O rio que corre ao contrário…

0
O rio que corre ao contrário…
O rio que corre ao contrário…

O rio que corre ao contrário… :: “a vida real não conta histórias, somos nós que as contámos…”  

(ouvido de passagem na antena 2)

Há por ali a chegar a Castro, a área de lazer das Veigas. Um recanto de sossego onde um riacho murmura segredos que por vezes um ouvido mais atento consegue discernir. é uma onda de algodão que se estilhaça a baralhar fragmentos entre a ficção e a história. E quando surge a ponte das Veigas, o suspense sobe de tom mas  nada nos diz dos relatos que ali se passaram. Fomos ouvindo as histórias com a leve sensação que estávamos perante  uma ponte irmã-milagreira de granitos da mítica ponte da Misarela. Assim , resolvemos fazer uma visita à Biblioteca das Memórias Castrejas, mais concretamente ao  lar do Centro da Vila, Castro Solidário,  onde fomos muito bem recebidos. Assim que a conversa versou sobre as peripécias da ponte, causas e efeitos,  toda a gente queria falar. Vamos ao assunto. Quando as crianças nasciam e passado pouco tempo, Deus nosso Senhor as levava dos pais a levitar no cosmos, a crença popular pelas vivências dos seus antepassados tinham a dita ponte para quebra desses efeitos maléficos.

Que era bem ir debaixo da ponte, era o termo usado. O remédio era  a senhora grávida ir com duas pessoas da família, no mínimo, para junto da ponte onde noite fora esperariam um caminhante que fizesse cumprir o devido ritual. Assim, teria de aspergir a barriga da esperançada com a água fresca do ribeiro. Os relatos foram surgindo. A Tia Libânia levou o pai e a cunhada. Já tinha tido dois filhos sem sorte nenhuma. À terceira foi de vez e em desespero de causa optou pela esperança da ponte. Saíram, ainda de dia do Ribeiro de Baixo, a pé  serra acima, treze quilómetros de granitos esfarelados pela agudeza das erosões,  até ao local do palco milagreiro. Chovia que Deus a dava. Ela metida no rio, ensopada até aos ossos, barriga saliente de seis meses a penar, ali a  penar, transidinha de frio. O pai e a cunhada, em cima da ponte, ensopadinhos até à crença, a olhar um lado e outro à cusca de um peregrino qualquer.  Longa se tornou a noite. Por fim, e por bem, lá acabou por passar um senhor, que vinha acompanhado de um cão. Feito o devido propósito, o padrinho da ocasião, disse as mágicas palavras; eu te baptizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amem!!! – Depois, os quatro juntos fizeram o festim da ceia que tinham preparado de véspera para o ansiado momento.

Assim, sob os auspícios daquele lugar, passados três meses, nos Santos, nasceu a Maria. A luz da casa e do Ribeiro. – Tia Libânia? A Maria sabe desta história?? – Não!!! – Então porquê?? – Oh, ainda havia de pensar que fomos ali para a afogar… (risos).  Depois a senhora teve outra filha. Diz quem sabe, as duas  meninas mais bonitas de Castro Laboreiro. Foi a sorte de Deus; disse ela. Outra senhora contou; – doutra vez, depois de muito tempo de espera por um desejado padrinho, assim que surgiu alguém,  os desesperados esperantes  fizeram tamanho alarido a pedir o devido ritual que o homenzinho desatou a fugir, cheio de medo, com as pessoas a correr atrás dele e a desgraçadinha, coitada, enfiada na água, a misturar as lágrimas com as águas corridas… Outra senhora contou de um caso duma vizinha que depois de ter corrido bem o primeiro nascimento  após a cerimónia da ponte, ainda teve mais seis  filhos. Outra senhora falou de um caso em que o caminhante apadrinhou dezassete casos assim. Ele, quando por ali passava, já sabia aos que as pessoas iam. Que morava ali perto, dizia. Bem se afiambrou a uns belos repastos… As pessoas falaram ainda da Ponte do Mouro também para um milagre específico para um bom nascimento das crianças. Assim fica a trilogia das pontes mágicas; a Misarela, a das Veigas e a do Mouro. A Misarela já toda a gente conhece, vários romances já lhe fizeram a devida homenagem. A da Veigas, agora que vem a lume, seria muito interessante fazer um levantamento humano das pessoas que vieram ao mundo por essa passagem, e quem sabe, uma vez por ano, num belo dia de verão, juntar tudo e todos a fazer uma festa que eleve a ponte  a um património humano, familiar  e afectivo, que por especial razão,  ela   bem merece. Talvez nasçam assim novas e belas histórias…  A ponte do Mouro, essa fica para uma próxima… em jeito de resumo, sobra a expressão de uma senhora a tentar explicar o fenómeno da ponte; – aquilo deve ser por causa do rio que corre ao contrário…

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here