Melgacense Carlos Pereira Lemos condecorado em Portugal, Timor e Austrália

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É cônsul honorário de Portugal em Melbourne e foi condecorado pelo governo australiano com a Ordem da Austrália.

Carlos Pereira de Lemos, o cônsul honorário português mais antigo, tem 92 anos, conta com mais de 30 anos enquanto responsável em Melbourne. Foi distinguido pelo governo australiano com a Ordem da Austrália.

Após a condecoração ser anunciada na Imprensa, foi parabenizado por dezenas de individualidades de renome através de emails, telefone e cartas. Condecorado por Portugal,  Timor-Leste e Austrália, Carlos Pereira de Lemos é responsável por um consulado honorário que presta serviço a uma comunidade de cerca de 18 mil pessoas.

A Ordem da Austrália é altamente significativa nesse mesmo país, uma vez que a seleção é rigorosa. Uma Comissão investiga em detalhe a vida da pessoa e só depois o Chefe de Estado aprova ou rejeita. É uma ordem de cavalaria estabelecida por Elizabeth II do Reino Unido, Monarca da Austrália, com o propósito de reconhecimento aos cidadãos australianos e outras pessoas por feitos ou serviços beneméritos.

De realçar que, também, o Município de Melgaço distinguiu Carlos Pereira de Lemos durante a cerimónia de atribuição das Medalhas de Mérito, inserida no Melgaço em Festa, em 2017, com a medalha de Cidadão de Mérito.

COMEÇOU A TRABALHAR AOS 12 ANOS

Até que idade viveu na sua terra natal e o que o levou para outras paragens?

Nasci em Melgaço, mais ainda criança fui viver em Cousso onde frequentei a escola primária até à 3ª classe. Comecei a trabalhar quando tinha 12 anos, numa lojinha em Cubalhão, que o padre Marques, pároco daquela freguesia, estabeleceu para fornecer produtos aos operários que trabalhavam na construção da estrada que ligava Pomares a Castro Laboreiro e Peneda.

Depois de a estrada avançar, a loja tornou-se desnecessária e eu obtive trabalho num café pertencente ao bem conhecido comerciante Hilário Gonçalves. A seguir fui indo para o sul; Monção foi a próxima paragem, tendo trabalhado no Bar Mané.

Foi em Monção que se foi abrindo o horizonte, devido, talvez, à minha obsessão em observar as partidas e chegadas dos comboios. E quando tinha uns 14 anos meti-me num e parti para Lisboa. Nesta cidade conhecia o melgacense Gaspar Passos de Almeida, que era dono do English Bar, no Cais do Sodré. Ele arranjou-me vários empregos, em casa particular e cafés, em Lisboa e Costa da Caparica, mas eu senti o desejo de mudar de vida e fui para às Minas de Panasqueira, onde minha mãe trabalhava. Como ajudante de um topógrafo. Quando regressei a Lisboa consegui trabalho na Direção-Geral dos Serviços Hidráulicos, numa Brigada de Estudos Marítimos que estava a estudar a baía de Cascais. Aqui relacionei-me com jovens da minha idade, que pertenciam à elite social daqueles tempos. Foi aqui que se tornou mais evidente que eu precisava de estudar para ir mais longe. Quando tinha cerca de 19 anos, fiz a 4a classe, sem ninguém saber….

A próxima paragem foi a Póvoa de Varzim, onde também era necessário fazer estudos marítimos. Foi aqui onde atingi talvez um dos pontos altos da minha vida, fiz o primeiro e segundo ciclos do liceu num ano. Então já me foi possível concorrer para topógrafo em concurso público. Fui promovido. Em 1953, quando tinha 26 anos, fui para Moçambique, como topógrafo de 1a classe. Mas, ao fim de três anos, adoeci e como a medicina tropical estava mais avançada na África do Sul, resolvi ir para aquele país onde também procurei satisfazer a minha ambição de obter educação universitária. Não conclui porque as minhas economias foram secando.

Em 1960 fui para Timor, como topógrafo-chefe da Brigada de Portos. Em 1961 casei com a Molly, que conheci na Universidade de Natal (África do Sul). Para a sua tese de mestrado ela fez um estudo das Zulus, usando as teorias de Piaget. Um professor catedrático da Universidade de Canberra teve conhecimento dele, contactou-a e a universidade ofereceu-lhe uma bolsa de estudo para fazer o doutoramento (PhD), com a condição de replicar o estudo com aborígenes da Austrália. E foi assim que fomos para lá em 1963, Entretanto, completei a licenciatura em ciências políticas e sociologia, tendo lecionado nas universidades de Monash e RMIT. Fui ainda professor liceal.

QUEM TIROU O COMBOIO DE MONÇÃO DEVIA SER ‘ENCARCERADO’

Qual a relação que, ao longo do tempo, tem mantido com Melgaço? Como tem observado a evolução deste concelho?

Durante o período que vivi em Portugal fiz muitas visitas a Melgaço e à Gave, onde a mãe passou a viver. Mas depois de ir para Moçambique, as visitas foram mais raras.

