Melgaço volta a ter rancho folclórico

0
Melgaço volta a ter rancho folclórico

Melgaço volta a ter rancho folclórico. Mais de meia dúzia de anos após o desaparecimento do folclore em Melgaço, com o rancho de Paderne, anuncia-se, agora, a apresentação de um novo grupo, abrangendo todo o concelho. Sedeado nas instalações da Casa do Povo, na sede do concelho, tem prevista a sua apresentação em agosto próximo.

A par dos ensaios, tem-se registado um trabalho de investigação no sentido de conferir autenticidade aos trajes e cantares do grupo. Fernando Pereira e Marina Gonçalves são as faces mais visíveis deste projeto que envolve, ainda, a colaboração do antropólogo Álvaro Campelo. Foi com eles que conversamos.

‘QUE NÃO SEJA APENAS ETNOGRÁFICO’

Fernando Pereira é dirigente da Casa do Povo de Melgaço e conta-nos como surgiu o projeto.

Estava com a Marina a fazer o planeamento de atividades e na conversa concluímos que tínhamos de fazer algo para que, em Melgaço, também surgisse um grupo folclórico. Era vergonhoso, em parte, por ser o único concelho do Alto Minho sem um único rancho. E não tinha a ver com a densidade populacional. Tem a ver com a falta de bairrismo, de interesse pelo folclore. Há concelhos tão pequenos como o nosso que têm vários ranchos” – observa.

E garante: Não queremos ser nem melhores, nem piores que os outros. Vamos tentar ser um grupo diferente dos outros. Na altura falamos com o Dr. Álvaro Campelo para nos ajudar na parte da pesquisa. Combinamos uma reunião. Não queremos que o grupo seja só etnográfico, mas vá buscar as raízes do concelho, do monte à ribeira. Começamos a fazer uma pesquisa, já vai com dois anos, e têm surgido coisas novas.  Além das entrevistas no terreno, nomeadamente com as pessoas mais idosas, temos também a parte das imagens, das fotos antigas. Por causa dos trajes. Há coisas que se conseguiram passar de boca em boca, mas as imagens também ajudam muito. A forma de vestir, sobretudo do início do séc. XX.”

Uma pesquisa em que a colaboração tem sido essencial.

“A pesquisa é feita pelo Dr. Alvaro Campelo, mas também tenho ajudado, há a colaboração de algumas pessoas da Junta de Freguiesia de Castro Laboreiro. No museu local têm os fatos antigos. Lá em cima, talvez por, na altura, ser uma comunidade mais fechada, conseguirem manter mais tempo as tradições, os trajes e os costumes. E as danças. Algumas só há em Castro Laboreiro.”

Fernando Pereira garante que há danças só de Melgaço e que o grupo abrangerá todo o território concelhio.

“Depois temos algumas pessoas que nos ajudaram a nível de informação, tanto de cantigas antigas, como de imagens.

Posso citar três que nos têm ajudado muito: o professor Valter Alves (que tem um blogue); a senhora que é sobrinha do Manuel Alves de San Payo, o melgacense que foi o fotógrafo oficial do Salazar e que tem grande espólio, mesmo a nível de filmagens, de meados do século passado; e a artesã Rosa Maria, de Prado, que já começou a fazer os trajes e também tem muito material que vamos utilizar, além de pesquisa que fez a nível do traje antigos. São pessoas que nos têm ajudado muito.”

DESDE HÁ TRÊS ANOS

O trabalho de pesquisa dura há já perto de três anos e os ensaios do grupo, com cerca de 30 pessoas, decorrem desde outubro último. Também já estão a ser onfecionados, pela Rosa Maria, os fatos. A Câmara Municipal tem apoiado a nível de pesquisa e, para o traje, existe uma candidatura da Casa do Povo de Melgaço (a que o rancho pertence).

Os integrantes do grupo são de todo o concelho, designadamente de Castro Laboreiro, Gave, Alvaredo, Paderne, Chaviães e outras freguesias. A pessoas mais nova tem à volta de 10 anos e os mais velhos andam pelos 55/60 anos.

“Não queremos ser uma cópia do que já existe. Não vamos estar aqui em Melgaço a usar os trajes, por exemplo, que se usam em Viana do Castelo ou em Caminha. Sei que quando o rancho se apresentar, se calhar, vão dizer que tem roupas muito escuras. Mas era isso que se usava aqui. Ainda recentemente a senhora que é sobrinha do San Payo nos mostrou uma foto de uma tia dela com um avental (leras) que era feito de lã de ovelha castanha e branca, às riscas. Era típico daqui.Nas coregrafias, temos duas danças que são de cá, o Saloio e a Dança do S (homem dança com duas mulheres). Depois há o Vira, Cana Verde, a Chula, o Malhão, a Rosinha… E vamos tentar introduzir duas coisas que vão ser novidade. Quando for a apresentação se saberá”.

