Manuel Pinheiro // Presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes

ENTREVISTA // REPORTAGEM

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 “… Em 2014, os produtores perceberam que estavam a ser lançados vinhos regionais Minho, Alvarinho loureiro, e Alvarinho extreme, com grande sucesso comercial. Ou seja, perceberam que o cliente não distingue se é um Alvarinho DOC ou IG”.

A sede da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes, na Rua da Restauração, no Porto, foi o local perfeito para uma plácida conversa com o nosso entrevistado.

Aliás, o magnífico palacete, situado em pleno centro do Porto, que em tempos pertenceu a António da Silva Monteiro, empresário portuense, e foi considerado, em meados do século passado como “a casa mais luxuosa do Porto” não requeria outro tipo diálogo.

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Deste modo, a Casa do Vinho Verde, que ali se encontra instalada desde meados dos anos quarenta, com uma excelente localização e uma vista magnífica para o rio Douro testemunhou as declarações de Manuel Augusto Dias Pinheiro, de 48 anos, que há 14 preside os destinos desta comissão de viticultura.

Foi na esplendorosa biblioteca desta casa, e já ao cair da noite, que Manuel Pinheiro nos falou, sem rodeios, da atualidade dos Vinhos Verdes, que tanta tinta tem feito correr na nossa comunicação social.

Qual é o estado atual da região dos Vinhos Verdes no que diz respeito à viticultura, aos vinhos e a área comercial?

Em geral, a região precisa de desenvolver muito a sua viticultura porque, neste momento, estamos a utilizar toda a matéria-prima que temos. E a região, para dar um salto comercial, precisa ter mais e melhor matéria-prima. Sobretudo mais.

Na enologia estamos muito bem. Foi um sector que teve uma revolução nos últimos anos e hoje produzimos grandes vinhos. Os nossos brancos estão entre os melhores do mercado. Os nossos rosados estão a aparecer com muita força e os tintos, talvez seja a única área em que precisaram de fazer algumas melhorias. Mas em brancos e rosados temos vinhos para apresentar em qualquer ponto do mundo.  

Por ultimo, na área do marketing e da gestão, temos de ter consciência que, em geral, as nossas empresas são pequenas, tem pouca capacidade financeira, e têm de encontrar soluções de aproximação e associação para continuarmos a vocacionar a nossa diferenciação.

O Vinho verde é diferente dos outros e essa diferenciação é o que, no mercado mundial, nos pode trazer alguma vantagem. E tem trazido, porque, de 2000 até agora, multiplicamos muitas vezes as nossas exportações. Em 2000 exportávamos 15% do negócio, e em 2014 são mais de 40%.

“Os nossos brancos estão entre os melhores do mercado. Os nossos rosados estão a aparecer com muita força e os tintos, talvez seja a única área em que precisaram de fazer algumas melhorias. Mas em brancos e rosados temos vinhos para apresentar em qualquer ponto do mundo”. 

Alvarinho, Loureiro, Trajadura e Vinhão. Como “avalia” estas quatro castas?

São os grandes generais da região. Mas a única que tem alguma imagem mundial é o Alvarinho. E mesmo assim muito pouca porque as grandes castas brancas mundiais são o ‘Chardonnay’ ou o ‘Sauvignon Blanc’ e o Alvarinho, comparativamente, ainda, tem pouca imagem, apesar de já tem alguma.

O loureiro e a trajadura ainda não tem imagem internacional. São usadas em Portugal e na Galiza mas ainda não são “património comercial” a nível mundial. Portanto, isto quer dizer que podem crescer.

O vinhão é sobretudo uma casta produzida e consumida dentro da região e não é uma casta exportável. Aliás, não é fácil exportar os tintos. Mas é a casta que carateriza mais os nossos tintos e deve ser valorizada.

Agora o Alvarinho e o Loureiro são as castas líderes e portanto o vinho verde do futuro vai ser cada vez mais Alvarinho e Loureiro.

Em que medida, na região, as castas têm sido promovidas. Há dias, em Ponte de Lima, ouvia-mos um produtor alertar para a necessidade de se fazer com um trabalho de promoção do loureiro como o que tinham feito os produtores do alvarinho?

Em primeiro lugar, julgo que temos de promover no mercado mundial, Portugal como um país produtor de vinhos. Depois promover as denominações de origem. O Vinho Verde, o Vinho do Douro o Vinho do Alentejo, entre outros. E em terceiro promover as marcas dos produtores. Marcas como ‘Varanda do Conde’, ‘Portal do Fidalgo’, ‘Muralhas’, ‘Quintas de Melgaço’, etc., etc., são marcas que o cliente deve reconhecer no ponto de venda.

