OLGA RORIZ :: Vianense é o rosto da dança em Portugal

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OLGA RORIZ :: Vianense é o rosto da dança em Portugal
© Verissimo Dias

A 8 de agosto de 1955, Viana do Castelo viu nascer uma bailarina. Sim, Olga Roriz nasceu bailarina e ao longo de 42 anos criou uma ampla obra com um perfil e um estilo incomparáveis.

Bailarina e coreógrafa, as suas obras surgem carregadas de metáforas e imagens que fazem conviver mundano e inédito, amor e ausência, vida e morte, tragédia e humor e onde a fealdade não se mascara, mas surge aos olhos com uma crua beleza e simplicidade. O seu método de trabalho questiona o papel da dança contemporânea no panorama cultural, conduzindo à reflexão sobre os seus limites.

A Vale Mais esteve à conversa com esta prestigiada vianense que aos dois anos já dança para “os putos” e aos cinco queria ser coreógrafa, sem saber dizer a palavra.

Agora, com 62, tem medo, medo de uma doença que não a deixa dançar mas que lhe permite criar esta arte que, em Portugal, ninguém controla como ela.

OLGA RORIZ :: Vianense é o rosto da dança em Portugal
© Vítor Ferreira

NASCEU BAILARINA

A ‘Olguinha’ frequentou um Jardim de Infantil, desde os dois anos, onde havia uma professora que tinha uma aptidão especial para entender os comportamentos das crianças e rapidamente comunicou aos seus pais as grandes capacidades que ela tinha para a dança. Inclusive, contam, que a professora dizia ao restantes meninos que, caso dormissem a sesta sossegados, a ‘Olguinha’ dançava. Ou seja, ela era uma espécie de prémio.

Claro que os seus pais já se tinham apercebido deste talento em casa…. e foi por isso que a sua mãe não hesitou e mudou-se de malas e bagagens para a capital.

“Os meus pais levam esta situação muito a sério e quando eu tinha quatro anos a minha mãe decidiu ir viver para Lisboa, comigo e com a minha irmã. O meu pai fica em Viana”.

O Teatro Sá de Miranda precisa um programador

Sócio fundador dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo o pai ia visitá-las todos os fins de semana, mas só se mudou para lá quando se reformou. A mãe escrevia para o jornal Aurora do Lima e tornou-se correspondente à distância.

“Se sou bailarina devo-o ao meu pai e a minha mãe. Não tenho dúvidas disso.

A minha mãe sempre quis ser atriz, e eu acabei por seu o seu alter ego. Ela viu em mim aquilo que não poderia ser. O meu pai era um homem muito sensível e deu-se complemente à causa, ficando sozinho, em Viana. A minha irmã, com esta mudança, passou a odiar-me. Adorava o pai de quem foi arrancada por causa da irmã mais nova. Agora amamo-nos, mas, na altura, ela não gostava nada de mim”.

LISBOA, A SELVA

Quando chegou à capital, começou por estudar num colégio ‘normal’, mas que tinha dança. Depois mudou-se para a Escola Margarida de Abreu. Mais tarde, a própria diretora da escola aconselhou, a mãe, a inscrevê-la na escola oficial do Teatro Nacional de São Carlos.

“Aqui, já sabia, perfeitamente, que a minha profissão ia ser a de bailarina. Quando se entra num Teatro de Ópera como o São Carlos, com uma mestra russa chamada Anna Ivanova, já não há volta a dar. Passava quatro horas diárias a dançar. Aquilo é tudo que tu queres e estás no sítio certo”.

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© Paulo Pimenta

Mas nada foi fácil.

“A formação de bailarina é muito dura. Estive no Teatro São Carlos dos 8 aos 18 anos. Foi muito duro para mim. Doía-me sempre o corpo todo e só queria massagens. Isto não é para todos. Para estares nesta profissão e preciso ter muito espírito de sacrifício e é necessária muita disciplina e muito rigor.

No entanto, esse percurso e essa formação à volta das óperas, da música e das companhias de dança foi muito importante para mim”.

AS FÉRIAS EM VIANA

As férias grandes de Olga Roriz, até aos 15 anos, eram passadas no Alto Minho.

