Ponte da Barca celebra o Primeiro Abraço à Terra

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Primeira viagem de circum-navegação prestes a completar 500 anos

É, cada vez mais, um dado adquirido em como Fernão Magalhães é oriundo de Ponte da Barca. No seu testamento, que se encontra em Sevilha, cidade onde se casou, lê-se que “é oriundo do lugar de La Puente de La Barca, de Las Terras de Nóbrega”, designação anterior deste concelho. Mais propriamente de Paço Vedro de Magalhães.

Fernão Magalhães liderou, ao serviço do Rei de Espanha, a primeira viagem de circum-navegação à terra (1519 – 1522). Que viria, porém, a ser completada pelo navegador basco Sebastián Elcano, após a morte de Magalhães, em 1521, aos 41 anos de idade, durante uma batalha nas Filipinas. A Rota de Magalhães cruza oceanos, unindo quatro continentes e nove países.

NOME EM RUA, PRAÇA, ESCULTURA E CENTRO INTERPRETATIVO

Ponte da Barca orgulha-se de Fernão Magalhães e dos seus feitos. Na vila, o navegador dá nome a uma rua e a uma praça onde, em outubro de 2016, foi inaugurado um monumento em sua homenagem. A autarquia local tem apoiado a publicação de trabalhos científicos sobre o navegador e, mais recentemente, no aniversário do seu falecimento (27 de abril), ocorreu uma concorrida tertúlia que deu o “pontapé de saída” para o Ano Magalhânico e a celebração dos 500 anos da viagem de circum-navegação.

Ponte da Barca integra a Rede Mundial das Cidades Magalhânicas. Esta envolve cidades e localidades a nível mundial “que reclamam para si um conjunto de evidências e factos históricos que as integraram, no passado, no grande projeto de circum-navegação de Fernão de Magalhães e revela uma enorme dinâmica de missão em elevar a vida e a obra deste navegador a categoria mundial”. Integra Sabrosa, Lisboa, Sevilha (Espanha), Praia (Cabo Verde), Porto de San Julián (Patagónia/Argentina), Catbalogan (Filipinas), Tenerife (Canárias/Espanha), Punta Arenas (Chile), Tidore (Indonésia) e Montevideu (Uruguai).

Ponte da Barca atribuiu, ainda, o nome de Fernão Magalhães ao seu centro interpretativo, “um espaço de divulgação do património arqueológico e arquitetónico, que convida o visitante a percorrer o concelho e a conhecer, no lugar, os pontos de interesse do concelho”. Constitui, também, uma oportunidade de, através das modernas tecnologias, conhecer a vida e as aventuras da viagem de circum-navegação.

Situa-se naquela que foi a Casa da Maria Lopes da Costa, entretanto adquirida pelo Município. Foi a primeira habitação assoalhada da vila, datada do século XIV, então algo muito à frente no tempo! Nela terá pernoitado El Rei D. João I, o de Boa Memória, na sua peregrinação a Santiago de Compostela.

TRIDIMENSIONALIDADE DO ESPAÇO

Foi, pois, nesta que decorreu a conversa da VALE MAIS com Maria José Gonçalves, licenciada em História e Ciências Sociais e Mestre em Ciências da Educação, Área de Especialização em Supervisão Pedagógica na Educação em História e Ciências Sociais, pela Universidade do Minho, vice-presidente e responsável pelo pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Ponte da Barca.

Qual é o objetivo principal deste Centro Interpretativo que tem o nome de alguém cuja naturalidade barquense não é totalmente pacífica?

O propósito é de dar a conhecer e promover aquilo que é o património cultural material e imaterial de Ponte da Barca. Daí que este espaço tenha sido pensado numa tridimensionalidade.

Começamos com o território. É importante percebermos quem somos, sabermos de onde é que vimos. Há uma espécie de evolução cronológica daqueles que começaram por povoar o território de Ponte da Barca. É essa perspetiva de saber de onde é que vimos, como é que aqui chegamos, quando é que este território começou a ser ocupado, por quem e como se começou a desenvolver.

Depois, temos numa outra sala, a perspetiva do desenvolvimento socioeconómico. O que faziam essas pessoas, de que vivem, o papel da água, que tipo de culturas, também a questão da fé…  e isso justifica que tenhamos grandes monumentos, alguns até património nacional.

Temos, depois, aqui, natural de Ponte da Barca – não é uma pessoa qualquer, temos essa sorte desta terra ter, na história, grandes vultos….  e Fernando Magalhães foi um visionário.

É verdade que se questiona ainda hoje a questão da sua naturalidade – tivemos ainda recentemente uma tertúlia que discutiu isso. Neste espeço tudo gira em volta da sua pessoa e do seu grande feito que foi , gosto da expressão, o Primeiro Abraço à Terra. De facto, foi o primeiro a fazê-lo, a mostrar a sua esfericidade e, sobretudo, a provar que é possível contornar o nosso planeta.

Como é uma grande figura, todos querem ser pai e assumir a sua naturalidade. Mas, indubitavelmente, o apelido Magalhães é aqui de Ponte da Barca e, portanto, temos cada vez mais argumentos sólidos para provar que é um natural desta terra.

É importante a questão da naturalidade e temos feito trabalho nesse sentido.

