PENEDA:: Local de peregrinos à procura da renovação

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PENEDA:: Local de peregrinos à procura da renovação

É um dos mais concorridos e importantes santuários marianos do norte do País. Sob a invocação de Nossa Senhora da Peneda, localiza-se em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês, na freguesia da Gavieira, concelho de Arcos de Valdevez. Um culto que terá a sua origem, segundo a lenda, em 5 de agosto de 1220, com a aparição da Virgem a uma pequena pastora.

ERMIDA NO SÉC. XIII

Uma pequena ermida terá sido ali implantada no séc XIII e o culto foi-se alargando com devotos de Portugal e da Galiza. De tal forma que, já no séc XVIII, ali se iniciou a construção do santuário, que hoje se enquadra no trecho da serrania e que, ao longo do ano, atrai milhares de romeiros. O ponto alto é a festa anual que dura uma semana, entre 31 de agosto e 8 de setembro.

A envolvência paisagística do único parque nacional do país proporciona um ambiente festivo e religioso favorável à contemplação, a par de um notável património histórico e arquitetónico, fazendo do local um ponto de passagem obrigatório para muitos romeiros e, mesmo, um destino turístico com características turísticas únicas.

Para apoio aos que a visitam, a Peneda tem uma unidade hoteleira de duas estrelas e os quartéis, casa em pedra que mantém a sua traça original, de características mais modestas e que dispõe, para alojamento dos peregrinos, de uma dezena de quartos. Há também lojas de artigos religiosos, de lembranças e de artesanato, bem como cafés e tasquinhas para conviver e beber um “copo” ou, mesmo, saborear uns petiscos ou uma ligeira refeição.

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LENDA

Nossa Senhora da Peneda terá aparecido, em1220, a uma criança que guardava cabras, sob a forma de uma pomba branca e ter-lhe-á dito que pedisse aos habitantes da Gavieira para edificarem uma ermida naquele lugar.

Quando   chegou a casa, a pastorinha contou aos seus pais, mas estes não acreditaram. No dia seguinte, quando guardava as cabras no mesmo local, Nossa Senhora voltou a aparecer, agora sob a forma da imagem que hoje se conhece.

Disse à criança ir ao lugar de Roussas, a fim de lhe trazerem uma mulher que estava paralítica há 18 anos, de nome, Domingas Gregório, que, ao chegar perto da Senhora, recuperou a saúde.

A mesma lenda reporta também a uma passagem anterior, por volta de 716 ou 717, quando os cristãos, fugidos dos sarracenos, terão deixado uma imagem escondida entre as fragas da Serra da Peneda.

SANTUÁRIO

Com a construção do santuário, a afluência ao local teve um forte impulso.  Além do templo-Igreja, concluída em 1875, e o escadório das virtudes, com estatuária que representa a Fé, Esperança, Caridade e Glória, datada de 1854, há o terreiro dos evangelistas e a escadaria, com cerca de 300 metros e 20 capelas temáticas, estas com cenas da vida de Cristo.

Nota, ainda, para a coluna encimada pela imagem de S. Miguel Arcanjo que se ergue no patamar da escadaria, junto ao largo que recebe e guia os romeiros. Já ao fundo, numa praça circular, situa-se um pilar que terá sido oferecido pela rainha Maria I de Portugal.

Uma das capelas ostenta uma inscrição que, disseram-nos, atesta ter ela sido oferecida por um rei do antigo estado etíope, a Abissínia.

 

VIA MARIANA LUSO-GALAICA DESDE 2017

A Via Mariana é um itinerário de peregrinação que percorre os santuários marianos da antiga Gallaecia, num total de 382 km, entre Braga a Muxía e dividido por 17 etapas, passa também pelo da Peneda, onde ocorre o final de uma (iniciada no Soajo) e se inicia outra (até Melgaço).

O projeto foi idealizado em 2017 pelos galegos José António de la Riera e Luís do Freixo.  A VALE MAIS entrevistou este último.

Têm como promotores comunidades de montes, de moradores, associações de moradores, associações culturais e outras agentes sociais do de trajeto. De onde são e que envolvimento?

As comunidades de montes em mão comum, Paróquias e associações culturais são o embrião da Via Mariana. As primeiras são do Condado Paradanta, A Cañiza, Covelo e Fornelos de Montes. Todas estão conscientes da importância do fenómeno do peregrino para combater a ruína e a desertificação do meio rural. Também para preservar o património material e imaterial que está a ficar esquecido. Depois juntaram-se professores universitários e criou-se um conselho assessor. Finalmente, os municípios galegos, todos entusiasmodos pela proposta. Só um ficou de fora.

De igual modo, desde os primeiros momentos registamos o apoio do Município e funcionários de Melgaço, mais tarde a Cultura dos Arcos de Valdevez e Ponte da Barca, também freguesias como Goaes, Neiva, Portela de Vade, Ventoselo de Sampriz e Touvedo.

