MIGUEL ÂNGELO na primeira pessoa

0
© EDGAR KEATS

Miguel Ângelo iniciou a sua carreira a solo em 2012, com o álbum “Primeiro”, do qual foi extraído o single de êxito “Precioso”.
Nos primeiros meses de 2014 preparou o seu segundo disco a solo, no ano em que também comemora 30 anos de carreira, desde a edição do primeiro single dos Delfins, “Letras/O Vento Mudou”, em 1984.

Nesse sentido, o artista atua em Vila Nova de Cerveira no dia 8 de agosto, apresentando a tour ‘30 Anos Depois’ que combina novas canções com muitas outras bem conhecidas do público em geral. A Vale mais, aproveitando esta ocasião, esteve à fala com o cantor que nos falou um pouco da região, da música e da sua vida.

#ENTREVISTA

© EDGAR KEATS
© EDGAR KEATS

Vale mais > Qual a sua relação com Cerveira e o Alto Minho?

Miguel Ângelo > A minha relação com o Minho intensificou-se nos últimos anos. Costumo passar alguns dias de férias, em repouso, em Cerveira, familiarmente. E também para a ida anual ao Festival de Paredes de Coura, um dos meus preferidos. Lembro-me que em miúdo visitava algumas vezes Viana do Castelo. O meu pai era artista plástico e tinha amizades com artistas de Viana, onde também expunha. A família da minha mulher tem uma ligação muito forte a Viana e Moledo, onde antepassados viveram e passavam sempre férias. Curiosamente conhecia-a em Lisboa, onde ela vivia.

VM > Costuma vir cá frequentemente? Quais são os seus poisos favoritos?

MÂ > São dias de retiro, para descanso da vida na urbe, mas um salto ao restaurante Andorinhas e uma ida ao bar Barril, já para não falar da Feira dos Sábados, costumam ser frequentes.

VM > A qualidade de vida destas paragens não impede que as pessoas se sintam mais atraídas pelas grandes cidades. Que acha faltar para as pessoas ficarem por cá?

MÂ > Percebo o apelo das grandes cidades, enquanto se é jovem. No entanto, há sempre um regresso mais tarde, não é? Há pouco falei do Festival Paredes de Coura… Eis um bom exemplo de como um grupo de jovens amigos se tornaram empreendedores de algo com paixão que cimentaram na sua terra natal.

VM > Quais as principais riquezas que identifica nesta região?

MÂ > A maior riqueza de todos é a riqueza natural, das terras, das gentes. A preservação da natureza face ao “progresso” é sempre o desafio… Mas a ligação de Cerveira ao mundo das artes é por demais conhecida. Uma visita à Bienal e ao Museu Convento San Payo, do Mestre José Rodrigues, é obrigatório para quem visita.

VM > O que sente um artista de renome nacional quando atua nesta região minhota?

MÂ > Sente-se bem, no meu caso vou-me sentir um pouco “em casa”. Sentimo-nos envolvidos pela beleza natural, logo para começar e depois buscamos a empatia do público. Tive o privilégio de assistir a um dos recitais do maestro António Vitorino de Almeida, há uns anos e lembro-me bem do clima simpático e disponível que se fazia sentir na plateia. Espero encontrar esse ambiente novamente na Cerveira Acústica.

VM > Qual a sua opinião sobre o mundo musical e cultural desta região?

MÂ > É um dos locais onde se percebe que as raízes convivem com o contemporâneo, sem grandes ruturas. E é assim que deve ser, em ambiente de conhecimento e grande liberdade artística.

VM > Com o “fim” das receitas da venda de discos, como é que, hoje em dia, se consegue subsistir só dos espetáculos?

MÂ > Promovendo as digressões com conteúdos interessantes. Por exemplo, este espetáculo em Cerveira vive muito disso. Ao “despirmos” as canções de instrumentos e ruído e juntando-lhes conversas das nossas vidas, em jeito de contadores de histórias, conseguimos criar um espetáculo mais intimista e bem diferente do habitual. Tornamo-nos mais próximos e isso pode ser um fator de interesse para o público.

VM > Sabemos que também tem estado ligado à arte dramática, ora escrevendo, ora interpretando peças de teatro, ora compondo músicas. É uma atividade complementar ou, mesmo, um modo de vida?

MÂ > Gosto de complementar a minha vida profissional de músico com outras atividades, que curiosamente surgem normalmente por convite. A escrita e a leitura acompanham-me sempre, em viagens, nos momentos de paragem… De há três anos para cá resolvi lecionar algumas cadeiras ligadas à Produção e Criação Musical, num curso da ETIC, em Lisboa. Isso também me tem aproximado de novos músicos e despertado para outros interesses. Não podemos é parar.

VM > Música, teatro e TV – qual das áreas que lhe dá mais gozo?

MÂ > A música. Sempre foi e acho que sempre será.

VM > Que diferenças identifica entre o norte e sul quando realiza um concerto?

MÂ > O norte é mais frio mas sem dúvida com gentes mais calorosas! A gastronomia também é um fator de peso… Mas Portugal é Portugal em todo o lado, mesmo no seio das Comunidades. Somos um povo que gosta de participar e de se entregar e divertir.

VM > Os jovens ouvem pouca música portuguesa, e o interesse parece reduzir-se. O que se pode fazer?

MÂ > Acho que as rádios têm do seu lado o papel da divulgação. Das locais acho que nenhum artista português se pode queixar. Das FM nacionais, acho que a percentagem de música nacional ainda é pouca, basta irmos a qualquer país europeu para percebermos que lá o destaque é dado aos artistas nacionais. Aqui já houve uma lei (teve de ser) mas o que tenho pena é que a “paixão” esteja cada vez mais afastada das rádios nacionais privadas e o negócio das audiências comande as decisões… Acho que terão de ser as bandas e os artistas a imporem-se em espetáculo, nos Festivais de Verão, nas festas de estudantes, para criarem proximidade com o público jovem. Sim, porque o talento está lá. É uma questão de tempo, uma questão de sucessão de gerações.

JCS

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here