Ponte de Lima, Caminha e Viana do Castelo juntos para promover a Serra D’Arga

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Ponte de Lima, Caminha e Viana do Castelo juntos para promover a Serra D’Arga

Ponte de Lima, Caminha e Viana do Castelo juntos para promover a Serra D’Arga. Os municípios de Ponte de Lima, Caminha e Viana do Castelo uniram esforços para promover a Serra D’Arga, num projeto intermunicipal intitulado “Da Serra D’Arga à foz do Âncora”.

O objetivo é tornar este território numa “referência da paisagem portuguesa, nos domínios dos valores naturais e culturais, através da qualificação, proteção e promoção da sua singularidade paisagística, respeitando a identidade do lugar e a ancestral simbiose entre o homem e a natureza”.

Este projeto, que tem sido cofinanciado pelo Programa Operacional Regional do Norte 2014-2020 (NORTE2020), foi apresentado recentemente, nos Quartéis de Santa Justa, em plena Serra D’Arga, Ponte de Lima.

Na apresentação desta primeira fase do projeto, que resultou na elaboração de estudos técnicos, elaborados por uma equipa técnica liderada por Vilma Silva, do Território XXI, foi possível sistematizar o manancial de informação técnica e científica recolhida durante o período de investigação, assente num minucioso e detalhado trabalho de campo.

Desse trabalho, foi então apresentada uma Logomarca, um site, vídeo promocional, brochuras e aplicação móvel para interpretação de trilhos na serra.

A apresentação contou, ainda, com várias entidades, entre elas, Victor Mendes e Miguel Alves, presidentes das Câmaras de Ponte de Lima e Caminha, respetivamente, acompanhados por vários elementos dos seus executivos; Ricardo Carvalhido, vereador da Câmara Municipal de Viana do Castelo, e ainda Luís Pedro Martins atual presidente do Turismo Porto e Norte de Portugal.

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Como referimos anteriormente, o trabalho técnico esteve a cargo da empresa Território XXI.

Aquando desta apresentação, Vilma Silva, fez uma breve exposição do trabalho realizado ao longo de dois anos (iniciou-se em março de 2017).

Mais tarde, falamos com ela e Vera Santos Silva, arquiteta, e uma das integrantes desta equipa.

Que análise faz deste projeto e do trabalho retaliado até ao momento?

O balanço que a equipa de trabalho faz deste projeto é francamente positivo.

Tendo como objetivo primordial gerar conhecimento sobre um território praticamente desconhecido, determinar objetivos de qualidade paisagística baseados nos estudos de caracterização efetuados e propor estratégias de gestão da paisagem que vão de encontro às aspirações, tanto das populações, como dos representantes locais, acreditamos que a execução deste projeto será uma mais-valia e um passo importante para a valorização atual e futura do território compreendido entre a Serra d’Arga e a Foz do Âncora.

Os estudos desenvolvidos vieram demonstrar que a paisagem da Serra d’Arga e vale do Âncora até à sua foz resulta da interação harmoniosa entre o ser humano e a natureza, evidenciando, simultaneamente, grande valor estético, ecológico e cultural, razão pela qual o estudo propõe a criação de uma área protegida de âmbito regional.

Quais as principais dificuldades que encontraram na realização do mesmo?

A maior dificuldade consistiu na gestão de todo o manancial de informação recolhida, não tanto através das fontes de informação oficiais e não oficiais já disponíveis, mas principalmente através do extenso e detalhado trabalho de campo desenvolvido ao longo destes dois anos de intenso trabalho.

Vera Santos Silva
Vilma Silva

 

 

 

 

 

 

 

Desafiante foi também o desenvolvimento e a aplicação de uma metodologia de trabalho que permitisse analisar, avaliar, potenciar as qualidades e mitigar as vulnerabilidades deste território tão diferenciado, que agrega, numa distância relativamente curta, as características das paisagens serranas, dos vales férteis associados ao Rio Âncora e seus afluentes e das áreas costeiras junto ao mar.

O que podemos destacar no final deste projeto?

A execução deste projeto permitiu, antes de mais, a tomada de consciência da enorme riqueza de valores naturais, culturais e paisagísticos presentes em todo o território da Serra d’Arga e Vale do Âncora, valores esses até agora praticamente desconhecidos.

Para além da enorme diversidade de valores arquitectónicos e imateriais, que espelham os aspetos mais identitários e característicos das populações locais, os valores naturais (flora, fauna e geologia) adquirem, nestes territórios, uma importância fulcral.

Neste contexto, destaca-se o património florístico, tendo sido identificado mais de meio milhar de espécies de flora vascular, das quais cerca de 87% são táxones nativos e 32 são espécies RELAPE (Raras, Endémicas, Localizadas e Ameaçadas ou em Perigo de Extinção).