Em Portugal, foi determinante a implicação da Diocese de Braga que, de imediato, compreendeu as possibilidades pastorais e de colaboração entre paróquias e dioceses de um lado e outra da raia.

Nota, ainda, para a Diocese de Tui, que valorizou muito positivamente a importância dos santuários marianos como focos da mais remota devoção familiar, alheios às fronteiras políticas ou eclesiásticas.

Porquê o final do trajeto em Muxia?

Por ser o Santuário Mariano do Final do Mundo, na Costa da Morte. Final ou início, juntamente com Sameiro de Braga, centro espiritual da Galaecia há séculos.

Por enquanto, há uma linha troncal com o centro  (Km 0.00) no Sameiro. Aspira a se converter numa rede que alcance os Santuários de Os Milagros e O Corpinho, em Ourense,  Agonía, de Viana, A Lapa, em Trancoso, no Caminho Torres, Guadalupe, em Pontevedra e Cáceres, Peha de Francia, em Salamanca, Os Remedios, em Peniche… e porque não, algum dia, também Fátima. Mesmo que este não precise de nós para preservação ou divulgação.

Quantos santuários a via percorre e, neste contexto, que lugar ocupa o da Peneda? Tem albergue aqui?

São 10 santuários, na Galiza, e três em Portugal, por enquanto. A Peneda, juntamente com A Franqueira, são de especial relevância pelo tradicional carácter transfronteiriço. Durante séculos, milhares de galegos acodem, todos os anos, à Peneda e outros tantos portugueses vão à Franqueira.

A beleza íntima desta terra minhota, comunitária e mista que nunca quis saber das fronteiras.

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Cortejo conduzindo uma mulher que fez a promessa de ir dentro de um caixão à Senhora da Peneda, 1912, Foto do “Sr. Conde Bobone”

CARAVANA EM AGOSTO

Que iniciativas promocionais e de apoio aos peregrinos têm previstas?

Já no mês de março começou um grupo de 100 caminheiros de Vigo fazendo troços da Via Mariana, um domingo por mês. Chegaram a Melgaço, em junho, e reiniciam em setembro.  Também em setembro começa em Braga outro grupo de Pontevedra

Estamos a organizar, juntamente com padres, dioceses e municípios o desfile da Caravana Peregrina e Arriera do Padre Blas, Associação de Amigos do Caminho de Santiago – Via de la Plata (ACASAN). Começa no dia 4 de agosto, com uma procissão de Braga para o Sameiro, no dia 5, de Arcos para Ponte da Barca, e dia 6, em Melgaço. As dificuldades dos caminhos impedem a passagem das carros pelos trilhos da Peneda Gerês.

Oito carruagens da Tradición Arriera transportam a imagem do Apóstolo, juntamente com outros que encenam antigos ofícios, comércio, cultura, apostolado. Este ano acompanhamos a imagem da Virgem Branca-Senhora das Neves, Padroeira de Fuenterroble de Santiago e, desde já, também da Via Mariana Luso-Galaica.

Cerca 150 peregrinos acompanham os carros, juntamente com populares das localidades por onde passam.

Enquanto apoio aos peregrinos, estamos a criar centros de acolhimento comunitários (Parada de Achas em serviço, Estacas em obras,  Aguasantas e Milagros de Amil en projecto), centros municipais (Touvedo, Parada de Achas e Orbelhido em obras, Bainhas e Berdoias em serviço), centros paroquiais ou diocesanos (Sameiro, Soajo, Amil ou Aguasantas). Combinamos, com particulares, casas privadas comprometidas com um trato preferencial para Peregrinos Acreditados (por enquanto, no Soajo, Peneda, Bustelos, Portasouto, Campo Lameiro, Cuntis e Zás)

Sendo uma iniciativa que tem a devoção mariana na sua génese, como tem articulado a sua atividade com as instituições religiosas católicas?

Políticos e padres foram “marginados”, inicialmente, da seleção do percurso para evitar interesses de qualquer tipo que poderiam interferir na qualidade do Património Viário.  Só, conselho de sábios estava autorizado a sugerir uma mudança.

Velhos caminhos pelo descuido, substituídos hoje por estradas alcatroadas para acesso aos santuários, foram incluídos no nosso percurso e entregues aos cuidados de Paróquias e Municípios. Também estamos a recuperar, com trabalhos voluntários, os caminhos “monacales” e veredas ou caminhos reais ocultos por silveiras e eucaliptos, que também queremos erradicar junto à Via Mariana.

Criamos um Código de Boas Práticas que convida populares e administrações para erradicar práticas nocivas com o meio ambiente (depósitos de lixo, meios mecânicos que destroem a calçada, uso indiscriminado de alcatrão ou concreto).

O reitor do Santuário de A Franqueira foi nosso anfitrião desde o primeiro minuto. O arcipreste de Montes e Mondariz assumiu a responsabilidade da comunicação com a diocese e a paróquias.

