JOSÉ EMÍLIO MOREIRA /////////////// O que é ser feliz?

0

Aviso prévio: este escrito contém palavras sujas, capazes de ferir algumas sensibilidades, pelo que peço, antecipadamente, as minhas desculpas!

Em muitos escritos, em finais de cartas, em despedida de encontros, em momentos de consolação, exprimimos quase sempre: «desejo-te muitas felicidades», «que sejas muito feliz», «que nunca te falte a felicidade». Ou então, em momentos de insucesso ou de conflitos não resolvidos, desabafamos: «que infeliz que eu sou!».

Também, hoje em dia, começa a haver a tentativa sociológica-política para medir o nível de desenvolvimento de um país pela aferição do nível de bem-estar coletivo tentando fazer a avaliação do estado de felicidade do seu povo.

Mas que requisitos objetivos e observáveis se devem considerar? A percentagem do défice orçamental e o nível da dívida pública? A estatística do desemprego e a média dos ordenados de quem trabalha? O número de trabalhadores com ordenado mínimo e os que trabalham em tempo parcial? A garantia do futuro das reformas e a eficácia da máquina fiscal? O ritmo das exportações e o crescimento do consumo interno? A capacidade de endividamento do Estado e a falência das famílias? A satisfação dos serviços de saúde, educação e habitação e a segurança de todos os cidadãos? A riqueza das elites e os níveis de pobreza e diferenciação social? A quantidade de infraestruturas rodoviárias e a satisfatória remessa pecuniária dos emigrantes? Os últimos modelos de eletrodomésticos, automóveis, computadores, telemóveis e o número de viagens ao estrangeiro? Etc, etc …

Outro método consiste na realização de inquéritos feitos aos cidadãos sobre o seu patamar de felicidade.

Mas o que quer dizer, afinal, esse vocábulo que diz respeito a algo que atormenta a todos, mas nem todos conseguem vivê-lo e a maior parte não sabe exprimir com clareza e distinção?

Não é fácil definir “Felicidade”, porque cada um entende-a, procura-a, vive-a à sua maneira, pois, como já dizia F. Nietsche, cada um tem o seu conceito de felicidade.

Por outro lado, parece que a felicidade completa nunca se conquista, é uma procura constante, porque o homem, na sua história de vida, na sua dinâmica interna entre o que é ou julga ser e o que deseja ser, entre o que tem e o que poderá ter mais, entre o que julgava que lhe bastava e o que os outros lhe ensinaram (ou incentivaram!) que poderá atingir, está sempre incompleto e insatisfeito. Depois, há os que perseguem metas ambiciosas, cada vez mais ambiciosas neste mundo global e estruturalmente consumista e aqueles que parecem contentar-se com muito pouco.

Há quem diga que a felicidade é a atividade da alma de acordo com a virtude, isto é, num plano de vida organizado num equilíbrio entre a vertente intelectual e emocional (Aristóteles). Já Demócrito dizia que «a felicidade ou infelicidade de um homem não depende da quantidade de propriedades ou de ouro que ele possuía. A felicidade ou miséria residem na alma de cada um.»

Fernando Namora, com palavras mais acessíveis, dizia que todo o mal provém, não da privação, mas do supérfluo: «Ser feliz é afinal, não esperar muito da felicidade, ser feliz é ser simples, desambicioso, é saber dosear as aspirações até aquela medida que põe o que se deseja ao nosso alcance».

Muitos conceitos de felicidade se podiam apontar, divergentes nas diversas conceções filosóficas ou outras correntes de pensamento: materialismo, marxismo, existencialismo, cristianismo, ateísmo, pragmatismo, etc, etc.

Na realidade, o conceito de felicidade implica sempre a nossa conceção do mundo e o sentido que damos à nossa vida. Claro que o homem que quer ser feliz é um ser que sente, mas que também pensa e quer, isto é, escolhe conscientemente, embora, esteja provado, que muitas das nossas decisões, aparentemente voluntárias e racionais, alimentam-se da energia vinda de zonas inconscientes e profundas do nosso psiquismo e mesmo da nossa infância.

Como dizia Dalai Lama, «embora a felicidade seja possível, a felicidade não é uma coisa simples. Existem vários níveis». Mas então o que é ser feliz? Parece que, através de diversos meios, metas, percursos, valorizações e explicações diferentes, “ser feliz” é conseguirmos um “BEM-ESTAR” físico e psíquico em nós próprios. Porém, todas estas explicações, em abstrato, continuam a ser complicadas e pouco compreensíveis, pois, talvez, como disse Cherterton, «a felicidade é um mistério como a religião e não deve ser racionalizada».

Quando tentava explicar este tema, nas aulas de filosofia, aos meus alunos de dezasseis anos, com outras motivações existenciais de juventude a abrir-se para o mundo, poucos compreendiam, alguns ficavam com dúvidas e a maior parte parecia passar ao lado… Eu ficava aterrorizado com a minha incapacidade pedagógica, quer para os motivar, quer para os fazer compreender o problema e a minha linguagem explicativa. (Certamente, esta minha “incapacidade” mantém-se!).

Foi então que me lembrei duma maneira de lhes explicar o conceito de felicidade ou o que é sentir-se feliz, com um exemplo dum facto real que me veio à memória e que, passados mais de 25 anos, alguns alunos ainda não esqueceram:

Aqui vai!

Conheci um senhor dos seus 85 anos, com boa situação financeira, boa estabilidade familiar, muito religioso, mas bastante obeso, com algumas limitações de locomoção, e com muitos problemas de “prisão de ventre” e dificuldades em evacuar que lhe provocavam muito mau-estar, muita insatisfação, em suma, um sofrimento permanente. Tomava chás, mesinhas, remédios farmacêuticos, mas poucos efeitos positivos provocavam. Por conselho médico, devia, embora com grande esforço, caminhar um pouco todos os dias.

Num desses dias, passeando muito devagar, ao percorrer um certo caminho junto à sua quinta, deparou, na berma, com um enorme cagalhão, ainda luzidio e bem formado, quase fumegante, com aspeto de ter sido dado à luz do dia, há bem pouquinho tempo. O senhor parou estupefacto. Não deitou a mão ao nariz. Aproximou-se mais um pouco. Concentrou o seu olhar. E enquanto as lágrimas lhe escorriam, traiçoeiras, pelas bochechas vermelhas abaixo, exclamou, simultaneamente com admiração e inveja: «abençoado cu que te cagou»!!!

Estão a ver o que faltava a este cavalheiro para ser feliz ou mais feliz?

Afinal, para se atingir e/ou entender a felicidade basta bem pouco…

Que sejam todos muito felizes!

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here