A Chupadeira-do-Minho (Scrophularia bourgaeana), encontrada em Arga de Cima, no concelho de Caminha, é, sem dúvida, a maior descoberta deste projeto. Trata-se de um endemismo ibérico que apenas tinha sido observado uma única vez em Portugal no vale do Ramiscal, na serra do Soajo, há cerca de 40 anos e, por isso, pensava-se que provavelmente estaria extinta no território nacional.

Neste projeto, destacamos,  também, o incansável envolvimento dos representantes dos municípios, quer a nível político, quer técnico. Não foi uma mera encomenda “chave na mão”.

Houve sempre um grande envolvimento dos representantes dos três municípios, o que permitiu alcançar este resultado francamente positivo.

Do ponto de vista da avaliação do território e do que o distingue de outros que já estudámos, destacamos o valor da paisagem, quer do ponto de vista estético, quer do ponto de vista ecológico.

No caso da Serra d’Arga, os aspetos culturais relevaram-se também surpreendentes (tanto em número, como em qualidade). Quando iniciámos os trabalhos,  não estávamos à espera de encontrar tantos valores culturais (arquitectónicos e imateriais).

Os resultados do inventário realizado foram surpreendentes pela positiva. Trata-se de um território culturalmente muito rico, com um enorme potencial.

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Quem também falou à VALE MAIS foi Miguel Alves, líder do município caminhense, que referiu que este projeto surgiu da necessidade de valorizar aquilo que é a força e o papel da Serra D’Arga no conjunto destes municípios.

“Se algo une estes municípios, para além da cultura e da geografia é a Serra D’Arga. Esta no coração de  Ponte de Lima, Viana do Castelo e Caminha e sentimos que tínhamos de fazer algo mais para valorizar aquilo que temos.

Saber a flora e a fauna, os valores culturais, materiais e imateriais, perceber bem a cultura desta serra que é uma espécie de subcultura neste mundo minhoto que tão bem conhecemos, ou seja, valorizar o território através daquilo que ele tem para oferecer.

É um projeto que levamos a cabo, na ordem dos 350 mil euros, e hoje, temos uma marca, um registo e vamos, sobretudo, lançar a Serra D’Arga para o futuro.

Estamos muito contentes com o trabalho alcançado e as pessoas, conhecendo aquilo que aqui temos. Perceberam que é um trabalho de exceção.

Queremos dizer às pessoas que temos aqui uma joia, e temos um potencial tremendo.

Os trilhos vão ser melhorados, terão sinalética própria e vão permitir, através deste projeto, ter outra dimensão.

Teremos, também, uma APP que irá permitir, a quem nos visita, saber a informação do local onde estão, o que podem encontrar e visitar na Serra D’Arga.

Depois, temos um objetivo maior, que é fazer deste local uma paisagem protegida de  âmbito regional, valorizando as pessoas, a sua economia mas também as espécies que aqui podemos encontrar”.

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Por seu lado, Vítor Mendes, edil limiano, revelou que esta é a primeira fase de um projeto, que é, uma das mais-valias do Alto Minho, quer do ponto de vista do património ambiental quer do cultural e rural.

“Este é um dia muito importante para todos nós porque, por um lado, resulta de uma parceria entre três municípios que tem uma estratégia comum relativamente a um determinado território, e depois, este é o início de um projeto que queremos consolidar e que terá como objetivo a criação de uma área de paisagem protegida de âmbito local e regional.

Nesta primeira fase, foi feito um levantamento daquilo que são os valores ambientais, culturais e do património.

É fundamental que estes projetos estejam em consonância daquilo que são os anseios e vontades das populações locais.

Está em causa a valorização de um território que pode e deve ser colocado ao serviço da economia local e da qualidade de vida das populações locais.

Do ponto de vista turístico é, também, extremamente importante associado a um turismo de natureza e de qualidade.

Ricardo Carvalhido, vereador da Câmara de Viana do Castelo, não tem dúvidas de que este é um projeto icónico para o Alto Minho.

“Temos aqui a conjugação de três municípios que estão em torno da nossa ‘Aurega’, que significa mãe do ouro.

De facto, a Serra de D’Arga é a galinha dos ovos de ouro do Alto Minho e nela reside um património fantástico, desde o imaterial ao natural, biológico e geológico.

O trabalho que foi desenvolvido e, agora, apresentado, vai permitir dar os passos necessários para uma classificação, que é o que pretendemos.

Relembro que as áreas de paisagem protegida trazem várias responsabilidades, como por exemplo, a existência de um plano de gestão, com uma estrutura que acompanhe o valor do território e que depois faz o seguimento e promoção.

Este é o primeiro passo, e foi o culminar das etapas que são necessárias para este processo de classificação. Agora virá a valorização, proteção e conservação do local classificado.

Por fim, é necessário realçar a intervenção de Guilherme Lagido, vice-presidente da Câmara de Caminha e um dos principais intervenientes na realização deste estudo.