O que posso dizer é que desde que parti de Melgaço, cerca de 1940, as mudanças são enormes. Basta dizer que Cousso e Gave não tinham acesso por estrada, lembro-me de ir de Pomares para a Gave a cavalo de um burro. Não havia água corrente nas casas, nem eletricidade. Na Gave existia um único telefone, numa lojinha.

Apesar da distância, tenho mantido contacto com Melgaço e as aldeias onde vivi, através de familiares e das muitas visitas que tenho feito ao longo dos anos. Uma das fontes é também o jornal A Voz de Melgaço.

Quanto à evolução de Melgaço, é sem dúvida mais atraente e mais elegante do que era nos meus dias de jovem. O que é triste notar é que a população vai envelhecendo, porque os jovens vão pelo mundo fora à procura do ganha-pão. Um dos problemas de Melgaço é a distância e a falta de transportes públicos. Neste contexto, é de lamentar que os governantes tenham parado os comboios em Valença. Ao contrário, se tivessem visão, a linha férrea devia ter ido de Monção até S. Gregório, o que teria permitido o desenvolvimento do extremo norte do país. Quem retirou os comboios de Monção devia ser encarcerado. Mas nem tudo é negativo. O Alvarinho e o Fumeiro ajudam a esquecer o resto.

PORTUGUESES DESCOBRIRAM A AUSTRÁLIA

Fale-nos um pouco do que foi a sua vida pública e a relação com a comunidade migrante?

Estive sempre muito envolvido em atividades comunitárias. A minha maior contribuição ocorreu nos anos de 1970 a 1980 quando chegaram milhares de portugueses à Austrália e verifiquei que nada existia para dar corpo e alma ao que devia ser uma comunidade com identidade própria. Comecei por criar uma escola em 1972 para crianças, filhos de emigrantes. Em 1976 criei um programa de língua portuguesa do qual fui diretor e locutor até 1984. Ao mesmo tempo, estabeleci um ‘Grupo Comunitário Português’, de que fui presidente o qual, em colaboração com a Capelania, organizou piqueniques, exibições de filmes portugueses e outras atividades, tendo também publicado uma revista com notícias locais.

Uma outra questão é a da descoberta da Austrália, que pertence aos portugueses. Entre 1840 e 1890 foram vistos e reportados os restos de um barco, no topo de umas dunas, que lá encalhou, perto da cidade de Warrnambool, a 260 kms a sudoeste de Melbourne. A descrição que foi feita coincide com a construção das caravelas portuguesas e presume-se que a caravela teria pertencido a uma flotilha comandada por Cristóvão de Mendonça que por lá navegou em 1522.

Embora os restos não tenham sido encontrados, o assunto tem tido bastante publicitado na Austrália. Aproveitando isso, transformei Warrnambool numa espécie de Meca Portuguesa nos Antípodas. Consegui a réplica de um Padrão, que lá foi erigido em 1990, e obtive os bustos em bronze de Vasco da Gama e Infante D. Henrique, que foram colocados ao lado do Padrão, em 1999. Em 1991 estabeleci, naquele local, o Festival Português que todos os anos lá junta centenas de portugueses. Organizei também um Acordo de Cooperação entre a cidade de Warrnambool e Lagos, no Algarve, sabendo-se que muitas caravelas partiram de Lagos. Pela minha colaboração nesta área, Warrnambool prestou-me várias homenagens; a mais notável foi darem o meu nome a uma rua da cidade, a ‘DELEMOS COURT’.

O que representam, para si, estas homenagens?

A Comenda da Ordem de Mérito, que me foi entregue pessoalmente pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, em Melbourne, em 2002, na presença de mais de 600 portuguesa, e altas individualidades, foi sem dúvida um grande momento da minha vida. Depois, em 2016, também me deu grande satisfação receber o convite do Presidente de Timor para lá ir e receber a Ordem de Timor Leste. Momentos inesquecíveis, mas o reconhecimento foi merecido porque assisti muitos timorenses na Austrália durante a ocupação pela Indonésia e, mais tarde, como cônsul, considerando que muitos timorenses têm a cidadania portuguesa.

Ser ‘Cidadão de Mérito’ de Melgaço, honra concedida em 2017, tem um sabor especial, por vir da terra onde nasci. Se é certo que pouco tenho contribuído para a vila, devido à ausência, o presidente da Câmara tem-me tratado com distinção; falou da satisfação em saber que um melgacense se distinguiu noutras longínquas paragens.

Quanto à Ordem da Austrália, tem um significado especial pela maneira como é concedida. Não é um embaixador, ministro ou chefe de Estado que decide. Qualquer pessoa pode propor a condecoração, para qualquer cidadã ou cidadão, e sugerir um mínimo de três pessoas ligadas à sua atividade que possam fornecer testemunhos ao Conselho da Ordem. E é esta organização, independente do Governo, que depois, exaustivamente, investiga o mérito da pessoa proposta. No meu caso, além de serviços prestados à comunidade portuguesa, foi também considerado o meu trabalho de 20 anos como secretário honorário do Corpo Consular de Melbourne, onde existem mais de 70 consulados, as minhas atividades relacionadas com a cidade de Warrnambool  e a minha contribuição à sociedade multicultural da Austrália. //

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