POETAS, FILÓSOFOS E POLÍTICOS

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De poeta, filósofo e louco todos temos um pouco, diz o ditado popular. Eu acrescentaria, também, “de político”…

Mas como podemos, então, caracterizar estas classificações, estas atitudes, estas matrizes que parecem fazer parte da estrutura de todo o ser humano? É preciso deslindar a linguagem, as funções e as personagens.

“Poeta” e “Filósofo” são aplicados, muitas vezes, a tipos idealistas (ou idiotas!), sonhadores, irrealistas, lunáticos, marginais ou simplesmente incompreensíveis. Por “político” pode entender-se como negociador, habilidoso, arranjista, oportunista, manhoso, corrupto…

Por outro lado, poeta não é só o que escreve versos; filósofo não é só o que escreve tratados de Ética, Metafísica ou de Epistemologia, etc; “político” não é só o que ocupa cargos de governação pública. No verdadeiro e sério sentido das palavras, “poeta”, “filósofo” e “político” significam, sobretudo, uma atitude perante a vida, uma maneira de entender e perscrutar a realidade da natureza, da sociedade e do homem, um modo de estar e agir com os outros e consigo próprio. Nenhum vive fora do mundo.

O poeta e o filósofo são seres radicalmente humanos. Ambos muito diferentes. Ambos profundamente semelhantes. Vivem num mundo, mas não se acomodam ao mundo, tentando sempre penetrar-lhe nas entranhas, perspetivar o futuro, desmontar o tempo que os empareda, entender e transpor a sua finitude. Vivem rodeados de pessoas, de família ou de amigos, mas não conseguem sacudir aquela solidão que estrutura a sua medula existencial que os isola, que os amargura, que os empurra, que os desilude e humilha, mas também que os emprenha, enchendo-os e esvaziando-os, dando-lhe a luz, a oferta que lhes é mais nobre: a sua criatividade, a sua incomodidade, a sua liberdade. Vivem à procura da outra parte do “eu”, misteriosamente espalhado pelas coisas, pela natureza, pelos “eus” dos outros e que, quanto mais se procura, ou não se encontra, ou quando se encontra, o EU sofre alongamentos, metamorfoses, e é invadido por um vazio que não os deixa descansados, transformando o seu interior num sem fim, numa procura dinamicamente permanente, a dizer-lhes que “não somos”, que “não existimos”, mas que se descobrem condicionados, frágeis, limitados, finitos, porém, sempre com os olhos tão intensos que vêem para além desses limites. Não se acomodam às vitórias conquistadas, não se satisfazem com o imediato, com o aparente, com o saber feito. Vivem sedentos da vida, mas esta é sempre um mistério, com as suas erupções, emoções, paixões, contemplações, frustrações, onde a dialética do Belo, do Verdadeiro e do Bem se apertam na sua vontade de compreender, de fruir, de assimilar, procurando a felicidade de si e dos outros. Não vêem, como poetas e filósofos, os problemas do mundo e do seu mundo numa mera perspetiva de ciências exatas ou experimentais. Mas nunca sendo indiferentes às soluções encontradas pelas prodigiosas descobertas dos cientistas.

Mas são também diferentes:

O filósofo procura a racionalidade clara, o lado lógico da linguagem, a demonstração evidente do discurso. O poeta traduz os seus estados de alma, os seus “retalhos” existenciais, numa linguagem-símbolo, em palavra-sentimento, em pensamento-emoção, em admiração-êxtase, em choque-angústia, em paixão radical, onde o corpo e a alma estão irremediavelmente juntos na aventura de conquistar, com sucesso ou fracasso ou os dois ao mesmo tempo, o sentido da vida.

Nas circunstâncias mais nobres ou mais vulgares, mas sempre em dependência, às vezes, não se sabe de quê, de que porto, de que âncora, de que ponte, de que luz…Mas também não há poesia sem racionalidade e lógica de fundo, como também não há filosofia sem intuições, sem emoções ou sem sentimentos, muitas vezes, difíceis de traduzir em silogismos lógicos demonstrativos. A metáfora ou outras figuras literárias são, às vezes, mais clarificantes na descoberta da realidade do que mil discursos lógico–matemáticos.

