Opinião Maria Fátima Carbodeira | O Ouro reluz

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Quem conhece o meu sacrifício para …”.

Nessa altura, a voz torna-se quase inaudível, e as lágrimas começam a rolar pelo rosto do melhor jogador do mundo – Ronaldo, ou Cristiano, ou Cristiano Ronaldo, como cada um mais gostar de pronunciar o seu nome –, na cerimónia de entrega da Bola de Ouro da FIFA.

Cristiano Ronaldo

Parecem-me lágrimas antigas. Talvez provenham da infância, da distância permeada peloAtlântico. Estou a  vê-lo franzino a chegar ao Sporting, olhar tímido, mas determinado. Para cumprir o seu sonho (e o da família): ser craque da bola.

Em campo -, “dentro de campo é que se ganham os jogos”, disse recentemente –, tornou-se líder, tal a destreza e visão de jogo. “Tratava a bola por tu”, diz quem o conhece desde tenra idade, o que na gíria desportiva significa fazer da bola o que se quiser.

À semelhança dos outros portugueses, ainda antes de se tornar num fenómeno de popularidade planetária, fascinei-me com a sua maneira de jogar elevada à categoria de arte. Numa combinação de velocidade, tenacidade, e leveza.
Sir Alex Ferguson foi arrebatado pelo mesmo embevecimento e levou o nosso menino de ouro para terras de sua majestade. Onde brilhou, é claro. Daí para a frente, é o que se sabe.

Deixem-me puxar aqui a brasa à minha sardinha: Cristiano fez-se futebolista na escola de formação do Sporting. Neste caso, não sou suspeita. Confesso que herdei a minha afeição leonina, mas como dizia Ivy Lee, o pai das Relações Públicas, “contra factos não há argumentos”.

Basta recordar as carreiras internacionais de Futre, Figo e Nani para fazer jus à excelência do futebol praticado nas camadas jovens do Sporting. Esse berço marcou indelevelmente a postura – profissionalíssima – do agora CR7. Todos lhe elogiam a assiduidade, o espírito de equipa, a motivação. O seu sucesso corre mundo, e arrasta consigo uma imagem favorável de Portugal.

Em suma, Cristiano venceu a condição insular graças ao talento…e ao empenho que põe, no mínimo que faz, parafraseando Ricardo Reis. E isso não é coisa pouca, num país onde a meritocracia é muitas vezes um mero significante.

Para quem conhece o seu percurso, as lágrimas vertidas são fruto da mais genuína emoção. (Há quem diga que foram despoletadas pelas inenarráveis e embaraçosas figuras do Sr. Blatter, que só tiveram repercussão porque mediatizadas).

A estória de Cristiano é sedutora por reunir os condimentos de uma narrativa tradicional: sonhou ser grande, lutou para o conseguir, venceu (e continuará a vencer) obstáculos, e agora recebe a recompensa – o reconhecimento do público.

Revelar o seu lado mais humano, quando recebe a segunda Bola de Ouro, das mãos de Pelé, é também uma maneira de ser português. Mesmo em momentos de alegria, o sofrimento espreita. Tenho-me lembrado muito, por estes dias, da obra de João de Melo “Gente Feliz com Lágrimas”…

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