Todavia, para “aguçar” o apetite dos nossos leitores e a insistência nossa, Fernando Pereira foi-nos dizendo que está a ser tentado “ introduzir um instrumento que, creio, não há em nenhum rancho aqui no Minho…  tocado cá em Melgaço”  e, também, algo que já um grupo minhoto já faz, o cantar à capela. “O dr. Campelo quer aqui e tem razão: antigamente as pessoas nos campos cantavam, não andavam a tocar concertina.”

Entre os instrumentos que usam, estão duas concertinas, acordeão, reco reco, bombo, ferrinhos e o instrumento que, como acima se disse, está a tentar ser introduzido.  O ensaiador é José Rodrigues, de Castro Laboreiro.

REGISTO EM AUDIO E LIVRO

Fernando Pereira sublinha, ainda, a importância da colaboração de Álvaro Campelo e do desejo que tudo fique registado a nível de áudio e em livro. “Para mais tarde, alguém que queira pegar nisto já tem uma base de dados feita. Não deixar que fique esquecido no tempo”.

Inicialmente, os ensaios decorriam semanalmente. Agora são já quinzenais, à sexta-feira à noite, na Casa do Povo. “Ensaiamos a coreografia, todo do espetáculo, prepararamos tudo para quando chegar ao mês de agosto fazer a apresentação que, em princípio, será no dia 16, na Festa do Emigrante, aqui na vila de Melgaço.”

Quanto ao nome para o rancho, “estamos com a ideia de Grupo Etnográfico da Casa do Povo de Melgaço, mas ainda não sabemos se vamos introduzir algum nome diferente.”

Fernando Pereira, a terminar, quis ainda “agradecer às pessoas que têm colaborado, porque não é fácil. Dá muito trabalho. É difícil, às vezes, chegar porque não querem compromisso. Acredito que, depois do rancho estar formado e estar a atuar, possam aparecer mais elementos. Temos muita dificuldade em arranjar, sobretudo, homens. “

HERANÇA DOS MELGACENSES

Álvaro Campelo, professor de Antropologia Social e Antropologia do Desenvolvimento na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, tem estado ligado, de forma muito próxima, à fundação deste rancho.

Como surgiu essa colaboração, há quanto tempo e, em concreto, como se está a processar?

A minha colaboração iniciou-se com o contato estabelecido pelo sr. presidente da Junta e da Casa do Povo de Melgaço, Fernando Pereira. Junto com outros melgacenses implicados no processo, como a Drª Isabel Domingues e o Dr. Eduardo, ambos a trabalhar no Município, fui informado do interessa da minha colaboração, na qualidade de antropólogo.

Este trabalho decorre há certa de dois anos e nunca teve uma urgência na finalização, dado ser intenção dos promotores fazer um trabalho que tivesse o melhor resultado possível. A não existência, ao momento, de qualquer grupo etnográfico no concelho de Melgaço incentivou-os a tomar esta iniciativa. O objetivo era concretizar num grupo o património folclórico do concelho, na diversidade das suas expressões artísticas: dança, cantares e trajes.

O trabalho tem decorrido como o previsto, na recolha de informação e posterior aplicação no grupo.

Que estudos efetuou ou está a efetuar com vista a que os trajes, danças e cantares estejam realmente identificados com os costumes e as tradições melgacenses?

Num primeiro momento fez-se um trabalho de pesquisa para recolher o máximo de informação sobre este património cultural. Era óbvio, desde o início, que estamos a trabalhar um património em dificuldades de transmissão. Por um lado, como todos os grupos associados ao folclore, há um interesse por trajes que, na sua maioria, já não existem. Há, assim, uma recriação dos trajes aqui existentes desde o início até bem dentro do século XX. Assumimos este processo de musealização do traje, já não colocado num museu, mas exibido em performances de dança e mostra pública. Trata-se de uma herança de todos os melgacenses e não um saudosismo doentio de uma época e vida muito difíceis para a maior parte da população. Por outro lado, queremos registar trajes, danças e cantares que ainda encontramos, hoje, na pesquisa de terreno. Apesar de um mundo rural em profunda transformação, onde estas manifestações só persistem em grupos e pessoas que sofreram essa transformação, resistindo ou integrando os dois mundos, numa hibridação desafiadora, o certo é que este mundo ainda faz parte da mundivisão de muitas pessoas.

