Paredes de Coura vai ter a única Unidade de Formação de bombeiros no Alto Minho

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Paredes de Coura vai ter a única Unidade de Formação de bombeiros no Alto Minho
Na imagem: Ana Rebelo (responsável técnica da obra), Brandão Coelho (Federação Distrital dos Bombeiros) e José Alves (Presidente dos Bombeiros Voluntários de Paredes de Coura), no dia das marcações para implantação da obra.

Paredes de Coura vai ter a única Unidade de Formação de bombeiros no Alto Minho. Paredes de Coura vai ter, já este verão, a única Unidade Local de Formação (ULF) de bombeiros no Alto Minho. Está a ser construída num terreno com 12 mil metros quadrados, a cerca de 2,5 quilómetros da vila.

O acesso é pela EN 306, que liga este concelho ao de Ponte de Lima. O investimento está estimado em 150 mil euros, para três fases. A primeira destes, a única que já arrancou, não chega aos 30 mil euros, suportados integralmente pelo município courense.

As ULS foram lançadas em 2009 pela Escola Nacional de Bombeiros (ENB), visando minimizar a deslocação de bombeiros às duas unidades de formação, uma em Sintra, dedicada a fogos urbanos e industriais, e outra em S. João da Madeira, para fogos florestais. Neste momento, existem já perto de meia centena de ULF´s em Portugal, mas nenhuma se situa no Alto Minho. Neste estão ativas 12 corporações de bombeiros e cerca de 600 operacionais.

ESSENCIAL NA 1ª FASE

Em Paredes de Coura, o desejo do município em ter uma ULF já tem meia dúzia de anos. “Cada vez mais, as funções dos bombeiros são mais diversas e, diria, até estão a aumentar de dia para dia. Nesta 1ª fase, aquilo que se pretende é que haja formação no domínio dos cenários de socorro – incêndios urbanos e industriais. Não podemos esquecer que Paredes de Coura e os concelhos vizinhos têm parques industriais e nós sabemos que é preciso, muitas vezes, os bombeiros prestarem a formação aos próprios técnicos das indústrias e unidades empresariais sobre como reagir em contexto de risco”, refere-nos o presidente da autarquia, Vítor Paulo Pereira.

“Nesta primeira fase, a formação que incidirá, sobretudo, em cenários de socorro, como incêndios urbanos e industriais, na busca e salvamento. Não quer dizer que, depois, numa 2ª fase e em posteriores, a ULF não sofra melhoramentos. Inclusive, a 2ª fase deverá ser dotada de algumas salas de formação para que, no próprio local, os bombeiros a possam receber…. Mas, nesta 1ª fase, há que fazer o essencial” – adianta.

O edil desconhece as razões do Alto Minho ainda não dispor de uma ULF, embora a necessidade seja evidente. Avisa, porém, que “a formação atual dos bombeiros no distrito é reconhecida por todos como boa.

Apesar de não haver uma ULF, o que tem acontecido é que os bombeiros, muitas vezes, deslocam-se ao exterior, a outros concelhos, para receber essa formação. Mas vivemos numa sociedade em mudança, cada vez mais informada, mais exigente e os bombeiros também têm de responder a esse desafio. O da ação concreta e, depois, também o desfio de todos os agentes que estão a saber responder ao desafio de todos os outros agentes. Até gerir a comunicação e o relacionamento com a comunicação social…”

INVESTIMENTO NÃO SUBSTANCIAL

O esforço financeiro nesta 1ª fase não é o mais substancial. “Mas é a que é essencial. “ A estrutura a ser criada terá, através de um conjunto de contentores, cenários de socorro contra incêndios urbanos e industriais ou, até, aspetos ligados à busca e ao salvamento”.

A área do terreno é grande, à volta de 12 mil m2, e não teve custos para o município. ”O espaço vai ter uma utilização social e a comissão de baldios de Resende decidiu doar esse terreno. Bastante extenso, mas necessário. Se, por exemplo, acontecerem ações de formação de condução em contexto de montanha ou incêndio, tem de ter lá uma pista e já há espaço para a fazer para treinamento de condições de maior risco e exigência”. Além disso, como de destina a uma função social, não houve lugar a qualquer contrapartida.

Paredes de Coura vai ter a única Unidade de Formação de bombeiros no Alto Minho

CENTRAL E COM VIA RÁPIDA

Quanto ao facto da opção ser por Paredes de Coura e não outro concelho, o edil courense desvaloriza.