“Este projeto nasceu, há muitos anos, e da curiosidade de conhecer a Serra D’Arga.

Uma das coisas que me fazia confusão é como é que um património desta envergadura com esta dimensão e envolvendo três concelhos era tão pouco conhecido. Já muita gente passou pela Serra D’Arga, mas muita pouca a conhecia, verdadeiramente.

Quando cheguei a Câmara de Caminha, o presidente Vítor Mendes, de Ponte de Lima, disse-me num certo dia: “é desta vez que vamos conhecer a Serra D’Arga”!?

Disse-lhe que sim, mas sem grande convicção. Até que um dia  fizemos uma candidatura e este projeto acabou por ser financiado. E este projeto tem basicamente três vertentes; Conhecimento; Divulgação; Promoção.

No conhecimento, património natural, obrigatório, (fauna, flora, geologia), paisagem, valores culturais, património imaterial.

Na divulgação criar atlas para todas estas áreas, que dão um conhecimento ao detalhe, e que, de certeza absoluta, nenhum outro local de importância comunitária é tão bem conhecido como é, hoje, a Serra D’Arga.

A promoção, onde foi criada uma marca, um logótipo, um vídeo promocional e um documentário sobre a Serra que será a síntese de tudo isto.

Trabalhou aqui uma vastíssima equipa, de pessoas com elevadíssimo grau de formação, de conhecimento, com um empenhamento que há muito tempo não via e com um trabalho de dois anos a estudar todo o terreno, com todo o cuidado.

Estou muito contente porque a Serra D’Arga tem, finalmente, o lugar que merece e já não é um potencial, é uma realidade”.


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Paisagem

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Com cerca de 9 km de comprimento por 5 km de largura, o afloramento granítico que constitui o cume da Serra d’Arga é o elemento mais distintivo desta paisagem. Culminando a 825 metros de altitude, no Alto do Espinheiro, dele brotam inúmeras linhas de água. As suas vertentes altamente declivosas e pedregosas contrastam com o seu topo, onde se encontram as maiores chãs e onde se podem, frequentemente, observar manadas de garranos a pastar. No sopé da serra e ao longo dos vales do Âncora e do Estorãos localizam-se as povoações, as matas e os característicos conjuntos de socalcos.

Património cultural

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A elevada riqueza patrimonial da Serra d’Arga é comprovada pela diversidade de valores arquitetónicos presentes no território: as casas de montanha, os moinhos de reduzidas dimensões, a profusão de alminhas, cruzeiros e capelas ao longo dos caminhos, as pontes e os pontões que possibilitam o atravessamento pedonal das inúmeras linhas de água que sulcam a serra até à foz do Âncora. Do ponto de vista etnográfico, as dezenas de festas e romarias que se realizam anualmente proporcionam ricas manifestações de religiosidade popular.

Flora

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A Serra d’Arga possui 546 espécies de plantas vasculares, incluindo 32 espécies raras ou ameaçadas de extinção. Destas, destaca-se a chupadeira-do-Minho e o feto Dryopteris carthusiana por estarem quase restritos à Serra d’Arga em Portugal. Para outras espécies, tais como: arranha-lobos, raiz-divina-de-cheiro, Laserpitium prutenicum subsp. duforianum, Succisa pinnatifida e Carex durieui, esta serra apresenta a maior, ou uma das maiores, populações em Portugal.

Fauna

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A Serra d’Arga possui uma fauna muito diversificada, com presença confirmada de mais de 180 espécies de vertebrados selvagens. As aves são o grupo mais abundante, beneficiando da grande variedade de biótopos particulares, tais como: o estuário e corredor fluvial do Rio Âncora e as áreas serranas, incluindo as escarpas e os planaltos. Nestes biótopos podem ainda ser encontradas várias espécies de peixes, anfíbios, répteis e mamíferos, das quais se destacam várias raras e emblemáticas, nomeadamente o lobo, a salamandra-lusitânica, o falcão-peregrino e o bufo-real.

Geologia

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A geologia da Serra d’Arga é caracterizada por um proeminente batólito granítico, próximo do mar, que atinge os 825 metros de altitude no Alto do Espinheiro. A paisagem granítica expressa-se no modelado de vales, de cristas e de vertentes, mas também em microformas variadas, tais como: caos de blocos, tors, pseudoestratificação, planuras e blocos pedunculados.



Lítio – Energia de futuro ou ‘desgraça’ ambiental


Veja a outra reportagem publicada na revista Vale Mais, sobre a Serra D’Arga e a possível exploração de lítio que poderá ser alvo. Veja as opiniões de José Manuel Carpinteira, Brito Ribeiro e Nélson Azevedo, numas análises a nível político, ambientalista e Turismo, respetivamente.

Lítio – Energia de futuro ou ‘desgraça’ ambiental

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