Levantou-se informação bibliográfica e iconográfica, fez-se gravação de entrevistas junto de pessoas de diferentes freguesias, convocaram-se pessoas para encontros, como aconteceu em Castro Laboreiro, para cantarem e dançarem. Se nas primeiras entrevistas havia muitas hesitações e dificuldades, com o tempo elas foram diminuindo. Os encontros mantiveram uma dinâmica impressionante, com pessoas vestidas em trajes tradicionais e sugerindo cantigas e danças.

O interesse era conjugar expressões culturais do conjunto do concelho, desde as populações residentes na margem do rio Minho às residentes na parte mais montanhosa. As diferenças nos trajes é notória, mas é na variedade e na conjugação entre o mais rústico e o mais sofisticado que está a riqueza do património de Melgaço.

RANCHOS NÃO REPRODUZIAM MICRO CONTEXTOS

Quais as princjpais dificuldades com que se tem deparado para o desenvolvimento do seu trabalho?

As maiores dificuldades estiveram na recolha oral das cantigas. Foi preciso regressar mais do que uma vez aos entrevistados para eles reavivarem a memória oral e as vivências de algumas danças. Por outro lado, muitos dos testemunhos eram ricos, pois conseguiam contextualizar as vivências e os trajes.

Uma dificuldade significativa foi o de se associar o folclore a uma iconografia muito marcada pelos ‘ranchos’ minhotos já estabelecidos. Ou seja, existia a memória de ranchos, entretanto extintos, que reproduziam os trajes e modas de outros contextos culturais, que não os micro contextos locais.

Havia até uma ideia de folclore construída na experiência da emigração e reproduzida numa das freguesias do concelho. É preciso lembrar que este trabalho tem de ser feito pelas pessoas, pelas suas experiências, pela forma como olham para a tradição herdada, pois a própria palavra ‘tradição’ é muito problemática, dado as pessoas terem para com ela uma reverência e uma interpretação que os impede de viver o seu património de forma aberta e criativa, ou seja, capaz de nela integrar o seu presente e a dinâmica das suas vidas.

Difícil é o próprio processo de constituição do grupo. Felizmente temos um ensaiador com saber e vontade, amando o que está afazer. Difícil também é ter um grupo de músicos, instrumentistas, etc., pois todos têm as suas vidas e trabalhos… Temos também a intenção de valorizar o património das cantigas populares, as expressões do cantar nos contextos mais variados, desde os trabalhos do campo às romarias, etc.

Até quando está previsto que a sua colaboração seja prestada?

A minha colaboração é voluntária e livre de qualquer compromisso. Por isso ela existirá enquanto houver interesse das duas partes.

Acha que, no Alto Minho, a essência das danças e cantares, da etnografia e etnologia, é respeitada ou há muitas cedências para a “turista agradar”?

O Alto Minho tem os mesmos problemas de outras regiões, apesar de esta ser uma região extremamente rica neste tipo de património, pela variedade e especificidade da sua vivência. Num primeiro momento, o processo de folclorização sofreu de uma rigidez formal (e até uma quase uniformização), a nível de dança e traje, imposta por uma elite. Esta elite julgava compreender e dominar a cultura do povo, fixando-a. Este processo nasceu da necessidade de exibição da pureza do povo e sua manipulação em paradas e exibições públicas.

Com o passar do tempo um outro olhar foi dispensado ao folclore e ao património oral e performativo das sociedades ditas rurais. No momento em que elas estão a desaparecer, a consciência de recolher e divulgar o património cultural por elas transmitido foi visto como uma urgência. Mas também foi esta que esteve nas primeiras recolhas! Importa valorizar o estudo e preservação deste património, que pode e deve ser exibido em múltiplos contextos. O que não se pode é fazer uso despudorado deste património nem fazer sobre ele um processo de apropriação, fixação, de forma a dominar a própria experiência da sua prática, como se ela existisse agora como no passado. Também dizer que nunca estaremos perante uma expressão cultural do povo, como ele a viveu aquando das épocas onde essas expressões não eram do interesse museológico ou patrimonialista, mas vivências quotidianas. Temos de assumir que o que fazemos é uma apropriação e uma manipulação de um património herdado de uma época que não existe mais!

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here