Possivelmente, hoje mais do que nunca, por factos, suspeições e acusações universalmente mediatizadas relacionados com incompetências, contradições e corrupção, a “Política” e os “ Políticos” caíram num campo pantanoso de perigoso descrédito, arrastando para o mesmo alçapão o mérito e a valia da própria “Democracia”. Em consequência, é fácil virem, por aí, políticos populistas e demagógicos, com discurso emotivo mas sofista, a atacar os regimes democráticos existentes e seus principais intérpretes. Pode ser o primeiro passo para regimes autoritários e ditatoriais.

Mas a “Política” é a valência mais nobre do pensar e agir humano, no domínio social, a par da sua autonomia ética individual: a política é a arte de bem servir a comunidade e para a servir nos seus cargos de chefia, temos sempre de escolher os melhores. A política a sério, autêntica, exige princípios éticos e morais, sempre na perspetiva do Bem Coletivo; exige rigor e honra, acima de tudo, na interpretação dos cidadãos e na sua relação com a sociedade. Ao político dirigente não se exige somente vontade e paixão , mas também conhecimento científico, sobretudo no domínio das ciências humanas, para agir com o máximo de eficácia. Já Eça de Queiroz dizia ( Elogio do Almanaque, pág.23)que sem conhecimento das ciências psicológicas, sobretudo da psicologia das multidões, (psicologia social), não pode haver estadistas nem estado que sejam estáveis. Hoje temos de acrescentar outras ciências humanas como a sociologia, economia, direito, antropologia, história, etc, para agir sempre com o máximo de sabedoria, não em benefício pessoal, corporativo, familiar ou partidário, mas para o BEM do povo, para o Bem coletivo e para a felicidade de cada cidadão. Mas o que é o “ Bem do povo” ? O que é a felicidade do homem? O que é ser homem?

Se os poetas e filósofos se dedicam a escutar, a sentir, a pensar e interpretar o mundo interior e exterior; se cabe aos cientistas descobrirem o “como” do desenrolar dos fenómenos observáveis e quantificáveis do mundo sensível humano e natural, cabe aos políticos, com o seu agir governativo, criar condições de possibilidade da transformação do mundo, possibilitando que a história forneça os melhores meios de vida para todos os cidadãos sem exceção. Mas transformar o quê? Até onde ? Para quem? Transformar como ? É que, primeiro, há que pensar, há que construir um modelo de desenvolvimento, um modelo de transformação. Há que correr atrás da UTOPIA …É que a ação do homem em geral e do político-governante em particular implica uma conceção do mundo e da sociedade, exige valores éticos e estéticos ( e até religiosos) para nortearem a dinâmica social e o seu agir como responsável político, ou seja, da governação da “ RES-PÚBLICA”.

Qualquer reforma a ser levada a cabo exige ciência e técnica, pragmatismo e prudência, sabedoria e coragem, mas também sentimento e paixão, afetividade e determinação, enfim, uma ideologia por trás a explicar o presente e a perspetivar o futuro. Não acredito nos “pragmáticos” puros, nem nos “tecnocratas” neutros, sem ideologia.

Esta, para ser viva,  é que deve estar sempre aberta às novas dinâmicas naturais e culturais que se vão revelando no tempo e sem caírem nunca em dogmatismos cristalizadores e cerceantes da liberdade humana, onde o poder da crítica e autocrítica nunca devem ser calados. Mas, ao contrário do poeta e do filósofo, um político governante não pode caminhar sempre sozinho, (embora, ás vezes tenha que enfrentar custos de sofridas solidões), nem forçar o isolamento dos seus mais diretos colaboradores, mas deve ser um congregador de vontades, capaz de promover a tolerância e o diálogo entre todos, sem nunca desejar o amorfismo, o conformismo, a explicação única.