“Era a minha liberdade. Em Viana andava literalmente à vontade. Aí tive o meu primeiro namorado e fiz muitos disparates. Em Lisboa não podia fazer nada. Era a capital, uma selva diária e a minha mãe tinha muito medo”.

“Viana é, para mim, uma terra muito bucólica, linda, onde há um cheiro e uma luz especial. O retrato de Viana do Castelo para quem chega pela Ponte Velha, depois de sete horas de viagem, é qualquer coisa que não consigo explicar. Essa visão leva-me para a minha infância e para algo de inocente. Quando vejo essa imagem sinto-me protegida”.

OLGA RORIZ :: Vianense é o rosto da dança em Portugal
© Arménio Belo

BALLET GULBENKIAN

Aos 20 anos passou a integrar o elenco do Ballet Gulbenkian onde acabou por ser primeira bailarina e coreógrafa principal.

“É sempre estranho entrar no sítio onde tens os teus ídolos. Eu ia lá para os ver e de repente estás ao lado deles. Essa sensação é muito especial, mas eu ia muito bem preparada porque tinha feito todas as etapas da minha formação”.

Quando ingressou no Ballet Gulbenkian, Olga, só estava focada em ser bailarina. Apesar disso, já era óbvia a sua paixão pela coreografia.

“Quando eu tinha cinco anos perguntei a minha mãe: são os bailarinos que fazem as danças? E ela respondeu; não, isso são os coreógrafos. Então quero ser isso. Nem a palavra conseguia dizer”. (risos)

O palco é a minha casa. A minha primeira casa. É o sitio da vida, da luta do dizer do falar do gritar do cantar do ser forte e do poder

Acontece que, no final de cada temporada, havia ateliês coreográficos. Parece evidente que se fosse inscrever, mas não. Só ao terceiro ateliê é que ganhou coragem, e porque havia outro bailarino que a apoiou. Esse bailarino era Gagik Ismailian, mais tarde, segundo marido de Olga Roriz.

“No ateliê coreográfico fiz a minha primeira peça sozinha e fui, de imediato, convidada para realizar uma peça para a Gulbenkian. Estreei-me como coreógrafa e nunca mais parei”.

No final dos anos 80 fez vários trabalhos a solo e percebeu que havia outro método de trabalho, diferente daquele que usavam na Gulbenkian.

“Apesar de já usar alguma dramaturgia, na Gulbenkian não havia muito tempo para improvisar e criar junto com os bailarinos. Então percebi que, como coreógrafa, queria fazer algo diferente”.

Entretanto é convidada para ser diretora da Companhia de Dança de Lisboa.

“Esse convite fez-me dar o salto da Gulbenkian para a Companhia de Dança de Lisboa, onde fui diretora, coreógrafa e onde iniciei o meu método de trabalho”.

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© Estela Valente

Dois anos depois saiu da Companhia e todos os bailarinos quiseram sair com ela. “Todos me disseram para criar uma companhia, mas isso, não era tarefa fácil. Tivemos um ano de interregno onde, inclusive, sustentei, alguns bailarinos, financeiramente. Até que, em maio de 1995 consigo fundar a minha companhia com muitos dos bailarinos que vieram da Companhia de Dança de Lisboa”.

“Fizeram de tudo para me derrubar e para que não conseguisse. Sou mulher e nessa altura havia muitas invejas. Tive de ser muito forte. Nunca me viram chorar, nunca me viram com dúvidas, embora tivesse imensas”.

COMPANHIA OLGA RORIZ

Esta Companhia tem sido, ao longo dos anos, uma referência de qualidade profissional e artística no panorama nacional e internacional da dança contemporânea.

Apesar de só ter sido fundada em 1995, veio dar continuidade a um percurso já solidificado e de reconhecido mérito artístico e profissional pelo público e pela crítica nacional e internacional.

Veio servir de campo de pesquisa, experimentação e desenvolvimento do seu método criativo, consolidando a sua linguagem coreográfica com a forte vertente teatral e o seu apurado sentido estético, plástico e visual de todas e cada uma das suas peças.

