Noites estreladas

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Noites estreladas

O nevoeiro desce lentamente sobre a pintura a céu aberto que é a praia de Moledo. E não obstante a ligeira brisa, a tarde de veraneio parece perfeita na nesga de areia e mar serpenteada pelo colorido dos toldos.

Em agosto ainda podemos fruir os entardeceres preguiçosos na companhia de familiares ou amigos. Com sorte, o mar de estrelas cintilantes anunciar-nos-á dias de bom tempo, assim nos ensinaram os antigos que liam o estado do tempo no livro do mundo.

Já em setembro, entra-se na azáfama das colheitas. A natureza apresenta-se madura e perfumada.

Por muito que os desígnios da ciência avancem nos mais variados domínios do saber, em particular no âmbito do sistema planetário, quero crer que os mistérios do universo continuam (in)sondáveis.

Num tempo de hiperbolização da personalidade, em que o estar se tornou mais importante do que o admirar, é bom sentir que há ainda muito para descobrir, observar, sentir ou compreender.

As férias em locais submetidos a forte pressão turística – como Veneza e Florença, em Itália, por exemplo -, relevam-nos uma sociedade global e superficial, que glorifica a personalidade através da obsessão das selfies. Já não se vai a um museu para observar uma determinada obra de arte de um génio, mas antes para se fotografar em frente dela, como acontece com a famigerada estátua “David”, de Miguel Ângelo, que impressiona pela beleza, harmonia e pormenores do corpo humano, qualquer que seja o ângulo de visão.

Há filas para aceder aos templos, palácios, galerias de arte e há filas para ver uma pintura, uma escultura ou uma tapeçaria.

A fotografia postada nas redes sociais é a marca distintiva dos que alimentam as páginas publicadas na web em busca de uma recompensa, que se mede no número de comentários, de likes ou de partilhas.

Outra coisa bem diferente é a atividade jornalística, que, como aqui referi noutras ocasiões, tem na curiosidade um dos seus motores. Fazer perguntas, espreitar perante as frinchas da realidade; não dar o óbvio por adquirido pode ajudar a construir um mundo mais plural e esclarecido.

Saber ouvir os que nos rodeiam, sentir o pulsar da sociedade nos cafés, nos supermercados, nas ruas; ler muito, para lá da wikipédia, contribuirão, certamente, para um jornalismo mais qualificado.

A mediação entre os que produzem discursos e os que os recebem faz falta. Conseguir vislumbrar temáticas que tenham interesse para os leitores é uma tarefa de suma importância, e que está na matriz do jornalismo de referência. Um jornalismo que se assume como contra-poder. Que tem a coragem de denunciar as desigualdades sociais.

Cabe-me aqui felicitar a “Vale Mais”, que tem a particularidade de ser uma revista de âmbito regional, pelo intenso e profícuo trabalho jornalístico produzido ao longo dos seus oito anos de existência.

Deambular pelo Alto Minho, se possível deixando-se tocar pelo “espírito dos lugares”, é a melhor proposta de férias que aqui deixo aos meus leitores.

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