No Moinho do Tempo

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No Moinho do Tempo

“Somos uns afortunados o contar com este espacio Crastejo, que é um monumento natural em si mesmo, mágico e surprendente, um autentico tesouro.” 

Manuel Rivero Perez – 2005

Quase a chegar a Castro Laboreiro, quem por Portelinha passa, sobe o olhar a um alto e fica uma espécie de espanto em sobressalto. O que é aquilo, perguntam. Um Castelo? Uma Torre? Um posto de vigia? E, para sentir de perto o que de longe cativa, sobe o viandante curioso,  por aquele curro arriba. Ali se senta e contempla. Se coincide com o pôr-do-sol a tingir mágoas plenas, fica a sensação de algo que nos eleva a outras latitudes.

Na eira do meio pergunta memórias daquele monumento. Nada, mesmo pessoas idosas  a lembrar,  não sobra nada. Um século de vida dura tal construção. Era o Moinho de vento, trazido do Brasil em sonho que se tornou tormento. Afinal, não é a fantasia que fazia o mundo girar? Pela família ainda sobram histórias. O custo da obra, supervisionado por um técnico vindo do Porto, terá ficado pelos 30 contos. Uma fortuna para a época. Um bom investimento na cabeça do sonhador. Ainda por cima, seria porventura, o único Moinho de Vento em toda a região da Peneda-Gerês. Mais fácil a força dos ventos do que a força das águas.

O Moinho nasceu. Paredes fixas e cúpula  giratória. Com um diâmetro de quatorze pessoas de braços abertos a dar-lhe a volta. E velas de pano a girar ao vento. O  engenho, em ferro e carvalho, cedo mostrou rebeldia. – o vento nunca vinha certo e embaralhava tudo – disse a Ti’ Virginia.

Aquilo só funcionou durante dois anos. Moía centeio e milho, quando moía… A última vez que moeu para a família proprietária, levantou-se uma ventania tal que uma das velas se enrodilhou na roupa da Ti’ Maria Antónia que a deixou nudinha como quando veio ao mundo.

O sonhador, Ti’ Domingues Fernandes sentenciou; – Acabou-se o Moinho!! Acabou-se o pesadelo! Alguém ofereceu 50 contos pelo mesmo, mas o orgulho sorriu mais alto e um dos ícones mais desconhecidos de Castro Laboreiro continua na família. Depois foi gerido pelo avô do Ti’ Aurélio até uma altura em que umas pessoas do lugar estavam na mina da Barreira a tratar das águas quando ouviram o Moínho a rugir de louco pela fúria do vento.

E foi o fim… Pelo menos para a moagem e a preocupação de domar os ventos doidos. O que resta do moinho está de vigia. Uma vigilância com cem anos. Tem em frente a Senhora prenha de Anamão e nas suas costas a nascente do rio Trancoso, a nascer ali a seus pés no sítio das Mestras onde se define a linha fronteiriça Portugal – Espanha. Portelinha tem mais três moinhos. O Moinho do Porto, o Moinho de Cima e o Moinho do Prado Grande. Três moinhos que devem ter trabalhado a bom trabalhar.

No entanto, este Moinho de vento no Monte do Curro continua selvagem e altivo nos  seus quase mil e cem metros de altitude  que o guindam a uma vaidade que se agrava com o estilhaçar das memórias. E vai moendo gerações atrás de gerações. E é quando o vento sopra forte que todas as velas se apagam naquele bolo de granito feito pelo sonho de um homem…

O Moinho de Vento…

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