Miguel Alves :: Se soubesse que o mundo ia acabar, mas ainda tinha alguns minutos … ia para Moledo

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Miguel Alves é, aos 42 anos de idade, uma das figuras públicas mais carismáticas do Alto Minho. Preside, desde setembro de 2013, à Câmara de Caminha.

Após uma carreira na advocacia, foi, a partir de 2006, adjunto de António Costa, primeiro no Ministério da Administração Interna e, posteriormente, na Câmara Municipal de Lisboa.

Já este ano, foi reeleito líder distrital de Viana do Castelo do PS. Também foi designado para liderar a Comissão Distrital de Proteção Civil do Distrito de Viana do Castelo e, no último mês, para o Conselho Regional do Norte, órgão consultivo da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte.

Foi num dia de sol e na terra que o viu crescer que esteve com a VALE MAIS. Numa conversa fluída, sem hesitações em verbalizar ideias e sentimentos.

LEVAR PROBLEMAS PARA CASA

Aos 42 anos de idade está a conseguir fazer mesmo o que queria?

Não consigo fazer tudo quanto queria. Temos de estabelecer prioridades. Ponho tudo aquilo que sou, o meu esforço, dedicação e inteligência ao serviço da Câmara … sou daqueles que leva os problemas para casa. Não é muito saudável… A família acaba sempre por ficar numa segunda linha.

Tenho a felicidade de ter aqui os meus pais, a minha mulher e, muito perto, os meus sogros. Isso ajuda-me a ter um último reduto que me suporta de forma substantiva. Mas obviamente que eles são os mais afetados. A minha mulher é discreta, é autónoma profissional e socialmente e acaba-se por divergir em alguns fins de semana em que, praticamente, não estamos juntos. Mas ela sabe que parte do que sou, da minha felicidade, tem a ver com esta partilha comunitária feita, no passado, através do associativismo, e, agora, através da política.

Esta exposição pública fez com que perdesse ou ganhasse amigos?

Trouxe-me mais. Não misturo as coisas e as pessoas não o têm feito. Ser amigo não tem a ver com as opções políticas ou com o facto de estarmos menos presentes. Os de infância são, essencialmente, de Moledo, mas tenho a felicidade de os ter ligados a diferentes momentos da minha vida. E tenho também a felicidade de viver neste paraíso, que é o concelho de Caminha, para onde já muitos deles também vieram e compraram casa. Estão cá todos os anos. Tenho-os de todo o país, alguns deles estão no estrangeiro, mas vêm aqui no verão.

MADRINHA DE GUERRA DO PAI

Nasceu em Lisboa…

Sim… a minha mãe é aqui de Moledo e o meu pai é de Vale da Carreira, Proença a Nova (distrito de Castelo Branco). Estava no Ultramar e a minha mãe conheceu-o, como muitas portuguesas os seus futuros maridos, através da correspondência como madrinha de guerra.

No regresso do meu pai, encontraram-se em Lisboa, ainda antes do 25 de Abril de 1974. Casaram em setembro de 1974, aqui em Moledo, em pleno Verão Quente. Depois foram para Lisboa trabalhar. O meu pai como bancário e a minha mãe ligada à função pública. Estiveram lá durante cinco anos. Eu até aos quatro anos, depois viemos para Moledo.

Moledo é ainda hoje, é apontado, juntamente com o Vale do Lobo e o Guincho, o local onde as pessoas notáveis e do chamado jet set continuam a passar férias. Que recordações tem de Moledo desses tempos?

Sempre foi isso… Obviamente que o próprio país evoluiu. Já não há uma dicotomia… Há 20/30 anos, apenas uma faixa muito curta da população portuguesa passava férias. Mais endinheirada, com mais oportunidades e, desse ponto de vista, ainda acabávamos por receber em Moledo um conjunto de famílias ligadas sobretudo ao Norte e ao Porto. Lembra-me de ser criança e adolescente e de haver alguma fricção entre aqueles que eram de Moledo e os que vinham do Porto. Qualquer rosto estranho, dizia-se, era uma pessoa do Porto… o turista era alguém do Porto!

