Os Caminhos de Santiago

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Os Caminhos de Santiago começaram por ser rotas medievais percorridas pelos peregrinos que iam até Santiago de Compostela visitar o túmulo do Apóstolo.Pode-se dizer que esses viajantes, vindos do sul, estavam, em determinado momento, a seguir em grande parte uma das mais antigas vias romanas, a que vinha de Ponte de Lima para Valença e atravessava o rio Minho para Tui.

A saída de Valença era feita através da Porta de Santiago, que dava acesso à margem do rio. Depois, para se atingir a cidade tudense, tomava-se uma barca de passagem.

No primitivo assento do povoado de Valença, no denominado local das Lojas, é referido por vários historiadores que nessas “lojas” pernoitavam os peregrinos em demanda de Santiago. Alguns passariam para Tui, buscando no velho burgo de granito negro a guarida para retemperarem forças e outros, ainda, iriam até ao convento de Ganfei, também local de pousada de romeiros.

Estas peregrinações às terras galegas do “Finis Terrae”, suportadas pela lenda do barco de pedra, de origem pagã, remontam a tempos imemoriais, quando os nossos antepassados e pagãos europeus partiam em busca desse acontecimento sagrado que era o pôr-do-sol misterioso, atraídos pelo fascínio do lugar dos mortos, simultaneamente maravilhoso e aterrador.

Indicação do Caminho

As peregrinações tiveram o seu auge nos séculos XI e XII e mantiveram-se até ao século XV, com relativa intensidade. Elas continuam nos nossos dias, embora sem as características e, convenhamos, sem o fascínio de outrora.

Essas peregrinações favoreceram a realização de novos mercados e feiras e a reactivação económica ao longo de todo o itinerário. Os peregrinos estrangeiros eram privilegiados por um estatuto que os deixava circular livremente, os isentava de peagem e outros impostos, e facilitava a sua fixação definitiva em terras a repovoar ou em urbes onde se tornavam comerciantes ou artesãos.

Na verdade, desde o ano de 950, quando o bispo Godescalco chegou ao sepulcro do Apóstolo, que a estrada “jacobea” deu início aos mais fecundos contactos espirituais entre os povos do Ocidente. Apesar das resistências que surgiram no princípio do século XI, originárias da sensibilidade cristã visigótica-moçárabe, a Europa medieval sentiu-se solidária de uma civilização que fundia as suas raízes com o mundo clássico, mas que se expressava com uma linguagem profundamente cristã.

Se toda a Europa recebeu a notícia sobre o Apóstolo, mais facilmente ela se espalhou pelo Norte de Portugal que tinha com a Galiza uma forte relação humana, cultural e económica. Isto é perfeitamente compreensível pois ambas as regiões estiveram unidas administrativa e politicamente desde o tempo dos romanos e, depois, dos suevos.

Os Caminhos de Santiago aparecem, assim, como um laço que foi ligando, século após século, as gentes mais diversas dentro de um ideal religioso. Do calor dessa fé produziu-se um fecundo extravasar de formas artísticas, de sementes culturais. Assim, acabou por surgir o estilo românico como o primeiro definidor da unidade europeia, ainda que enriquecido por influências orientais.

A via “jacobea” ficou aberta à Europa, na época românica, como a mais precoce e bem sucedida experiência turística. A sua vitalidade manteve-se durante o período gótico e continuou em plena época renascentista e mesmo barroca.

Peregrinar os Caminhos de Santiago, nos dias de hoje, significa o reviver de um processo histórico-artístico cheio de sentido espiritual.

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