PONTE DE LIMA :: Os Veleiros e os ‘Almirantes’ do Lima

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Estávamos em pleno século XV. O leito do Lima ainda não padecia de assoreamento e Ponte de Lima (PL), que organizava “a feira mais concorrida da região” (José Norton), florescia como um destacado e atrativo  entreposto comercial, recebendo, no refúgio do seu luminoso porto fluvial, as míticas caravelas portuguesas que “traficavam com a Irlanda e os portos do Mediterrâneo” ‒ como nos diz Jaime Cortesão.

Esta influente rota comercial – com o passar do tempo – foi sofrendo  transmutações hidromorfológicas que vieram dificultar a pujante navegação fluvial com a costa atlântica.

O assoreamento do leito afastou as caravelas do bucólico Belion, tendo Miguel Lemos imputado esse comprometimento “ao péssimo sistema que os nossos lavradores seguem” de “roçarem os matos”, provocando o arrastamento de areias dos “montes e outeiros”.

O povo manifestou  as suas preocupações; os políticos cogitaram as mais variadas soluções.

Em 1784 – conta-nos M. Lemos – a Sociedade Económica de PL, querendo estimular a navegabilidade do rio, propôs ao Governo a sua canalização, estreitando o seu curso. Essa obra foi aprovada em 19/02/1805, iniciou-se em abril desse mesmo ano, mas foi parada, definitivamente, no último dia de 1807.

DAS CARAVELAS AOS “ÁGUA-ARRIBA

As lendárias caravelas deixaram de poder subir as águas plácidas do romântico Olvido, mas este rio antigo continuou a ser seduzido pela circulação viva e abundante de outras embarcações: as pitorescas “barquinhas” para a passagem entre margens e os garbosos “água-arriba”, com deslocação “à vela”, para transporte de mercadorias.

Mas se há povoação onde o bulício do tráfego fluvial marcou, durante séculos, a fisionomia da paisagem, é a medieva e sempre adorável vila limiana.

Nos rústicos embarcadouros das suas margens coloridas atracavam esses nobres veleiros – os “água-arriba” -, com os seus 15 metros de comprimento, providos com o seu altivo mastro, ao centro, e com o seu delicado leme, à retaguarda, sempre manobrados por dois ou três tripulantes – os valorosos, sábios e experientes “almirantes do Lima”.

Nos anos 80, Francisco Dantas, também ele um devoto e insigne “senhor do rio”, dizia-nos para um programa de rádio, emitido na Antena 1: “Era bonito vê-los a chegar à nossa vila – os ‘água-arriba’ –  lá ao fundo, junto à Guia, de vela içada, enfunada com o vento!”

Também os “água-arriba” são hoje uma imagem remota, perdida na memória dos arquivos pictóricos, tendo sido vencidos pela força do progresso. Aqui triunfaram os transportes rodoviários, já que, os ferroviários – Linha do Vale do Lima – foram uma “quase-realidade” do século XX e são, ainda hoje, um pesadelo intermitente (e oculto) para todos nós.

O Lima continuou com as suas metamorfoses e a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) diagnosticou-as explicitamente.

Diz a APA que as barragens construídas a montante de PL (1992 e 1993) trouxeram uma “quebra do continuum fluvial e alteração do regime de escoamento natural” e adianta as soluções: eliminar a barragem; recuperar a morfologia natural; repor o regime hidrológico. Mas aponta as consequências: desapareceria a capacidade de regularização de cheias a jusante…

Sendo assim, será que alguém “compra” estas soluções? Talvez… talvez um dia!

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