O Minho navegável

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O transporte em barco pelo rio, um sonho recorrente.

Fazer navegável o rio Minho passou do plano teórico a diversos intentos falidos. Os numerosos passos de barcas eram transversais, e só em distâncias muito curtas ao longo do rio. Numa altura em que estão em perigo as ligações do derradeiro ferry do rio, entre Caminha e A Guarda, lembramos os projetos de navegação longitudinal.

Os transportes por terra são dez vezes mais custosos que por via aquática, segundo estimou Luiz Ferrari de Mordau, autor português de fins do século XVIII que presta apoio ao incremento dos canais. Os comprometidos ilustrados galegos propuseram igualmente na mesma centúria a navegabilidade do Minho. Pedro António Sánchez, na Representación al Inmortal Rey D. Carlos III sobre la navegación del Miño, defende as possibilidades de circulação longitudinal.

Daquela a navegação era uma realidade nas suas quatro primeiras léguas, até Tui, lembrando que os catalães construíram dois barcos no Ribeiro e chegaram até o mar, ainda que pelas dificuldades sofridas não repetiram a viagem. O cónego Sánchez pretendia fazer navegável o Minho até Ourense, ou até Ribadavia pelo menos, para dar saída aos vinhos do Ribeiro e da Ribeira Sacra, além de facilitar a entrada de produtos do Estado, em competição com os portugueses, no interior da Galiza. Argumenta que em Portugal, em rios de maiores dificuldades como o Douro, se levaram a cabo projetos similares.

A diferença entre os rios peninsulares continua a ser notável no século XX. Assim o Tejo é navegável por 160 quilómetros (a metade por barco de mais de 40 toneladas), o Douro por 200 quilómetros, o Guadiana por 72 quilómetros (52 deles em barco de mais de 40 toneladas). E o Minho só por 45 quilómetros, dos quais 25 são acessíveis para embarcações de menos de 2 toneladas, uma grande limitação. São dados de um estudo de 1957, realizado por J. Faria Lapa e R. Torroais Valente.

Nas Memórias Paroquiais de 1758, temos anotações sobre a navegação no Minho. Informam que a Lapela chegam “desde a vila de Caminha distante daqui cinco legoas e media em barcos que alguns carregam a vinte carros”. Em Troviscoso é navegável, “algumas vezes vem a esta freguezia barcas que carregam dez pipas de vinho e passam acima meia legoa”.

Para Bela, referem que não é navegável, pelos penedos do médio do rio e uma ranha o pé da vila de Monção. Mas algumas barcas medianas passaram por esta freguesia até Barbeita, vindo carregadas de Caminha. E já para Valadares não é navegável, pela força do rio, as pedras e pesqueiras, “só em alguma parte da enseada se uza de alguns barcos para passar deste Reino para o de Galiza”.

Pinho Leal oferece também dados da circulação pelo rio, em Portugal Antigo e Moderno, do ano 1880, indicando que “são de Seixas quase todos os barcos que navegam no rio Minho, conduzindo passageiros e mercadorias, para Vila Nova da Cerveira, Valença, Monção e Seixeira (ou Ponte do Mouro)”, seis quilómetros acima de Monção. Igualmente conta as várias iniciativas do vapor entre Valença e Caminha, desde 1855 a 1865, onde “a receita não chegava para a despeza”, e na última carreira não consegue passar de Seixas.

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