“É evidente que estamos felizes por termos a ULF, mas não há um motivo de maior glória por ser aqui e não noutra localidade. O que importa é termos uma estrutura dotada de meios e condições para os bombeiros receberem formação. De todo o distrito. Ainda há pouco tempo participamos com as câmaras de Valença e de Cerveira numa outra iniciativa ligada à Proteção Civil. Acho que, neste âmbito, os bombeiros têm de começar, cada vez mais, a pensar em termos distritais e não locais. O facto de ser em Paredes de Coura também se prende com o facto deste ser num lugar mais central. Se, até agora, a inexistência de uma ligação rápida poderia tornar as coisas mais difíceis, estaria mais isolado, com a nova via [de ligação à A3 e que deverá ficar concluída no prazo máximo de dois anos), mais próximos vamos ficar de todos os concelhos.

BRANDÃO COELHO, LIDER DOS BOMBEIROS DO ALTO MINHO

Luís Brandão Coelho é o presidente da Federação Distrital de Bombeiros de Viana do Castelo (FDBVC) e defende, até, que a nova ULS esteja, também, ao serviço da estrutura empresarial da região.

“As ULS’s são estruturas regionais ou locais definidas no âmbito do trabalho de disseminação da formação da ENB. Ficam sedeadas no corpo nacional de bombeiros ou nas entidades de natureza aproximada e, neste caso, a diferença é que se trata de uma espécie pioneira em que a Federação é que irá encabeçar o processo da sua gestão e acompanhamento”.

SERVIR AS EMPRESAS

No caso de Paredes de Coura, pretende-se que sirva os corpos dos bombeiros do distrito de Viana do Castelo e o seu staff. “Mas, mais do que isso, que também possa ficar à disposição da estrutura empresarial do distrito ou outras entidades que precisem fazer formação em medidas de autoproteção, em extintores ou em qualquer outro tipo de situações”, sublinha Brandão Coelho. Este deseja, mesmo, que “passe a ser um espaço para ser usado por todos aqueles que, no território, precisam, embora ele seja orientado, em primeira mão, para as necessidades formativas dos bombeiros.”

“O facto de termos aqui esta ULF vai permitir que o treino operacional seja feito dentro de casa e, por isso, com muito mais facilidade”, acrescentou.

Na 1ª fase, o que vai ser montado e instalado é uma unidade com um conjunto de contentores que permite realizar formação em espaços confinados e, por isso, é dedicada essencialmente a fogos urbanos e industriais.

“Depois, quase em paralelo, vamos ter oportunidade de ter formação na área dos fogos florestais, uma vez que é o contexto em que a ULF tem disponibilidade de espaço que permite fazer formação em ferramentas manuais e a utilização do fogo como instrumento de combate. É evidente que, se tivermos a possibilidade, além da estrutura de contentores, de avançar com uma sala de formação e condições de alojamento do pessoal, haverá condições para fazer formações de forma mais extensiva naquele local”, explica o presidente da FDBVC à VALE MAIS.

Brandão Coelho aponta, ainda, a vantagem em valorizar uma coisa já existente naquele local, uma pista de condução fora de estrada, e que passa apenas por um trabalho de qualificação daquele espaço e do restauro do traçado já existente. “Era conseguirmos e passarmos a ter a possibilidade de fazer trabalhos nas áreas dos fogos urbanos e industriais, de fazer formação em fogos florestais e, simultaneamente, também, em condução fora de estrada.”

SER EM PAREDES DE COURA

A decisão de ser em Paredes de Coura, observa, passou por uma decisão tomada em assembleia geral e resultou de um conjunto de opções que se puseram e analisaram. “Paredes de Coura candidatou-se a ser um território central e foi aquele que foi votado, por unanimidade, pelo conjunto das associações que integram a Federação.”

O presidente da FDBVC falou ainda das necessidades mais sentidas pelos bombeiros do Alto Minho.

“São um bocadinho diversas. Do ponto de vista dos recursos urbanos, temos problemas relacionados com a população. O território é pouco povoado, há uma densidade relativamente baixa em termos demográficos, o que nos leva a ter um número relativamente pequeno de bombeiros no distrito. É transversal quase ao país inteiro e, aqui em particular, num território de baixa densidade como o Alto Minho, é bastante claro.”

“Depois, temos as questões materiais. Há a necessidade de renovar um pouco as frotas, são muito antigas e alguns corpos de bombeiros ainda não atingiram a dotação com aquilo que seria a tipificação que está definida, quer em veículos urbanos, quer em veículos florestais.”