Uma das características mais marcantes do trabalho da Companhia é a sua vertente pluriartística. Embora o corpo surja invariavelmente como expressão máxima do seu trabalho, aí cruzam-se elementos de diferentes áreas artísticas.

1.º Prémio do Concurso de Dança de Osaka, Japão (1988); Prémio da melhor coreografia da Revista Londrina Time-Out (1993); Prémio Almada (2004); Condecoração com a insígnia da Ordem do Infante D. Henrique – Grande Oficial pelo Presidente da República (2004); Grande Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores e Millenium bcp (2008); Prémio da Latinidade (2012); entre outros igualmente relevantes.

Os espetáculos da Companhia são o resultado de um processo criativo alicerçado em referências do universo teatral, literário, cinematográfico, fotográfico e outros que parecem ser tangenciais à arte, mas que atuam igualmente como fonte inspiradora e instrumentos de trabalho.

A Companhia tem, também, a área de formação, visto que, com a entrada nas instalações do Palácio Pancas Palha colocou-se em prática uma atividade educativa organizada e com uma lógica curricular que é uma extensão dos objetivos artísticos da própria Companhia, preenchendo uma lacuna pertinente no ensino, com base de ação junto de uma companhia profissional, adotando os seus métodos de trabalho e o seus conhecimentos artísticos e profissionais em atividade.

DIFERENTES MENTALIDADES

“Comparativamente com o meu tempo de aluna, a diferença que existe é de mentalidades e de abertura a certas linguagens”.

OLGA RORIZ :: Vianense é o rosto da dança em Portugal
© Vítor Ferreira

“Aquilo que eu tento passar é a liberdade de individualidade de expressão de cada aluno. O problema que existe, hoje em dia, é a falta de disciplina e de objetivos por parte dos alunos. Há demasiadas distrações. Há falta de concentração.

Eu pergunto: se estás num curso de dança e queres dançar, por que razão faltas às aulas? Este devia ser o teu sítio de liberdade, mas as pessoas confundem liberdade com ‘eu posso faltar’. A liberdade é algo completamente diferente. É fazeres o que te dá prazer e fazeres bem. Aí está a tua liberdade.

Ir a uma aula de dança era a coisa mais fantástica que me podiam dar. Em sete anos faltei dois dias. Agora tenho pessoas que faltam dois dias em duas semanas”.

Trabalhou com coreógrafos de renome como: Alvin Nokolais, Jiri Kylián, Louis Falco, HansVan Manen, Vasco Wellemkamp, Karine Saporta, Lar Lubovitch, Peter Sparling, Elisa Monte e Christopher Bruce.

O CORPO

O corpo de Olga Roriz tem dois handicaps. O envelhecimento natural e uma doença. “Juntei as duas. Um envelhecimento natural, mas com bom aspeto, e fisicamente demasiado ativa para uma pessoa da minha idade, e uma ‘Arterite das Células Gigantes’ que despoletou em 2013”.

“Há médicos que dizem que tenho de ter calma e repousar e há outros que dizem para fazer exercício. Por isso, faço ginásio e natação e isso dá-me a sensação de potência e de poder. E se eu perco essa sensação, a minha cabeça não reage bem. Então faço natação e sinto que o meu corpo está lá e tem força. Na parte da doença, além das enormes dores de cabeça, o que mais tenho é medo”.

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© Vítor Ferreira

INFLUÊNCIAS E INSPIRAÇÃO

“Inspiro-me em mim própria. Nas minhas vivências, na minha visão do mundo. Tudo me influência. Mas da forma como eu vejo as coisas.

Claro que, há muitos anos, ao ver um espetáculo da Pina Bausch, fui influenciada. Mas aí qualquer um era, fosse escritor, pintor, realizador, encenador ou coreógrafa.

Agora o que é importante é quando vejo alguma coisa que abre espaço à minha imaginação. Isso é o mais importante na arte”.

A DANÇA EM PORTUGAL

“A nível de criação, a Dança vai muito bem, sempre que as pessoas tenham apoios.