Isso hoje está mais amenizado. Também as pessoas que aqui veem passar férias já não o fazem só naquele período do verão. Têm casa aqui, já começam a ser moledenses. Creio que a aldeia também se construiu um pouco dessa miscigenação.

Então… como foi a sua infância? Que sonhava ser?

Foi muito feliz. Mas não me recordo de ter um sonho de quando fosse grande. Lembro-me bem do dia em que, com os meus pais, regressamos de vez a Moledo. Viemos de comboio, desde Lisboa, eu trazia um porta-aviões gigante, um brinquedo que a empregada de nossa casa, a Etelvina, me tinha dado em despedida e, ao chegar, a minha primeira preocupação (um miúdo de 4 anos não estava a perceber exatamente que estava a mudar de vida) foi pegar nele e levá-lo para o tanque da minha avó.

Na escola primária, em Moledo, só tínhamos aulas à tarde; as manhãs eram muito libertas. O meu avô trabalhava na construção civil, foi um dos homens que fez o paredão de Moledo. Os meus pais trabalhavam em Viana e eu ia, meses a fio, com a minha avô para a praia, para o campo ou ao monte apanhar mato.

E as férias?

As férias passava-a aqui. Os meus pais não tinham muito dinheiro, íamos só à terra do meu pai. Sou o mais velho de três irmãos, tínhamos uma vida comedida.

SEM INTERNETES E CANTAR NA MISSA

E o tempo corria lentamente! 

Isso nem era tema. No tempo de escola, levantava-me e tinha toda a manhã para fazer alguns trabalhos de casa e estar com a minha avó. Depois almoçava e ia para a escola. No fim das aulas, tínhamos sempre a expetativa da chegada dos pais, que trabalhavam até às 6 ou 7 da tarde.

Nas férias grandes, estávamos três meses ali na aldeia à vontade, podíamos andar na rua, sair, não havia problemas, não havia internetes, não havia pressa, não havia clicks, era tudo muito mais suave, …. Só comecei a ter um pouco mais a angústia do tempo quando vim estudar para o ciclo, no 5º ano, em Caminha. Começa-se a ter horários, aulas em determinados momentos, ter que apanhar o autocarro.

E a adolescência e juventude?

Muito vivida, mas não rebelde. Tinha causas, isso sim. Estudei até ao 9º ano em Caminha, depois até ao 12º em Viana (Secundária de Sta Maria Maior). Era muito focado em Moledo, onde vivia o conjunto dos meus amigos também, fazia parte do grupo de jovens ligado à Paróquia, cantava na missa e tínhamos uma vivência muito própria num grupo muito alargado que fazia ‘30 por uma linha’.

É crente?

Acredito em Deus, em Cristo ressuscitado e que há uma entidade que nos protege. Mas acredito também que, aquilo que queremos, nos acontece. Sobretudo aquilo que fazemos por obter na nossa vida. Sou daqueles que acreditam, mas que não deita nem as culpas, nem a responsabilidade, nem para os outros, nem para Deus.

Fazemos o nosso próprio caminho, acreditando que existe uma força maior e que essa força é a de Cristo ressuscitado.

Depois foi para a Universidade de Coimbra. Custou a mudança?

Não custou nada. Estava mortinho por levantar voo. Mas fui muito feliz enquanto estive aqui, até aos 18 anos. Diverti-me, aproveitei o território, tive os meus pequenos e grandes romances…

Com que idade teve a primeira namorada?

Não me recordo. Depois é preciso saber o que é a 1ª namorada…

Então… e o 1º beijo?

Devia ser miúdo, estava aqui em Caminha; mas aos 15/16 anos é que tive a primeira relação mais séria.

E em Coimbra também fui muito feliz. Não sei se é um pouco parvo dizer se foram os melhores anos da minha vida. Do ponto de vista escolar nunca fui um aluno brilhante, mas tive sempre notas bastante razoáveis.

Na vivência associativa tive muitos desafios, envolvi-me em muita coisa e cheguei a ser presidente da assembleia magna da Associação Académica de Coimbra. Foi nessa altura que conheci a minha mulher.

CONHECER A MULHER NO COMBOIO

Como a conheceu, então?