Não acho que se deva investir muito na promoção das castas e acho que devemos fazê-lo com bom senso, para não cairmos no problema que tivemos com o Alvarinho.

Ou seja, se começamos a fazer uma campanha mundial para promover o Loureiro, a seguir vem a Galiza e diz; «nós temos o Loureiro, que até se escreve, exatamente, da mesma maneira» e andamos abrir portas para os outros.

Ora nós temos é de abrir as nossas próprias portas. Por isso prefiro que se faça promoção da denominação de origem e até das sub-regiões, como Monção-Melgaço, Amarante, Lima, porque isso é o que nos pertence, em vez de estarmos a fazer a promoção das castas só por si.

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Como decorreu o ano de 2014 comercialmente?

Fechamos 2014 com um aumento, na venda total de vinhos, de cerca de 6%, a que corresponde um aumento muito forte da exportação, e uma estagnação no mercado nacional. Claramente, aquilo que tem puxado pelo negócio nos últimos anos é a exportação. Nos anos 70 e 80 vendíamos sobretudo para as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo que são um património fabuloso de negócio e para os países de língua portuguesa, como Angola, Moçambique, Brasil, etc. Hoje, estamos a vender, também, para muitos outros. O resultado é que chegamos ao fim do ano sem vinho. O que é um bom sinal. Deve ser este o desafio para que se plante mais vinha.

Mas vendeu-se a melhores preços ou são os preços baixos que tem aumentado as vendas? Não é isso um sinal de “menor qualidade do produto” em relação a outros vinhos?

É evidente que temos de oferecer ao cliente uma proposta de valor que tem vários elementos, um dos quais é o preço. E o preço tem de ser competitivo. O Vinho Verde está, ao contrário do que se diz, muito longe de ser o Vinho mais barato de Portugal. No top de vendas das várias regiões demarcadas, mantemos uma avaliação das três marcas mais vendidas, a região que tem o preço mais elevado é o Douro, e nós, estamos a seguir. Temos preços médios de venda superiores aos de Setúbal ou Alentejo. É um mito a ideia de que o Vinho Verde é o mais barato. Não é de todo. E este ano estamos a assistir a uma apreciação do preço. Neste momento os preços do granel, por exemplo, do vinho Verde, entre empresas, é de cerca de 70, 75 cêntimos o litro. Este é o granel, branco, mais caro de Portugal.

“O Vinho verde é diferente dos outros e essa diferenciação é o que, no mercado mundial, nos pode trazer alguma vantagem. E tem trazido, porque, … em 2000 exportávamos 15% do negócio, e em 2014 são mais de 40%”.

Mas comparativamente, os vinhos Albariño, da Galiza, são vendidos a um preço superior, o que tem aumentado a sua notoriedade. Não está o alvarinho português a ficar para trás?  

Sim, sem dúvida que sim. A diferença é que, enquanto na Galiza, há várias denominações de origem completas que produzem Albariño, em Portugal, só temos Alvarinho em dois concelhos, e portanto não conseguimos ter empresas com músculo comercial. Se na Galiza houvesse a mesma área a produzir Albariño, que existe em Portugal, então só se produzir em Salvaterra do Miño e Arbo. Mas não. Como é uma região muito extensa, as grandes empresas galegas puxam pelo Albariño e geram riqueza para toda a região. Daí, também, este debate que se fez sobre as regras de produção do Alvarinho.

Continua o chamado “mercado da saudade” a ter muito peso nas exportações?

Felizmente sim. A diáspora portuguesa é muito importante. Países como França, Luxemburgo, Alemanha são muito suportados por todos os portugueses que foram por esse mundo fora e, ainda hoje, continuam a ser nossos clientes. Devemos considerar esse mercado como um ponto de partida, começando por vender para a comunidade portuguesa desses países, acabando por crescer para toda a comunidade local.

Tem havido interesse de grandes empresas estrangeiras, em investir na região dos vinhos verdes?

Infelizmente não. Seria excelente que tivéssemos mais investimentos de fora. Há uma quinta, da Covela, no Douro, que foi recentemente comprada por uma sociedade brasileira e inglesa mas não temos tido outros investimentos. O que seria bom porque iria trazer mais experiência e conhecimento. Porém, temos empresas de outros pontos do país que estão a investir aqui.

Por exemplo, João Portugal Ramos, uma empresa grande, do Sul, que veio investir na região, produzindo Alvarinho e Loureiro; a Adega de Reguengos de Monsaraz lançou um Vinho Verde, que compra, naturalmente, aqui na região; José Maria da Fonseca, uma empresa emblemática, de Azeitão, tem um Vinho Verde no seu portfólio; a Bacalhôa Vinhos de Portugal, uma das maiores empresas de Portugal, tem um Vinho Verde; portanto, estamos a conseguir captar empresas nacionais de outros pontos do país que querem comprar aqui vinho para venderem.

