MISTER assim não vais longe

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MISTER assim não vais longe

MISTER assim não vais longe. “O futebol é importante, mas há coisas mais importantes na vida. O futebol é, apenas, o futebol! Se tivermos esta determinação nos outros aspectos da nossa sociedade, se vocês se unirem, se tiverem a força e a exigência que têm no futebol, na economia, na saúde, na educação, nós vamos ser um país muito melhor”.

Bruno Lage, treinador de futebol

 

Terminam os diversos campeonatos de futebol, profissionais e amadores, terminam as guerras, termina o Estado de Sítio, termina “a coisa mais importante das coisas menos importantes”. Vencedores vangloriam-se, perdedores lamentam-se. No futuro, a história dos vencedores será a mais elogiada, mais comentada e será também, aquela que perdurará no tempo. “Dos fracos não reza a história” diz-se comummente.

Pois bem, comecei este texto com uma declaração de um treinador de futebol que me fez pensar. Um Homem que, porventura, em pleno festejo da sua maior conquista desportiva, tem a capacidade, lucidez, humildade e grande inteligência de relativizar uma conquista numa modalidade desportiva. Um profissional, que tem como seu “ganha-pão” o futebol, depois de ser campeão consegue transmitir aos seus adeptos, aos adeptos adversários que “vamos ter calma, isto é só desporto. É o meu trabalho, mas no fim de tudo há coisas bem mais importantes na vida”.

Chapeau Bruno Lage.

Que bela maneira de terminar uma época desportiva. Que grande ensinamento. Que lição tática de vida. Noutra cultura, noutra sociedade acredito que muita gente iria parar, refletir e talvez, perceber como se diz tanto em tão poucas palavras. Numa outra sociedade onde a cultura fosse mais elevada e sobretudo mais transversal. Não é o caso da nossa infelizmente.

Bruno Lage não te auguro grande futuro. Ou mudas ou então vais deixar de servir. Ou és como os outros ou então procura outro rumo, outro campeonato, outro país. Onde já se viu achar que o futebol não é assim tão importante. Onde já se viu elogiar os adversários. Onde já se viu dar os parabéns ao adversário na hora da derrota. Não caro senhor treinador, assim não.

Não neste país, onde se valoriza a “chico-espertice”! Que parece inata nos portugueses. Não neste país onde se valoriza mais ficar rico da noite para o dia do que criar uma família baseada em valores e respeito para com os demais. Não neste país onde a cultura pela leitura é inexistente, onde se sabe mais de futebol do que de política, história ou economia. Não neste país onde a classe política é o reflexo daquilo que somos como cidadãos. Não numa sociedade com muita subversão de valores, onde fingimos não ver idosos em pé nos autocarros, onde fingimos não ver peões a atravessar passadeiras, onde fingimos que somos tudo aquilo que não somos. 

Como tão bem dizia Eduardo Prado Coelho: “Como ‘matéria prima’ de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.”

Estas transversalidades das declarações de Bruno Lage deveriam ecoar na eternidade. Terão sido, porventura, o único sinal positivo digno de destaque de uma época desportiva onde imperou a boçalidade. O clima de suspeição é constante numa modalidade que já nada tem de desportiva. Mais parece tratar-se de um negócio cada vez mais rentável para um “punhado de malfeitores” às custas dos ainda crentes que todos os meses pagam as cotas e vão ao estádio esperar e desesperar por uma alegria momentânea que ofusque quem sabe alguma tristeza ou frustração.

“Se em vez de adeptos ferrenhos e fanáticos, quando não violentos, a olhar a TV tivéssemos redução do horário de trabalho para a malta ter tempo e vida decentes e ir jogar com os amigos, que nem se importam de perder, porque estão ali para conviver, eu seria uma grande adepta do futebol. Como espaço de lazer e amizade. Isso seria futebol. Isto que temos hoje é tão só um negócio.”

Raquel Varela, Historiadora

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