Na estação da Campanhã, no primeiro ano da Faculdade, tinha 18 anos. Fui apresentado por um colega do Porto. A Filipa estudou comigo. Vínhamos de Coimbra para cima numa sexta-feira e o colega disse: ‘vai aqui uma colega de Monção que vai contigo’. Ficamos amigos rapidamente, mas o namoro só aconteceu quando estávamos no 3º ano da faculdade.

Acabamos por ter uma vivência muito próxima, eu era de Moledo, ela de Monção e passava férias em V. P. Âncora. Desde que era bebé. É curioso, estando a família dela nesta vila e eu em Moledo, nunca nos cruzamos nos primeiros 18 anos das nossas vidas.

Foi em 1996 que começamos a namorar. A Filipa é conservadora do registo civil e predial, já esteve que trabalhar em Guimarães, Maia, Arraiolos, Cascais, Paredes de Coura e, neste momento, está em Esposende. As nossas vidas levaram-nos para vários sítios e só em 2008 é que casamos em Monção.

O que o comove?

Ainda recentemente estive numa peça de teatro em V. P. Âncora, onde participaram pessoas da Universidade Sénior de Caminha. As atrizes e os atores tinham que dizer um texto sobe si próprios. Houve uma senhora, a Maria da Luz, que escreveu e declamou um poema sobre ela e o seu marido que já partiu. Ela tem 84 anos, falou sobre ele e a saudade. Isso tocou-me e emocionou-me.

O que me toca são as pessoas. Quando saem de si próprias. Mas também já tive, infelizmente, ocasiões… como nos incêndios grandes que, há dois anos, atingiram o concelho. Em Riba de Âncora, quando estava a fazer tudo que sabia, senti que, mesmo isso, podia ser insuficiente para salvar casas e pessoas. Houve um instante em que não soube o que fazer e isso tocou-me muito: a impotência.

Há muitas coisas que me emocionam, as músicas, os filmes, as pessoas, os meus sobrinhos, os meus pais, muitas coisas…

Como se define, então?

Um homem normal e muito exigente consigo mesmo. Isso prejudica-me, por vezes. Defino-me muito por uma frase que o António Variações cantou: “só estou bem onde não estou, só quero ir onde não vou“. Isso acontece do ponto de vista de atingir os objetivos.

Ao contrário da maior parte dos meus colegas (o que seria até saudável), os momentos de vitória, de inauguração, de concretização, para mim, não são o topo do processo. Quando atinjo uma concretização, esse é já o momento zero do objetivo seguinte.

Sou leal, gosto de pensar que as pessoas me recordarão com um bom amigo, uma boa pessoa, gosto de ler, de música, gosto de prosseguir caminhos que sei que ajudam e tornam outros que me acompanham mais felizes. Gosto mais de dar do que receber. Às vezes, tenho até de fingir algum prazer na prenda que me dão porque o meu prazer está em construir e procurar a prenda para oferecer.

Mas também tenho muitos defeitos…

MÁQUINA DE CONSTRUIR OBJETIVOS

E qual é o maior?

Não sei … mas tenho algum mau feitio em determinadas situações com as pessoas que mais gosto. Extravaso rapidamente. Outras vezes também, se calhar, confio demasiado em outras pessoas. De resto, acho que o meu maior defeito é essa incapacidade de viver o pleno de felicidade nas concretizações. Sou uma máquina de construir objetivos. Inauguro uma obra, já estou a pensar que é necessário fazer a obra seguinte. Consigo resolver o problema de uma pessoa e já estou a pensar na pessoa seguinte, consigo pagar uma divida e estou a pensar na divida seguinte. E transporto isso também para a minha vida pessoal…

VOLTAR À ‘COMPETIÇÃO’

Como gosta de ocupar os seus tempos livres?

Eu agora tenho menos tempo … mas já fiz muitas coisas. Pratiquei desporto, sobretudo corridas populares, meias maratonas e, quando vim para a Câmara, infelizmente, deixei de o fazer. Este ano meti uma resolução na cabeça, na passagem de ano, que iria voltar a fazer desporto. Espero, em breve, voltar à “competição” (correr e andar de bicicleta).