Seria excelente se um grande grupo internacional investisse no vinho Verde. Ainda não aconteceu mas, à medida que vamos ganhando competitividade abrem-se boas possibilidades de isso acontecer.

O que falta ao vinho verde tinto para ser mais valorizado no mercado externo?

Este ano aprovamos fazer um plano de debate sobre Vinho Verde Tinto. Vamos debater com produtores, enólogos, e com empresários do marketing para repensar o Vinho Tinto. E para vermos se faz sentido continuarmos neste modelo de produto, se devemos mudar, e de que forma.

O que os números nos dizem é que se nada for feito, daqui a cinco anos estamos a produzir mais Rosé do que Tinto. O Rosé está a crescer muito e o Tinto está estagnado há vários anos.

De facto, dar um novo folgo ao Tinto é um desafio essencial para o qual, hoje, ainda não há respostas.

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Na região dos Vinhos Verdes, predomina a pequena propriedade, um dos fatores que contribui, por vezes, para a extinção de castas. Que medidas existem para combater essa tendência?

Essa pergunta é muito difícil. As novas vinhas que estão a ser plantadas estão a criar um fenómeno curioso de concentração em poucas castas. Alvarinho, Loureiro, eventualmente um pouco de Trajadura e Fernão Pires esgotam a lista de castas que estão a ser plantadas.

Ou seja, uma região que tinha centenas de castas está-se a concentrar em cada vez menos castas. Isso é um fenómeno natural, porque os produtores estão a plantar aquilo que lhes dá mais rentabilidade e também é positivo porque estão apostar naquilo que é típico da região.

Na Estação Amândio Galhano, em Arcos de Valdevez, a CVRVV está a recuperar 12 castas autóctones de 14 sub-regiões. Qual o ponto da situação?

Na Estação Amândio Galhano estamos a fazer um estudo de identificação de castas abandonadas, no sentido de as trazer de novo para produção e, precisamente agora, talvez em abril ou maio, vão ser plantados um hectare com castas abandonadas, para fazermos as primeiras vinificações.

O estudo está a ser feito pela engenheira Teresa Mota, e penso que daqui a três, quatro anos, podemos começar a ter as primeiras vinificações e as respetivas avaliações.

No que diz respeito a material para plantar vinhas, há uma grande falha na região, uma grande escassez. Estamos a fazer um esforço, que não é suficiente porque os viveiristas esgotam todo o material que têm para Vinho Verde. Este projeto visa tentar que algumas castas abandonadas que produziam muito, quando plantadas em solos bem drenados e devidamente conduzidas, produzam, também qualidade. E se for assim colocaremos no mercado este material.

Concorda que há excedentes de vinho Alvarinho, que os produtores trabalham individualmente e que os seus preços são baixos? É este o futuro ou esta estratégia que perdura há muito está errada?

Se não me falha a memória, a sub-região de Monção e Melgaço tem 62 engarrafadores. Mas destes, só cinco é que tem um volume de negócios verdadeiramente apreciável. O resto são empresas familiares que tem muita dificuldade na exportação, que tem muita dificuldade nas grandes superfícies e para as quais, o mercado regional, é muito importante.

Nesse aspeto, as feiras promovidas pelas câmaras de Monção e Melgaço são muito úteis.

No entanto, é muito difícil que estes produtores se associem mais. Portanto, eu diria que o que a região vai ver nos próximos anos é um crescimento dos maiores. Os mais pequenos têm vinhas pequenas e não irão crescer muito mais.

Mas se estes pequenos produtores se agregassem não conseguiriam criar uma marca forte e com outro potencial comercial?

Sim, com certeza, mas é muito difícil convencer os produtores a fazerem isso. E daí a necessidade de promover a marca Monção/Melgaço como marca do Alvarinho original para valorizar a produção destes produtores.

Afinal a questão do alargamento da Denominação de Origem (DO) do Alvarinho para lá da Sub-Região de Monção e Melgaço foi ou não uma imposição da Comissão Europeia?

Esta pergunta leva-nos a questão de porquê que isto foi, agora, colocado. Há vários fatores que fazem com que tivesse de haver um acordo em 2014 ou no início de 2015.

O primeiro é que, de facto, a Comissão Europeia notificou o estado português porque a legislação atual era incompatível com a europeia e, portanto, tinha de ser mudada. Mas esse, para mim, nem é o ponto mais relevante. O que é importante é que em 2014, os produtores perceberam que estavam a ser lançados vinhos regionais Minho, Alvarinho loureiro, e Alvarinho extreme, com grande sucesso comercial. Ou seja, perceberam que o cliente não distingue se é um Alvarinho DOC ou IG.

