Os pequenos operários na fábrica da Educação

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De mochila às costas, os pequenos operários entram na escola às nove da manhã para uma jornada de trabalho de quase oito horas diárias. A essa jornada alguns pequenos operários ainda somam mais horas na escola, em atividades extracurriculares fora da escola, ou em casa a realizar o TPC.

Durante o tempo letivo, com uma carga horária predefinida a nível central, os pequenos operários apostam forte nas disciplinas de Português e de Matemática. Depois destas, investem algum tempo no Estudo do Meio e de Expressões.

Assim sendo, não há tempo a perder quando entram na grande fábrica da educação. O problema é que, apesar de tamanha azáfama, os pequenos operários parecem não conseguir aprender a manobrar as máquinas e, pior, alguns até estão a criar aversão à aprendizagem. Os mestres, extenuados mas frustrados por não conseguirem atingir os objetivos, apontam as causas do insucesso: a dificuldade dos programas e das metas curriculares, a sua extensão e a complexidade e abstração da linguagem utilizada, sobretudo na área da matemática.

Quanto à dificuldade, muitos conteúdos programáticos recuaram dois anos de escolaridade e, por esse motivo, muitas crianças ainda não atingiram um desenvolvimento cognitivo que lhes permita compreender matérias demasiado abstratas.

A extensão dos programas faz com que os conteúdos sejam apenas aflorados, sem que os professores tenham tempo para propor atividades que permitam às crianças construírem os conhecimentos. Com tanta matéria, os pequenos operários parecem uns cataventos que não conseguem aprender as noções básicas de manuseamento das máquinas.

Porém, o mais grave de tudo é que os pequenos operários são crianças que, como tal, têm direito à infância. As crianças têm de criar, elaborar, estabilizar a emoção, dar profundidade aos seus sentimentos, colocar-se no lugar do outro, pensar antes de reagir, aquietar a mente…

Para tal, é necessário participar em processos que promovam a criatividade e uma melhor elaboração a nível mental.

Então, será que quando saírem da grande fábrica da educação os pequenos operários vão estar bem preparados para lidarem com a complexidade do real?

Ou será que a complexidade dos problemas sociais, económicos e políticos faz com que os pequenos grandes operários, mais do que saberem manobrar as máquinas, necessitem de uma notável capacidade de liderança e de criatividade para encontrarem respostas adequadas aos desafios que os esperam?

BARROS, Elsa de – Os pequenos operários na fábrica da Educação. Jornal de Letras, Artes e Ideias. Educação. Paço de Arcos: Medipress. Número 1165 (2015), p. 7.

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