O CENTENÁRIO DA “MORTE” DE ALBERTO CAEIRO

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Fernando Pessoa “matou” Alberto Caeiro, tudo indica que em Novembro de 1915.

O poeta chamava-lhe o “Mestre”, ao expressar a sua objectividade e a sua posição antimetafísica no quinto poema de “O Guardador de Rebanhos”:

“Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso eu do mundo!

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Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?”

Pessoa, personalidade complexa, conseguiu encontrar a forma de expressão para cada eu existente no seu eu, com a criação dos heterónimos. Estes, como se fossem personagens dramáticas, interpretam ora as suas inquietações metafísicas, ora o seu sentimento de frustração, de tédio e dos fracassos e dos nadas da vida. Tudo isso é conseguido através da calma e aparente passividade de Alberto Caeiro, cercada pela Natureza.

Pode-se concluir que os heterónimos nasceram à medida que a criação os exigiu e existiram em função dos poemas, pois estamos em presença de um “fingidor”, de um exímio manipulador de máscaras, que parece ser apenas uma ou mesmo todas elas.

Alberto Caeiro é o heterónimo que gasta o seu tempo a ver o mundo e as coisas. Assemelha-se a um “pastor” com os seus reduzidos conhecimentos. É ingénuo, natural, aberto, expansivo, e mostra-se feliz e contente com o mundo onde vive.

Não sabe pensar, melhor, “pensa, vendo”, pois, para ele, só vale a percepção sensorial. Como afirma nos seus “Poemas Inconjuntos”:

“Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras

Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.

Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.”

Para Caeiro, no campo do conhecimento, os sentidos são tudo:“pensar”nas coisas é “fechar os olhos” e “fechar os olhos” é “não pensar”. Diz ele, no nono poema de “O Guardador de Rebanhos:

“… e os meus pensamentos são todos sensações…”

Na temática dos poemas de Caeiro encontramos uma forte reacção contra:

–  O ecúleo, isto é, o tormento do conhecimento reflexo;

–  A metafísica e o transcendentalismo saudosista;

–  As abstrações e o subjectivismo, quando luta pela objectividade, como Cesário Verde, em oposição ao romantismo e ao simbolismo.

Caeiro vive pelo imediatismo das sensações, professando o culto da exterioridade da Natureza (cor, forma, existência).

Alberto Caeiro foi o criador da “Poesia da Natureza”, fazendo gala da antifilosofia e da antipoesia, e, como disse David Mourão Ferreira, ele“com a sua complexa simplicidade, virá a influenciar, directamente, os outros dois heterónimos”.

Claro que Caeiro não “morreu”, como é óbvio, pois continua por entre as páginas dos seus livros, a guardar rebanhos de palavras para deleite de quem as lê!

Dezembro. Não sei, caro leitor, se acredita no simbolismo da palavra Natal. Mas se acredita no Amor isso chegará para, junto com os outros, celebrar a Paz e a Compreensão no Mundo.

O Natal está à porta, vamos deixá-lo entrar!

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