Não consigo, tenho mesmo alguma incapacidade (não sei se é psicológica), em me deitar sem ler. Leio livros (no papel, sou tradicionalista). Gosto de acompanhar os autores portugueses e estrangeiros, mas tendo uma paixão absolutamente louca pelos russos. Gosto de  Dostoiévsk, Tolstoi, Turgueniev, Gorki… na literatura consigo uma fuga e um escape durante aquele tempo… e aquela forma russa de viver as coisas em que as tragédias são muito tragédia e as alegrias são muito vividas, tudo é levado ao exagero e há um romantismo heroico associado, parecendo tudo no limite….

E o cinema?

Vou à procura de tudo. Há um realizador que me atrai muito e não concordo com quase nada do que ele pensa politicamente. A plasticidade do seu cinema, a forma simples de contar histórias e vivências atrai-me muito em Clint Eastwood. Dos mais velhos, é impossível fugir ao John Ford. Mas devo referir ainda Paul Thomas Anderson, o Stanley Kubric, o Milos Fordman (recentemente falecido) e, até, o Steven Spielberg (muito associado ao imaginário do fantástico), o Tim Burton e o Ridley Scott (que consegue ser eficaz no que tem para fazer). Há varias janelas onde gosto de estar. Depende é do humor.

FAMÍLIA DE MÚSICOS

E na música?

Aprendi alguma música, os meus tios de Moledo são todos músicos, tiveram bandas e eu próprio, já universitário, era guitarrista e tocava música pimba nas festas e romarias de verão, no conjunto Portugal. Éramos a banda residente da Casa da Anta, em Lanhelas. Toquei viola no coro da igreja de Moledo e ainda hoje, todos os anos, me convidam para cantar os salmos  do Sábado de Aleluia.

Tenho uma ligação muito forte à música. Isso teve consequências no Festival de Vilar de Mouros, é algo que eu sempre quis recuperar aqui para o concelho. Hoje em dia, ouço, sobretudo, música mais serena. O último disco que comprei – só para ter ideia, porque não ‘roubo’ música na internet – foi o Disco Branco, da Cristina Branco. Tirando os que vi aqui no concelho de Caminha – quando trazemos cá alguém, gosto de acompanhar – o último concerto que vi, foi o dela no Theatro Circo (Braga).

MOLEDO ANTES DO MUNDO ACABAR

Quais os seus locais de eleição?

Tenho a felicidade, aqui no concelho, de ter muitos locais onde estaria bem. Um local de eleição seria Moledo e pode não ser a areia… não ligo só ao verão… gosto muito da praia no inverno. É um local seminal… é como se nos dissessem, de repente, que o mundo ia acabar e temos alguns minutos para nos dirigimos para onde queremos morrer. Iria para a praia de Moledo.

No país gosto de muitos sítios, mas há um onde tenho uma ligação romântica, digamos, não pela génese do amor, mas pela maneira de ser e pelo que significa. A aldeia de Monsaraz, no Alentejo. No mundo, de tudo que já puder ver, tenho um especial gosto por Paris. Uma cidade cosmopolista, vivida… e foi onde pedi em casamento a minha mulher.

Uma mensagem a terminar?

Por detrás de um presidente de Câmara e de um político há uma pessoa. Que tem fortalezas e fragilidades. Dias bons e  maus. Família, nome, percurso, preconceitos, vontades. Sei que há muita crítica – e muita é justa – sobre eles por não olharem para os cidadãos e as comunidades como uma colmeia de pessoas com vivências e problemas próprios. Mas, por um segundo, para que todos possamos ser comunidade, porque esta é feita deste conjunto de pessoas, olhem também para os agentes políticos como pessoas. Que tentam ser cada vez melhores. Eu, pelo menos, sinto essa responsabilidade do exercício, da escolha, de defender o território.

Esta entrevista acaba por trazer um pouco isso, o nosso lado mais pessoal; algum está aqui, outro não porque há coisas que são só nossas ou só partilhadas com quem vive connosco. Somos pessoas normais que, se deixam de o ser, por estarem nos cargos, serão anormais. //

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