HÁ CEM ANOS

A Senhora da Peneda

“Antes que comecem as vindimas e desfolhadas – dois quadros cheios de luz e encanto da festejada vida campestre – é que passam bandos e bandos de romeiros de dez léguas em redor, a caminho da Peneda.

Num anceio confortável de devoção e regozijo – os traços mais característicos da alma popular – elles lá vão, quer entre os crepes immensos da noite, quer illuminados por pérolas de luar, para o local festivo, agreste, longinquo, que, embora rodeado por montanhas enormes e bruscas, ali arrasta innúmeros campesinos.

Formam-se os grupos. Recordam-se promessas. Rejubila o coração em impulsos d’uma alacridade louçã, virtuosa, querida. Juntam-se cachopas esbeltas com seus namorados. Prepara-se uma esturdia. E, por fim, lá seguem por caminhos invios e pedregosos, atravéz dos tufos rígidos de tojo e urze, em franca galhardia, com sacolas á cabeça e um sorriso nos lábios. São longas horas de inalterável folguedo, sempre abrilhantado affavelmente pelo som dos pandeiros e harmónicas, e pelo trovar metálico, suave, encantador, de raparigas garbosas com pernas roliças ao vento, que então suspira de volupia casta, e arrecadas sobre o peito – o altar mais divino, com o brilho do jaspe e o perfume do mangericão, dos seus conversados.

PENEDA:: Local de peregrinos à procura da renovação

Soltam cantigas poéticas, admiráveis, lindíssimas, como esta:

Á Senhora da Peneda
Nos leva meigo luas,
Sendo o nosso pegureiro
Nos tempos do verbo amar.

De mistura com toda esta jovialidade alacre, como que espadanando-se em gaiatices e alegria santa, fervilha a devoção por essas veredas montanhosas. São pessoas que ali vão sem falla; outras sem comer nem beber; e ainda outras com velas de cera e valiosas promessas; enquanto lá muitos penitentes sobem a longa escadaria de joelhos ou dentro de caixões. É a fé arreigada do povo humilde a expandir-se sinceramente em manifestações comoventes.

Mas, por outro lado, o aspecto da romaria é deveras interessante e único, com varias patuscadas, as mais alegres travessuras, e as delicias ruidosas do vira e da caninha verde, ora entre amigas e conversados, ora com guapas hespanholas, que ali affluem.

A graça da vida aroal distribui por ali os seus melhores beijos, as suas mimosas caricias, a sua mais enternecida crença, o seu mais expansivo prazer. Parece até que um côro uníssono de vozes, quer ridentes e satisfeitas, quer sentimentaes e sinceras, se levanta para o Azul immenso, bemdizendo a ventura intima da vasta família campesina.

E, decorridos alguns dias de constante diversão amiga, elles lá voltam, com braçados de carqueja e cobertos de pó, para os seus lares tão simples, trocando os pandeiros pela enxada, mas sempre com um êxtase de satisfação bemdita a acalentar-lhes os peitos e um sorriso casto a reflorir momento a momento nas pétalas carminadas de garrulas moçoilas.”//

PADRE CÉSAR MACIEL

SANTUÁRIO É MAIS CONHECIDO NA GALIZA DO QUE NO PORTO

O padre César Maciel é o capelão do Santuário da Peneda e, em declarações à VALE MAIS, notou que a Confraria tem procurado recuperar os espaços do santuário.

“Uma das prioridades, neste momento, é a recuperação interior do santuário. A nível elétrico e de iluminação, de videovigilância e de todos os meios para que possa ter alguma segurança. Bem como dar uma imagem renovada”, referiu-nos.

O religioso adiantou, ainda, que, “a nível espiritual, procuramos ter boas condições para os peregrinos; que as celebrações, nomeadamente na altura das festas, tenham toda a dignidade que merecem. Esse tem sido um dos pontos fundamentais. Agora, claro, que isto é um trabalho que precisa de ser aprofundado”.

E como tem evoluído o afluxo de peregrinos? – questionámos. “Não podemos fazer afirmações quanto a isso, não temos nada que possa aferir o seu número”.

Mas qual a perceção que existe? – insistimos. “Que os peregrinos, cada vez, são menos! Isso é derivado da localização do santuário, aqui no alto destas montanhas, e ser visitado (maioritariamente) pelos peregrinos destes concelhos (mais próximos) que estão em desertificação. Isso também se nota na vida do santuário, há menos frequência nesse sentido.”

No entanto, o “continua a ser muito visitado e também continua a ter um problema, que não é recente, o ser desconhecido em muitas partes do nosso país. É mais conhecido em Espanha – Vigo ou Ourense, por exemplo – do que no Porto. Esse é um dos handicaps do próprio espaço.”

Ainda quisemos saber se, na sua opinião, a Via Mariana pode ou não impulsionar o Santuário da Peneda, mas parece não existir grande entusiasmo quanto a isso. “Não sabemos! Todo este processo da Via Mariana foi desenvolvido à margem do santuário. Tivemos apenas conhecimento através da comunicação social. Por isso, não sei” – respondeu, lacónico.

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