicínias e os lírios exibem, agora, a sua fragilidade.

Reflexivos, estes dias antecedem o momento festivo da Páscoa, em que os católicos celebram a ressurreição de Cristo.

Na minha infância, jogávamos “às rezas”, com os nossos melhores amigos. O silêncio e a paciência eram as armas secretas para vencer os adversários. Quem perdesse tinha de oferecer um pacote de amêndoas.

Já em vésperas da Páscoa, assistia, em comunidade, à “Queima de Judas”, uma tradição que ainda hoje se cumpre em diversas localidades do Alto Minho, com maior ou menor grau de dramatização.

O boneco grotesco, a arder, simboliza a destruição da traição. No dia seguinte, bem cedo, os sinos tocam alegremente e a cruz visita as casas dos paroquianos.

Percorre-se, então, caminhos, largos e quelhas quase esquecidos, que calcorreamos algures quando o universo cabia todo na palma da nossa mão.

Mais do que os doces e todas as iguarias que compõem as mesas engalanadas, gosto do reencontro previsível das pessoas. Umas vêm religiosamente do estrangeiro, França, por exemplo, outras da capital; outras simplesmente do distrito, outras da própria freguesia, numa retribuição mútua de afetos antigos, que estão ancorados na memória dos que nos precederam.

Os rituais servem para nos sentirmos integrados no espaço e no tempo. Sempre iguais, sempre diferentes. Estabelecemos elos de ligação que norteiam a nossa vida, e ajudam a memória – seletiva – a reconstituir o fio narrativo das vivências.

Gosto, por isso, de usar o possessivo quando falo da minha aldeia, da minha escola, da minha faculdade, etc., etc..

Apesar da dificuldade que sempre representa o relacionamento interpessoal, mais escrutinado em locais onde a geografia se mede aos palmos, o regresso às origens é, no atual mundo movediço e impessoalizado, um porto de abrigo.

Sugiro, a propósito, a leitura de um poema de Eugénio de Andrade intitulado “É Assim”, in O Sal da Língua.

Sobre esta temática recomendo que assistam à peça “Não Lugar”, que a companhia teatral “Comédias do Minho” está a levar à cena em diferentes locais dos concelhos do Vale do Minho.

Aí se problematiza, a partir de textos do antropólogo francês Marc Augé e do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, um tema atualíssimo: a perda de referências e de identidade, que decorre da denominada globalização, cujas máscaras conduzem a um processo constante de controlo – lembram-se da obra “1984”, de George Orwell-, que reduz o ser humano à mais infeliz das solidões.

Por contraposição a esses lugares estranhos, meramente tecnológicos, há os outros, os de que vos falei, hoje, em mais uma crónica.

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