Por exemplo, a RTP2 tem um programa do Luís Antunes sobre Coreógrafos. Dei por mim a perguntar quem é aquela gente que aparece lá. Vi coisas fantásticas, jovens muito interessantes, porque o programa é sobre jovens coreógrafos, e estou a dar-me conta de pessoas, que não conheço, e que são muito interessantes. Fiquei muito contente ao ver estes jovens e sei que grande parte deles são do Norte.

Por outro lado, a RTP deixou de fazer produção de dança e em relação à cultura nenhuma televisão faz um bom trabalho. Os cartazes culturais passam a altas horas da madrugada e ninguém vê e o telejornal deixou de ter a parte de Cultura porque é mais importante “a telha que caiu do prédio” do que o cartaz cultural.

Apesar disso, tive a sorte, da próxima peça que vou fazer ser filmada e reproduzida pela RTP. Trata-se de um peça sobre a obra de Ingmar Bergman.

O seu reportório na área da dança, teatro e vídeo é constituído por mais de 90 obras, onde se destacam as peças Treze Gestos de um Corpo, Isolda, Casta Diva, Pedro e Inês, Propriedade Privada, Electra, Pets, A Cidade, A Sagração da Primavera.

E como 2018 é o centenário deste extraordinário homem e a RTP tem um programa de atividades para celebrar esta data, o meu espetáculo encaixa perfeitamente.

Estamos a falar de um grande encenador de teatro, de um grande cineasta e de um grande escritor, que escreveu quase todos os argumentos dos seus filmes”.

Depois há os concursos de dança que passam na televisão.

“Há uma parte positiva que é a dança entrar pela casa das pessoas. Agora, que dança? Qual é a qualidade que está ali? E será que todas as pessoas podem dançar?

Estes concursos podem ser interessantes como, ao mesmo tempo, se podia dar mais visibilidade a uma boa produção de dança.

Por exemplo, quando faço um espetáculo, no momento em que há um pequeno spot publicitário na televisão o aumento de venda de bilhetes é incrível”.

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© Vítor Ferreira

PRÓXIMO TRABALHO

“Estou a trabalhar nessa peça baseada na obra de Ingmar Bergman que se chama ‘A meio da noite’. É uma frase de um texto que ele escreveu para o filme ‘Cenas da vida conjugal’. Posso adiantar que vai ter vídeo, porque achei que era o momento certo para usar imagens. Vou utilizar imagens que fui fazer a ilha de Fårö2, onde ele vivia, e imagens dos próprios interpretes.

Estreia no Porto, no Teatro São João, nos dias 27, 28 e 29 de abril, o que acaba por abarcar o dia mundial da dança (29 abril).

Infelizmente, este espetáculo ainda não está marcado para Viana do Castelo porque Viana é uma das cidades mais complicadas para agendar e realizar espetáculos.

É muito difícil, para mim, marcar espetáculos em Viana do Castelo. Enquanto que, para qualquer sítio, pego no telefone, falo com o diretor do teatro, ou com a pessoa que está a programar e marco o espetáculo, para Viana, não consigo”.

Criou e remontou peças para um vasto número de companhias nacionais e estrangeiras entre elas o Ballet Gulbenkian e Companhia Nacional de Bailado (Portugal), Ballet Teatro Guaira (Brasil), Ballets de Monte Carlo (Mónaco), Ballet Nacional de Espanha, English National Ballet (Inglaterra), American Reportory Ballet (E.U.A.), Maggio Danza e Alla Scala (Itália).

E por quê? Não deveria ser, completamente, o oposto. Não deveria ter as portas sempre abertas, em Viana?

“Eu acho que o Teatro Sá de Miranda tem de ter um programador, independentemente do executivo que está no poder. É óbvio que a vereadora não consegue fazer e resolver tudo. Viana do Castelo tem uma boa oferta cultural e precisa de assessores à altura e não os tem. Nunca se consegue falar com o responsável e o processo torna-se muito complicado e moroso”.

“Há anos cheguei a ter uma coprodução marcada e a poucas semanas da estreia soubemos que tinha sido cancelada. Em toda a minha vida, a primeira vez que isto me aconteceu, foi em Viana do Castelo.

Em todos os Teatros do país eu falo com o programador, menos em Viana do Castelo, que não tem. É necessário um programador nesse Teatro.”

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