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“Em último lugar – não quer dizer que seja o menos importante – o sermos capazes de fazer a manutenção em contínuo da formação do pessoal de maneira que, a partir do momento em que se está nas formações iniciais ou nas formações de progressão, manter níveis de instrução que permitam um treino operacional continuado de modo a garantir um elevado nível de operacionalidade de toda a estrutura.”

Já quanto ao número de operacionais e de corporações no distrito, Brandão Coelho tem uma opinião diversa.

“Em condições normais, seria o suficiente. Temos, porém, situações muito complexas e que decorrem de um número muito elevado de ignições. Estas, muitas vezes, são em simultâneo em múltiplos pontos. O que quer dizer ser praticamente impossível responder às situações, independentemente do número de elementos que se possa ter.”

Todavia, a questão dos recursos humanos coloca-se.

“É evidente que o número de elementos humanos é o maior problema que se apresenta numa situação como esta e que, como é bem comprovado, o facto de nós, já desde há algum tempo, recebermos, com alguma periocidade, reforços externos, nomeadamente, nos últimos anos, pessoal que tem vindo do distrito de Lisboa para complementar o nosso dispositivo concreto de posicionamento, tem melhorado a eficiência na intervenção inicial que é, de facto, o momento fundamental. Entre a deteção da ocorrência e a primeira intervenção, se conseguirmos que isso ocorra num curtíssimo espaço de tempo, melhoramos as condições para garantir o melhor sucesso no controlo da ocorrência, de modo a não degenerar em grandes proporções.

BIOMASSA FACILITA PROGRESSÃO

O líder dos bombeiros no distrito de Viana do Castelo afiança mesmo.

“Até porque, como também sabemos, nos últimos tempos, mercê das alterações climáticas, temos cada vez mais biomassa fina que facilita a progressão inicial dos incêndios. Esta é a fase crítica para eles ganharem dimensões e eventualmente se tornarem incontroláveis ou ficarem fora do controlo. Reconheço que, associado a isto, é muito positivo o facto de, nos últimos anos, terem crescido as equipas de sapadores que fazem vigilância e primeira intervenção; são um apoio importante enquanto agentes de Proteção Civil. De realçar, aqui, que os bombeiros não trabalham sozinhos nesta questão dos fogos, nomeadamente dos fogos florestais. Há, pois, um conjunto de outras entidades que poderão também participar já ou que poderão beneficiar da existência da ULF no nosso distrito.”

A terminar, Brandão Coelho falou-nos das possíveis razões para o grau elevado de ignições: negligência, descuido dos montes ou ato criminoso?

“É a conjugação de tudo o que disse. Primeiro, tem de ter presente que o fogo está ancestralmente ligado às práticas culturais da região e era uma ferramenta para controlar a vegetação. Acontece que, neste momento, mercê de algum despovoamento, há uma redução enorme da carga animal (menos animais, menos pastores no monte, a quantidade de vegetação é maior). Também tem havido alterações e oscilações muito grandes naquilo que são as condições pluviométricas e térmicas na região, com momentos de calor muito elevados. Donde se conjuga uma prática tradicional do uso do fogo, um considerável nível de absentismo, uma carga animal pequena que não come a vegetação e permite que, em poucos anos, atinjamos vegetação relativamente alta, com chuvas que têm aparecido no período de verão e estimulam o desenvolvimento de vegetação mais fina, permitindo que ela fique mais tempo disponível. Tudo isto resulta em incêndios e, nos últimos anos, com maiores dimensões.”

E nota: “Nos últimos anos (desde 2017), com a morte de tantas pessoas em Portugal, as pessoas contraíram um pouco e houve algumas campanhas importantes feitas por diversos agentes da Proteção Civil que alertaram para os problemas e consequências de haver uma queima mal feita ou indevidamente realizada, de ter de haver maior restrição ao uso do fogo e a GNR andar em cima da limpeza das faixas e na gestão de combustíveis.”

Reconhecendo que há um conjunto de ingredientes e é difícil estar a apontar uma coisa ou outra, destaca o facto de uma boa parte das ignições ser de noite.

“Deve-se fazer uma reflexão sobre a sua origem. Acredito que haja aqui muitas ações por negligência ou omissão. As pessoas têm de ser alertadas para a necessidade de pensarem 10 vezes num dia de calor e não haja condições para fazer lume, nas queimadas é preciso ter técnicos credenciados e até meios para as fazer, enquanto nas queimas é necessário registá-las e saber se é ou não possível fazê-las. Não devem ter comportamentos de risco que possam por em causa a comunidade e valores muito maiores daquilo que são o seu pequeno património; às vezes, até por um pequeno monte de lixo que pretendem queimar.”

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