CERTIDÃO DE NASCIMENTO DE FERNÃO MAGALHÃES

Há cerca de um ano, Ponte da Barca passou a integrar a rede de cidades magalhânicas. Nesta está outra terra que reivindica a sua naturalidade, Sabrosa. Como são as relações com Sabrosa?

Este executivo está no primeiro mandato. Estamos cá há meia dúzia de meses. Claro que somos todos de Ponte da Barca e nos revemos no grande feito de Fernão Magalhães. Cremos é que a investigação histórica até se aprofunde para constatarmos isso.

Coloca a questão de, no mesmo país, a naturalidade deste navegador ser disputada, especialmente, por Sabrosa e Ponte da Barca, mas também é por V. N. Gaia e, há quem diga, Ponte de Lima. Eu diria: aqui não há problema!

Quem está de fora coloca a questão de como é que Sabrosa está integrada nas cidades magalhânicas. É um organismo internacional que integra os vários continentes por onde Fernão Magallhães andou… o facto de Ponte da Barca ter sido reconhecido, estar integrado na rede, dá mais sustentabilidade ao facto dele poder ser daqui.

Esta sustentabilidade decorre do trabalho histórico. Tivemos um historiador, Amândio Barros, que publicou uma 1ª edição de um estudo, depois uma 2ª edição, sobre Fernão Magalhães. Não afirma taxativamente, mas diz, com quase toda a certeza, que Fernão Magalhães é de Ponte da Barca.

Mas, em história, o conhecimento é provisório. Estou em crer que ainda havemos de encontrar a certidão de nascimento de Fernão Magalhães. Quando isso acontecer, dissipar-se-ão as dúvidas.

Permita-me só este aparte. Estava eu a acabar de tomar posse e a chegar ao meu gabinete, quando recebi de um senhor de Leça de Palmeira – é um interessado em Fernão Magalhães – uma publicação com referências de 1920 e 1936. Nela, pessoas com autoridade na matéria, dizem taxativamente que a naturalidade de Fernão Magalhães é das Terras da Nóbrega, Ponte da Barca.

Reivindicamo-lo como nosso, mas, mais importante que a sua naturalidade, é o seu grande feito. Pudermos dizer que foi um homem visionário, foi o primeiro a ABRAÇAR A TERRA, a fazer a primeira viagem de circum-navegação, a quem atribuímos, do ponto de vista da geografia, o Estreito de Magalhães….

CENTRO INTERPRETATIVO PARA LOCAIS E TURISTAS

Que atividades são desenvolvidas aqui neste Centro?

Como qualquer centro interpretativo, as exposições são estáticas. Ainda que tenhamos estes quadros permanentes interativos, o sentido é o de dar a conhecer ao visitante – seja ele o barquense, o estudante ou o turista – aquilo que temos em termos de património e, depois, as pessoas irem ao local. Pode ser à Ermida, ao Lindoso, a S. Martinho de Castro, a V. N. Muia e contactar com esse património material que lá está…

Este novo executivo pensou que, às vezes, temos de fazer um exercício um bocadinho diferente. Muitos barquenses, se calhar, passam aqui todos os dias e nunca entraram portas adentro – e isto, antes de mais, tem de ser visitado e vivenciado por nós. Nesse sentido aliamos aqui duas ideias.

Fazer deste espaço uma espécie de galeria de arte onde jovens e menos jovens barquenses possam mostrar aqui também os seus trabalhos. Esta é a forma de trazermos artes para aqui. Também chamamos as pessoas e damos a conhecer melhor o que este centro interpretativo lhes permite observar, sentir e vivenciar.

Que público frequenta isto?

É um bocadinho abrangente. Sendo que maioritariamente são turistas nacionais e estrangeiros. Desde março que, a cada mês, temos aqui uma nova exposição de pintura ou fotografia. Isto está a chamar um outro público. O local. Para vir saber o que se passa aqui. A expetativa é que, cada vez mais, seja um espaço para ser visitado, sobretudo, pela comunidade educativa. Porque, de facto, temos aqui ferramentas muito importantes para puderem, depois, ser desenvolvidas em contexto de sala de aula.

E no futuro?

A ideia é tornar ainda este espaço muito mais interativo e apelativo. No âmbito da CIM Alto Minho, está projetado e prestes a ser viabilizado um espaço que vai ser aqui alocado e que tem um cariz tridimensional. Ou seja, levar o visitante a sentir-se verdadeiramente no espaço. É tentar recuar às Terras de Nóbrega na época romana ou mesmo ao neolítico. É um trabalho que será uma espécie de uma caixa, um invólucro que nos vai transportar no tempo.

Algo mais de pertinente por dizer?

Desafiar as pessoas a virem conhecer este espaço e Ponte da Barca. Tem um património riquíssimo, uma multiplicidade de monumentos que, aqui, sabemos que existiram e que depois podemos ir in loco. Mais do que elementos virtuais, é a realidade, é o podermos ir experienciar uma visita à Ermida e ver lá a pedra dos namorados, que é um monumento muito emblemático, é ir ao Lindoso visitar o Castelo e percorrer os trilhos na Serra Amarela, ir a Bravães e ver aquela verdadeira joia do românico rural que é o mosteiro de S Salvador de Bravães, ou a S Martinho de Castro ou a V. N. Muía… e, sobretudo, conhecerem as pessoas. Só há Ponte da Barca porque há pessoas. //

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