O exercício da curiosidade

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O exercício da curiosidade

Quando esta crónica for publicada, a folia carnavalesca andará à solta no país e, em muitos outros locais da europa e do mundo.

Na minha infância, os amigos organizavam-se para sair à rua, com vestes improvisadas. Eram os caretos. Havia quem preparasse o quadro satírico com minúcia, revisitando acontecimentos da freguesia, e havia, também, quem integrasse a comitiva em cima da hora.

Jornais, revistas, perucas, roupas em desuso, serviam o propósito dos mascarados, num ambiente de galhofa. Para confundir a plateia, estudavam-se percursos alternativos à estrada principal: carreiros, caminhos, vinhas antigas serviam de abrigo a quantos desfilavam, nos dias consagrados ao carnaval, que incluíam o domingo magro e o domingo gordo.

Dentro de casa, degustavam-se as filhoses, que ajudavam a vencer a geada de fevereiro, tempo de tangerinas e de fogueiras em forma de pirâmide, com os ramalhos acabados de podar.

O calendário para 2019, diz-me que, no dia 20 de março, e não já no 21, como sucedia, se dá o Equinócio da Primavera. Os dias tornar-se-ão maiores e, assim esperamos, mais amenos.

Este início de 2019 começa conturbado, com a saída do Reino Unido da União Europeia, mais conhecida como “Brexit”, a assumir protagonismo, no domínio da política internacional, pelo grau de incerteza que essa decisão contém.

Em França, o braço-de-ferro do movimento dos denominados “coletes amarelos” continua aceso nas ruas de Paris, transformada no palco principal do descontentamento social.

No panorama cultural, celebram-se os 500 anos da morte do génio renascentista Leonardo da Vinci (1452-1519). Os países que detêm património da sua autoria investem em ações de divulgação física e digital.

Itália, França, Inglaterra e Espanha desdobram-se em iniciativas para re(descobrir) o enigmático mestre de Mona Lisa, sendo Florença o epicentro das comemorações. As exposições são o cerne dessa evocação.

O que impressiona na personalidade multifacetada de Leonardo da Vinci é a curiosidade torrencial, que o levou a domínios do conhecimento muito para lá do tempo em que viveu, conforme revelam os seus cadernos manuscritos.

Pintor, poeta, cientista, tinha particular fascínio pelo movimento, que estudava incessantemente como contraponto à harmonia presente nas suas obras – autênticas janelas abertas à interpretação.

Em jeito de conclusão, relembro que a história da curiosidade não se fez sem agravos; basta pensar nas diferentes formas de censura impostas pelas estruturas dominantes ao longo dos séculos.

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