A história é feita de convulsões entre a realidade– como conjuntura dominante–e as ideias que procuram transformá-la, segundo uma dialética complexa, que longe de qualquer ordem moral, nem sempre se processa pelo caminho dos valores que dão corpo aos ideais libertadores da miséria e contribuem para a conquista da felicidade. A medida do sucesso duma ação política nem é só o PIB, nem o déficite, nem os quilómetros de autoestradas…mas o nível de felicidade sustentável conquistada pelos cidadãos de um estado, em termos individuais e coletivos.

A “ FELICIDADE” tem de entrar no discurso político. Disse um político português, hoje, com responsabilidades governamentais, ao SOL, em 21/8/2015:“ Para mim, a função da política é dar oportunidade a que todos, de acordo com a sua capacidade e esforço, possam realizar-se o melhor possível, e, nessa medida, terem o acesso à sua maior felicidade”. Mas o que é ser feliz? Como e quando se atinge a felicidade?“ Ninguém tem a chave da felicidade.

Ela não é um objeto, mas um sentimento profundo”, dizia um filósofo contemporâneo. Mas se é um sentimento interior, descoberto por cada um, exije condições exteriores: mínimo de bens materiais de sustentação, educação, habitação, saúde, segurança, estabilidade profissional, etc, etc, havendo, contudo,necessidade de combater cultural e politicamente a hiperindividualização e a hipermaterialização da sociedade moderna, que num movimento de ultra-liberalismo pretende prosseguir até ao mais além sem limites. No entanto, olhando o mundo, parece que o desânimo é a única via. Tanta miséria já aborrece: nos últimos cinco anos, o património dos 62 maiores multimilionários do planeta aumentou 44%. Simultaneamente, o rendimento das camadas pobres caiu 41%. Em 2015, a riqueza acumulada de 1% da população mundial superou a dos restante 99%. Em Portugal, de 2009 a 2014, os 10% da população mais pobre perderam 25% dos seus já parcos rendimentos e o aumento contínuo do fosso que separa as famílias mais ricas das mais pobres constitui o principal traço da evolução das desigualdades ao longo destes anos de crise. Em 2014, dois milhões de portugueses continuam em situação de extrema pobreza, mais 116 mil que em 2oo9. Segundo o presidente da Cáritas, as famílias estão cada vez mais empobrecidas. Como inverter esta situação? Ainda acreditamos nas políticas para criarem condições de possibilidade dessa mudança?

O homem foi feito para se forçar a si próprio e até mudar a natureza. Só se não quiser e desistir. Mas não podemos cortar as asas que nos deram…Por isso , ao político verdadeiro não bastam só os estudos científicos. É preciso sonhar e sentir também. Um cabeça de lista de deputados, nas últimas eleições para a Assembleia da República, afirmava num comício: “ Para sonhar é preciso ter os pés assentes na terra e para ter os pés assentes na terra é preciso sonhar”. Outro político de muita responsabilidade no sistema partidário nacional, também afirmava que “ na nossa vida, precisamos de mais do que ciência.  Precisamos de poesia”. Por isso, ao político cabe também visionar realidades novas, descobrir novas perspetivas, deslindar os enigmas da vida, não repousar nunca nas etapas conquistadas, não cair em dogmatismos asfixiantes, mesmo quando acredita na importância da sua atitude , do seu poder, do seu agir.

Um homem que não sonha pode ser, é simplesmente, mas não EXISTE, não se faz a si próprio nem ajuda os outros a fazerem-se. Antes  se submete cobardemente ao jogo mecânico da vida e da história. O governante que não sonha deixou de ser político, deixou de ser homem! Mas o cidadão que se angustia, se revolta, imagina, sente, inventa, cria, procura novas pistas e soluções, sofre consigo e com os outros, participa ativamente na construção do seu habitat individual e coletivo, não fazendo nunca da política uma profissão mas uma nobre e ética missão social, então reúne, em si, a genuina atitude poética, filosófica e científica e poderá vir a ser um modelo de político  governante.

Por mim, vou arranjar um bom candeeiro para, em próximas eleições,  iluminar a multidão de candidatos e me mostrar os mais incandescentes de acordo com estes atributos que procurei defenir.

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