Por exemplo, no caso de lotes de Alvarinho trajadura que há em Monção e Melgaço, a presença de Alvarinho na garrafa é de 70, 80 ou 90%. Mas se for para o IG Minho não há nenhum mínimo legal. Pode ser só 1%. Portanto, era essencial mudar estas regras para evitar que comecem a aparecer produtos de Loureiro Alvarinho e Trajadura Alvarinho só com 1% de Alvarinho.

Estes dois fatores, Bruxelas e a defesa fase ao vinho regional Minho, são essenciais.

Se o acordo do Alvarinho vai permitir que esta região já possa competir em pé de igualdade com a Galiza, como explica tantas resistências por parte dos pequenos produtores de Monção e, sobretudo, Melgaço? Prevaleceu, ou não, a lei dos mais fortes?

Em primeiro lugar, eu acho positivo que haja uma ligação afetiva dos produtores ao seu produto, porque é de uma questão afetiva que se trata. Quando as pessoas dizem «o Alvarinho é nosso» estão a dizer que Alvarinho pertence ao seu coração, é aquilo que os motiva, porque nós sabemos que a planta é isso mesmo, uma planta e está em todo o lado.

Hoje, há 900 hectares de Alvarinho em Monção, 450 em Melgaço e 500 fora desta sub-região. E fora, rapidamente, haverá muito mais, porque estão a crescer rápido.

Agora, há momentos em que temos de tomar decisões racionais. Percebo perfeitamente que haja produtores que entendem afirmar que o Alvarinho é seu, e até acho que deve ser apresentado, ao consumidor final, a mensagem de que o Alvarinho original é de Monção e Melgaço, mas não devemos ter ilusões porque, neste momento, já se está a produzir Alvarinho noutros locais.

Para mim, o importante deste acordo não é o que se perdeu, mas é, sobretudo, o que se ganhou. Monção e Melgaço ganham 12 anos prorrogáveis a 18 na proteção das suas uvas, período que podem usar para fazer uma adaptação; ganham um orçamento de marketing superior à maior parte das regiões demarcadas portuguesas; e tornam iguais as regras concorrenciais do regional Minho, o que me parece, absolutamente, essencial.

Portanto, vai deixar de haver concorrência desleal no engarrafamento de Alvarinho.

Na votação do acordo, as Quintas de Melgaço abstiveram-se, como divulgou a CVRVV, ou votaram contra, como dizem os melgacenses?

O que o documento diz é que “foi aprovado por todos, com exceção de Quintas de Melgaço”. 

Não diz se se abstiveram ou se votaram contra. Isso, para mim, importa pouco. As Quintas de Melgaço tem de fazer parte da solução e não do problema. No dia três de fevereiro decorre uma primeira reunião para se começar a determinar como é que vai ser investido o orçamento de três milhões de euros. E as Quintas de Melgaço foram, imediatamente, convidadas para essa reunião. Por isso parece muito importante que estejam dentro da solução, porque são uma empresa experiente, relevante e tem gestores muito experientes

Como decorreu essa última reunião da Comissão de Viticultura quando, ao mesmo tempo, decorria, aqui, uma manifestação encetada por Melgaço?

A reunião decorreu num clima muito sereno. Começamos as 14h30 e estivemos até cerca das 19h30. A maior parte do tempo, a discutir a norma que protege as uvas de Monção e Melgaço de saírem para o sul da região. Depois as outras normas foram mais fáceis porque também já havia muito trabalho feito.

A manifestação é um direito legítimo, felizmente estamos num país livre e as pessoas podem e até devem manifestar-se. Pena foi que, tenha pedido, várias vezes, para reunir com a Câmara de Melgaço que não teve a possibilidade de reunir connosco.

Como reage ao facto de Melgaço, alegadamente, tencionar não o convidar para a Feira do Alvarinho de 2015?

Estou a saber isso pelo jornal Vale mais. Na minha pessoal, estou em Monção e Melgaço muitas vezes porque são concelhos de que gosto muito e onde tenho bons amigos. Portanto continuarei a estar e alias sempre estive, e essa será uma expressão de política da câmara que respeito.

“ … Os lotes de Alvarinho trajadura que há em Monção e Melgaço, a presença de Alvarinho na garrafa é de 70, 80 ou 90%. Mas se for para o IG Minho não há nenhum mínimo legal. Pode ser só 1%. Portanto, era essencial mudar estas regras para evitar que comecem a aparecer produtos de Loureiro Alvarinho e Trajadura Alvarinho só com 1% de Alvarinho”.

 

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